A Honestidade em ‘Odisseia Emergente ao Fracasso’ do Ironias | Resenha

Há álbuns que celebram conquistas. Outros preferem encarar o tombo. Odisseia Emergente ao Fracasso, do Ironias, escolhe a segunda via e o faz com uma honestidade rara na cena atual. Longe de soar derrotista, o disco transforma a queda em narrativa, a frustração em motor criativo e o desencanto em comentário social.

Desde as primeiras faixas, o Ironias deixa claro que a proposta não é conforto. As canções avançam como capítulos de uma jornada torta, em que expectativas se inflamam para, logo depois, colidir com a realidade. Musicalmente, o álbum transita entre arranjos tensos e momentos de economia quase claustrofóbica, como se o silêncio também fosse parte do discurso. A produção evita o polimento excessivo. Há arestas, há ruídos e há intenção nisso.

As letras são o ponto alto. Com ironia, como o próprio nome da banda sugere, o grupo observa o sujeito contemporâneo encurralado entre promessas de sucesso e a experiência cotidiana do fracasso. Não se trata de cinismo vazio, mas de um olhar crítico que aponta contradições do trabalho, da ambição e da identidade. Quando o Ironias é mais direto, acerta. Quando flerta com o excesso de metáforas, por vezes perde impacto, mas nunca a coerência.

Há, porém, um risco assumido. A densidade constante pode cansar ouvintes menos dispostos a acompanhar a odisseia até o fim. Falta, em alguns momentos, um respiro melódico que amplie o alcance emocional do disco. Ainda assim, essa escolha parece consciente. O álbum quer incomodar mais do que agradar.

Odisseia Emergente ao Fracasso não é um trabalho feito para hits ou consumo rápido. É um disco que pede escuta atenta e disposição para encarar perguntas incômodas. Ao transformar o fracasso em eixo narrativo, o Ironias entrega um retrato ácido e pertinente do nosso tempo e prova que, na arte, cair também pode ser um gesto de resistência.

Fundado em 2014 por Jacintho, o IRONIAS surgiu no circuito punk/DIY do interior de São Paulo, entre as cidades de Leme e Jundiaí, construindo sua trajetória inicial com urgência, intensidade e total independência. Foram dois EPs, turnês pelo Sul do país e uma sonoridade crua e poética que marcou o underground da época.

Agora, com JacinthoCely CoutoMatheus Campos e Lucas Rosa na formação, o projeto renasce com maturidade e experimentação, reafirmando sua essência sem perder o ímpeto que o originou.

‘Odisseia Emergente ao Fracasso’ reúne 11 faixas que oscilam entre o indie rock, o pós-punk e até mesmo o punk-hardcore, construindo uma estética em que atmosferas densas e luminosas se entrelaçam. As guitarras são ora cortantes, ora etéreas; a bateria pulsa com energia vital; o baixo sustenta um terreno emocional em constante ebulição.

A arte da capa de ‘Odisseia Emergente ao Fracasso’ é de Diogo Robert de Lima, um artista indígena que mora no interior de São Paulo e a finalização é de Lari Limoeiro. O artista construiu cada quadro da capa baseado em um glossário de ideogramas que quando combinados transmitem uma mensagem.”Cada imagem corresponde a um tema presente no álbum, podem ser também representações de partes de uma jornada. Essas imagens também são literalmente um tipo de escrita, baseada em ideogramas e glifos. Existe um pequeno glossário com tais símbolos que quando combinados produzem variados sentidos. Em outras palavras, é possível ‘ler o álbum através da capa’. As influências são glifos pré colombianos, adinkra (uma linguagem de símbolos africanos) e alquimia/ tarot”, diz Lima.

Faixa a Faixa

1. Do Futuro
A faixa de abertura estabelece o tom do álbum com uma urgência existencial, costurando questões sobre nossas expectativas em relação ao amanhã e a ansiedade gerada pelo ritmo acelerado da sociedade atual. É um recomeço que já questiona se ainda sabemos olhar para frente sem perder parte de nós mesmos no processo. A introdução serve como um pacto: o ouvinte será desafiado desde o primeiro acorde. Destaque para a construção das linhas de bateria.

2. Telaviv Ou Quando o Meu Amor Acabar
O título é enigmático e carrega uma ambiguidade poética sobre amor e distância física ou emocional. A música explora a sensação de deslocamento afetivo e os conflitos interiores que surgem quando relacionamentos acabam, não apenas pela perda em si, mas pelo que deixam em aberto na paisagem íntima. As sonoridades nos transportam para os anos 80, em um pós-punk com alguma levada de The Cramps. Essa é para quem curte dançar!

3. Insaciável
“Insaciável”, por sua vez, mergulha na voracidade emocional e na busca incessante por algo que nunca se completa. É quase uma passagem climática no disco, que confronta o vazio gerado por expectativas incessantes e a incapacidade de saciar anseios internos. Aqui, o destaque vai para o vocal, que a mim, que sou 50+, remeteu a fase áurea do Cazuza.

4. Seis por Um
Curta e impactante, numa pegada meio punk hardcore, mas sem deixar os elementos do rock oitentista, a quarta faixa cria um senso de desequilíbrio e tensão. Um momento que intensifica a narrativa da odisseia emocional proposta pelo álbum.

5. Odisseia Emergente ao Fracasso
A faixa-título funciona como epicentro temático. Aqui, o conceito de fracasso deixa de ser um estigma para tornar-se lente crítica sobre expectativas sociais e pessoais. A música resume a visão do álbum: há dignidade tanto na luta quanto na queda, e os erros que nos moldam têm tanto peso quanto as vitórias. Aqui o destaque está nas linhas de baixo, tão importantes nos gêneros escolhidos para a mistura que é o Ironias. O vocal aqui assume outro tom, o que é bastante interessante.

6. Malmalmalmalmal
Faixa que ecoa sensação de turbilhão, esta música traz uma energia quase visceral e talvez seja a mais punk do álbum. O arranjo vertiginoso e a repetição de alguns riffs criam um efeito hipnótico que pode representar o desgaste psicológico e a confusão emocional num mundo saturado de estímulos e contradições.

7. Maré
“Maré” parece ser o ponto de respiro do álbum, uma balada que ao mesmo tempo que reforça a ideia de ciclos naturais que nem sempre podemos controlar. A imagem da maré funciona como metáfora para fluxos e refluxos de vontade, força e vulnerabilidade e é um balanço emocional que ecoa por todo o disco. Em tempos de rapidez, a escolha de fazer um som mais lento vai na contra-mão e acerta em cheio com o nosso íntimo.

8. Não Há Lucas
Aqui, riffs dissonantes nos abraçam, na ausência, e a letra de “Não Há Lucas” reforça esse vazio, evocando a sensação de estar perdido e sem direção. A música expõe uma camada mais sombria da experiência humana, confrontando a desesperança de um eu que procura sentido num cenário de incertezas

9. Podreres
Com um nome que parece fragmentar “poderes” e “podre”, a música pode ser lida como crítica à corrupção de forças que deveriam servir ao coletivo. É um momento de reflexão política e emocional, onde o som e a letra se combinam para questionar estruturas de autoridade e as consciências que delas dependem. O conjunto de vocais nesse som, cria uma experiência única ao ouvinte, e o sentimento de fazer parte da indignação.

10. Sem Sentido
A faixa representa um ponto de colapso narrativo no álbum, onde aquilo que buscamos parece, momentaneamente, desprovido de significado. É um mergulho na perplexidade diante do absurdo, e talvez um convite à aceitação do caos. A faixa é menos dançante, apesar da construção da linha de bateria, os riffs são mais raivosos. Aqui me recordo de uma das clássicas bandas góticas brasileiras dos anos 80, ativa até hoje: Elegia.

11. Me Engole
O encerramento traz uma intensidade crua, como se fosse uma conclusão inevitável de tudo que foi exposto até aqui. Fecha o álbum com um misto de intensidade emocional, com passagens que nos remetem a The Cure, mas com a ambiguidade do vocal, que traz uma perspectiva mais contemporânea do rock alternativo brasileiro.

Esse é um trabalho que pode soar divertido e emocional ao mesmo tempo, que carrega muito da identidade que os anos 80 tiveram de melhor dentro do rock.

O Death Metal Técnico em Empty Idolatry do Torment The Skies

Quando a banda potiguar Torment The Skies anuncia um novo trabalho, espera-se brutalidade e em Empty Idolatry essa expectativa é cumprida com convicção. O EP, com quatro faixas, reforça a proposta de death metal técnico e combativo da banda, mas vai além: traduz indignação, crítica social e questionamento ao dogma em som tão cru quanto urgente.

Logo na faixa-título, “Empty Idolatry”, a banda dá a entender sua filosofia: idolatrias vazias, religiosas, sociais, ideológicas serão examinadas com instrumentos cortantes. A música soa como introdução consciente: rápida, direta e com a agressividade de quem não busca sutileza, mas impacto. A sonoridade é afiada, com riffs secos e bateria implacável, combinando agilidade e peso de modo eficiente.

Em “Temple of Mammon”, talvez o ponto mais explosivo do EP, a crítica social se torna explícita. A banda e especialmente o vocalista, denuncia a ganância disfarçada de fé, o “evangelho da prosperidade” que, segundo eles, “mata, cega e ilude a humanidade”. Musicalmente, a faixa mantém o ritmo intenso, com viradas bruscas, instrumental técnico e atmosfera carregada, perfeitamente alinhada ao tema de revolta. O videoclipe acompanha essa brutalidade com imagens simbólicas e encenações fortes, reforçando a mensagem de ira e repúdio.

“Brain-Devouring God” mergulha no terror existencial e na crítica à manipulação mental, a letra sugere uma “divindade devoradora de cérebros”, metáfora que denuncia líderes religiosos que reprimem o pensamento crítico e escravizam consciências. A música, com seus 4 minutos de duração, equilibra técnica e frenesi: os riffs trabalham com precisão, a bateria pulsa firme, e a densidade sonora cria clima claustrofóbico, ideal para o tema.

Por fim, “Ancient Abominable Practices” fecha o EP com peso e carga histórica. A faixa evoca passado sombrio “práticas abomináveis” e propõe uma reflexão sobre os abusos antigos associados à religião institucionalizada. O instrumental segue na mesma linha: grave, opressor, com cadência muitas vezes deliberada, como se cada batida fosse uma sentença de julgamento.

No conjunto, Empty Idolatry confirma a Torment The Skies como uma das vozes mais militantes do death metal nordestino contemporâneo. O EP entrega agressividade e técnica, mas sobretudo coragem: de questionar instituições, de denunciar falsos profetas, de confrontar tabus. A produção independente mantém o espírito cru e underground, sem polimentos supérfluos, o que reforça a honestidade do discurso.

Para quem acompanha o metal extremo nacional, o EP é um soco na cara da complacência: um alerta de que som pesado não precisa ser vazio pode ser ferramenta de combate e consciência. E, para quem ainda não conhecia a banda, Empty Idolatry funciona como convocação: não à adoração cega, mas à reflexão crítica, com guitarra, baixo e bateria do lado da indignação.

As Criaturas da Noite Que Deveriam Ganhar o Mundo | Resenha de Creatures II do Creatures

Conheci o CREATURES, banda de heavy metal de Curitiba, por meio de uma entrevista divertidíssima e super importante, dada pelo vocalista Marc Brito ao programa Blasfêmea, do canal Scena. Apenas conhecia o Hellway Train, pelo Ao Vivo no mesmo e tive a felicidade em vê-lo em ação na turnê no nordeste. A partir dali parti para ouvir seu novo disco, Creatures II, e aquilo que parecia apenas mais lançamento nacional soou como um verdadeiro chamado para quem ainda acredita no espírito do heavy metal tradicional e que efetivamente deveria figurar entre os melhores do ano em todo o mundo.

O segundo trabalho do Creatures, com data oficial de lançamento em 14 de novembro de 2025 pela gravadora High Roller Records, revela uma banda fortalecida, segura da própria linguagem e decidida a deixar uma marca. Gravado entre setembro de 2024 e março de 2025 no Heavy Tron Studio, com produção do guitarrista Mateus Cantaleäno e de Arthur Migotto, o disco apresenta a formação: Marc Brito (vocais), Mateus Cantaleäno (guitarra), Ricke Nunes (baixo) e Sidnei Dubiella (bateria), com participações adicionais pontuais que enriquecem a textura sonora.

O que salta aos ouvidos já na abertura com “Inferno” é uma atmosfera mais densa, sombria, mas ainda pulsante de energia, não feliz, mas viva. Em faixas como “Devil in Disguise” e “Night of the Ritual”, o Creatures demonstra como domina a arte de unir riffs clássicos e vocais teatrais a hooks melódicos e refrões marcantes. Há uma nítida reverência às raízes do heavy / hard rock, seja na estrutura das músicas, nos solos de guitarra ou na voz potente, mas sem nostalgia vazia: a pegada é contemporânea, o peso real e as composições soam convictas.

“Beware the Creatures” talvez resuma melhor o espírito do álbum: uma junção de atitude, técnica e sentimento. A produção permite que cada instrumento respire: os graves do baixo e da bateria sustentam a base, enquanto a guitarra de Cantaleäno brilha com solos e melodias que lembram grandes nomes do metal clássico. A entrega de Marc Brito nos vocais reforça a dramaticidade, conferindo credibilidade às letras, às vezes mais sombrias, às vezes angustiadas, mas sempre intensas.

Para quem, como eu, descobriu o Creatures recentemente, Creatures II não soa como mera sequência de estreia soa como uma ode ao verdadeiro AÇO. Uma reafirmação de que o heavy metal, mesmo em um país cujo underground muitas vezes privilegia o extremo, continua vivo, relevante e cheio de força. Com este álbum, o Creatures se coloca como uma das poucas bandas nacionais capazes de dialogar com legados clássicos sem soar retrô e sim urgente, necessário, atual.

Se o metal precisa de urgência e honestidade, Creatures II entrega isso. E talvez esse seja seu maior triunfo: ressuscitar o espírito do heavy sem concessões, com energia, convicção e alma.

Faixa a faixa

1. Inferno

A faixa de abertura coloca a atmosfera do disco imediatamente: pesada, urgente, com riffs marcantes e vocais intensos. Serve como introdução eficaz, preparando o terreno para o clima sombrio e ao mesmo tempo energético que permeia o álbum.

2. Devil in Disguise

Com riffs clássicos, andamento firme e refrão cativante, esta faixa consegue unir a brutalidade do metal com melodias acessíveis. “Devil in Disguise” se destaca por sua estrutura equilibrada agressiva na instrumentação, mas com momentos melódicos que ajudam a criar contraste.

3. Night of the Ritual

Aqui o Creatures aposta em uma ambientação quase ritualística, evocando imagens de cerimônias sombrias, mistério e tensão. A atmosfera da música dá sensação de horror gótico em pleno heavy metal, mostrando que a banda não tem medo de explorar tons dramáticos e de mergulhar no sombrio com competência.

4. Beware the Creatures

Uma das faixas mais emblemáticas do disco. Com riffs marcantes, melodia forte e refrão que gruda, ela parece funcionar como um manifesto da própria banda, é um chamado para o ouvinte abraçar tudo o que o Creatures representa. A energia pulsa intensa, e a produção destaca bem cada instrumento, reforçando o peso e a pegada clássica do metal.

5. Dreams

“Dreams” traz um clima talvez um pouco mais introspectivo e melódico, oferecendo um respiro em meio à agressividade das faixas anteriores. A alternância de momentos mais suaves com passagens mais intensas dá dinâmica ao álbum, mostrando que o Creatures sabe dosar seus elementos.

6. Queen of Death

Com uma pegada mais sombria e talvez mais dramática, essa faixa utiliza vocais e instrumentação para explorar temáticas intensas o título já sugere um tom pesado, e musicalmente a banda entrega coerência com esse espírito. Há um senso de teatralidade e peso que fazem dela uma das mais densas do disco.

7. Pure Madness

“Pure Madness” retoma a agressividade com força: riffs mais diretos, andamento vigoroso e energia que não dá trégua. A música parece representar o lado mais cru e visceral do Creatures, lembrando a essência bruta do heavy metal sem adornos excessivos.

8. Danger

Com ritmo marcante e melodias envolventes, “Danger” equilibra a força do metal com pegada quase hard-rock; é uma das músicas que mais evidencia a versatilidade da banda, capaz de alternar entre peso e acessibilidade com naturalidade.

9. Nothing Lasts Forever

Essa faixa traz uma sensação de melancolia, mas não é definitivamente melodramática, porém é carregada de sentimento/sofrimento. A atmosfera mais introspectiva funciona como um contraponto às faixas mais agressivas, adicionando profundidade emocional ao álbum e mostrando que o Creatures não busca apenas impacto sonoro, mas também nuance.

10. Path of the Night

Para encerrar a versão padrão do álbum, “Path of the Night” entrega um fechamento coeso: mistura de peso, melodia e sobriedade, dando a sensação de conclusão de um ciclo. A música age como epílogo, reunindo os elementos que o disco explorou: agressividade, melodia, atmosfera, dramaticidade, e deixando o ouvinte com a impressão de que a jornada valeu a pena.

Esperamos que o heavy metal nacional ganhe o mundo e que o Creatures ganhe palco de grandes festivais, pois a qualidade artística há de sobre.

O Amadurecimento, Fortalecimento e Potência do Inraza

Os três últimos singles da banda paulistana de Groove Metal, Inraza: “Crowning”, “A Loner” e “Somos Aqueles”, marcam uma etapa decisiva de amadurecimento artístico da banda, que, após um período de ajustes e transições, consolidou sua formação atual e passou a apresentar uma identidade musical mais clara e coesa. Esses lançamentos funcionam como um conjunto de declarações estéticas e conceituais que apontam diretamente para o álbum previsto para 2026, indicando não apenas evolução sonora, mas também estabilidade criativa.

Crowning” surgiu como o primeiro sinal dessa nova fase, reafirmando o peso característico do grupo, porém com maior precisão nos arranjos e uma abordagem mais refinada na construção das atmosferas. A faixa funciona como um manifesto de renovação: agressiva, técnica e carregada de intenções, evidencia que a banda encontrou segurança na própria linguagem e está pronta para se aprofundar nela.

Na sequência, “A Loner” amplia o alcance emocional do Inraza. O single revela uma faceta mais introspectiva, explorando sensações de isolamento e conflitos internos sem perder a contundência que sempre marcou o som do grupo. O contraste entre a densidade lírica e a força instrumental sugere uma busca mais complexa por nuances, mostrando que a banda não se limita ao impacto imediato, mas procura construir camadas interpretativas e sonoras.

“Somos Aqueles” representa um momento simbólico e histórico na trajetória do Inraza: é o primeiro feat da carreira da banda, trazendo a participação da vocalista Nata de Lima, da Manger Cadavre?. O resultado é um som mais visceral, direto e rápido, que carrega de forma explícita a influência do Manger. A inspiração foi tão forte que o próprio Inraza revelou que o apelido interno da música era “A Manger”, refletindo essa conexão estética e sonora. Cantada em português, a faixa reforça as raízes da banda, retoma o teor crítico presente em seus primeiros trabalhos e aproxima ainda mais o grupo do público local, evidenciando confiança e maturidade nesta nova fase. Destaque para as linhas de baixo marcantes, riffs pesados e bateria mais direta. Vale reforçar que o final é de arrepiar.

Juntos, os três singles formam um panorama nítido da maturidade atual do Inraza. A formação estabilizada trouxe concisão, personalidade e direcionamento, e cada lançamento recente atua como uma peça complementar na construção do novo capítulo da banda. O que se observa é um grupo que encontrou equilíbrio entre brutalidade, técnica e propósito, preparando terreno para um álbum que promete sintetizar essa evolução e consolidar o momento mais sólido da carreira do quarteto.

Com todo o respeito aos demais integrantes que passaram pela banda, essa é a formação em que o Inraza encontrou sua identidade, se desenvolveu e promete ainda muito mais. Aguardamos o álbum!

Mukeka di Rato lança “Generais de Fralda”, um retrato brutal do Brasil contemporâneo | Resenha

O grupo capixaba Mukeka di Rato apresentou em 2025 seu novo álbum, Generais de Fralda, marcando três décadas de atividade dentro do hardcore brasileiro. O disco, lançado pela Deck, traz 13 faixas em pouco mais de 20 minutos e reafirma a estética agressiva que consolidou a banda como um dos nomes mais influentes do punk nacional.

Gravado no Estúdio Tambor, no Rio de Janeiro, e produzido por Rafael Ramos, o álbum mantém a tradição sonora do grupo: riffs diretos, vocais rasgados e uma bateria acelerada que remete ao crust punk de referência internacional. A combinação resulta em um trabalho coeso e intencionalmente áspero, que se opõe a qualquer tratamento de estúdio que suavize sua proposta estética.

A temática das letras segue o caráter político característico da banda. As composições abordam questões como militarização da sociedade, precarização do trabalho, violência institucional, farmacologização cotidiana e desigualdade social. A crítica é direta e sem ambiguidades, reforçando a postura antifascista que acompanha o Mukeka di Rato desde os anos 1990.

Entre as faixas de maior destaque está “Engenho de Sangue”, que sintetiza o tom do disco com críticas contundentes à exploração social. Já “Globo da Morte”, parceria com o rapper FBC, amplia o escopo musical do álbum ao incorporar elementos de rap em meio ao hardcore, discutindo as condições de trabalho de entregadores e motociclistas. O repertório inclui ainda composições como “Se Droga, Brasil!”, que trata da banalização do uso de medicamentos, e “Somente Moedas Acendem Velas”, que apresenta nuances melódicas sem romper a unidade estética do projeto.

Com Generais de Fralda, o Mukeka di Rato reafirma sua relevância em um cenário musical que raramente oferece espaço a discursos tão incisivos. A banda entrega um registro que funciona tanto como documento social quanto como obra musical voltada a um público que valoriza intensidade e posicionamento político. O resultado é um álbum direto, urgente e fiel à trajetória do grupo.

FAIXA A FAIXA

Generais de Fralda abre o álbum com a faixa-título, que estabelece de imediato o clima de urgência e confrontação. A música funciona como manifesto: acusa figuras de poder, os “generais de fralda”, de conduzirem a sociedade ao caos enquanto brincam com estruturas de autoridade. Na sequência, “Predadores Armados” aprofunda essa crítica ao focar na violência policial e na lógica do terror estatal, mantendo a velocidade e agressividade que definem o disco. A terceira faixa, “Se Droga, Brasil!”, desloca o foco para a medicalização do cotidiano, denunciando o excesso de remédios como válvula de escape para uma sociedade adoecida.

O tom se torna ainda mais sombrio em “Criança Morta”, que expõe tragédias envolvendo inocentes, ecoando guerras, conflitos e negligências sociais. Em seguida, “Engenho de Sangue” revisita as raízes coloniais brasileiras, denunciando o racismo estrutural e a herança violenta que molda o país. Já “Filho da Rua” volta o olhar para a população em situação de rua, retratando abandono, invisibilidade e desigualdade com um senso de desespero contido no instrumental acelerado.

A crítica ao conluio entre poder econômico e autoritarismo aparece em “Fascism and Big Business”, que liga militarização, indústria armamentista e opressão social. A oitava faixa, “Somente Moedas Acendem Velas”, introduz uma rara mudança de atmosfera: com ironia e leveza melódica relativa, a banda critica instituições religiosas que lucram com a fé e o sofrimento. Logo depois, “Tá Fácil Morrer, Tá Fácil Matar” surge como um ataque relâmpago, curtíssima e brutal, escancarando a banalização contemporânea da violência.

Em “Globo da Morte”, a banda aborda a precarização do trabalho dos motociclistas e entregadores, reforçada pela participação do rapper FBC, que acrescenta uma camada urbana e narrativa ao hardcore da banda. “Ferrão” retoma um tom mais abstrato e poético, destoando das críticas diretas das demais faixas e oferecendo um intervalo mais simbólico dentro da agressividade geral do álbum. Já “Último Dia da Guerra” resgata relatos da Segunda Guerra Mundial para refletir sobre trauma, destruição e memória histórica, conectando conflitos antigos a tensões atuais. O disco se encerra com “Desgraça Capixaba”, faixa com tom sarcástico que denuncia problemas estruturais do Espírito Santo, mesclando críticas políticas com influências rítmicas que expandem o espectro sonoro do trabalho.

O resultado desse percurso é um álbum compacto e incisivo, que utiliza velocidade, distorção e lirismo direto para construir um panorama das contradições e feridas sociais do Brasil contemporâneo.

O Peso do Groove em Delirium, Álbum de Estreia da Humanal | Resenha

O álbum Delirium marca a estreia da banda curitibana Humanal no cenário nacional com uma força rara para um primeiro trabalho. Lançado em 13 de agosto de 2025, o disco consolida a sonoridade que o grupo vinha desenvolvendo desde seu EP inicial e da repercussão conquistada com o single “A Resistência”, de 2023, além de sua participação em eventos relevantes da cena metal, como o Bangers Open Air e a abertura para a banda russa Slaughter to Prevail .

Com uma fusão de metal progressivo, groove e elementos extremos, “Delirium” aposta em densidade e variação. A produção privilegia uma estética crua, mas equilibrada, que preserva a aspereza do gênero sem comprometer a inteligibilidade dos instrumentos. A vocalista Tati Klingel se destaca ao alternar com naturalidade entre guturais vigorosos e passagens limpas, imprimindo personalidade e peso emocional às composições .

As letras, majoritariamente críticas e introspectivas, abordam temas como saúde mental, vício, alienação tecnológica, esgotamento, colapso ambiental e religiosidade, sempre com uma abordagem direta e pouco complacente. A faixa “Xawara”, cantada em português e inspirada na obra A Queda do Céu, de Davi Kopenawa, surge como um dos pontos altos do álbum: um momento de originalidade rítmica e temática que amplia a paleta estética da banda . Já “Burnout” funciona como um retrato cru do esgotamento contemporâneo, conduzida por alternâncias vocais que reforçam a sensação de desorientação e pressão constante .

Ao longo das dez faixas, a Humanal demonstra domínio técnico e maturidade artística. O álbum é coeso, intenso e consciente de seu discurso, evitando soluções fáceis e buscando equilíbrio entre brutalidade e melodia. Para a cena metal nacional, “Delirium” surge como um trabalho de estreia robusto, que posiciona a banda não apenas como uma promessa, mas como um nome disposto a ocupar espaço com autenticidade, peso e reflexão.

Faixa-a-faixa

1. “Echoes of Ether”

A abertura já entrega o tom: riffs agressivos e andamento acelerado. A faixa causa uma sensação de urgência e tensão um chamado imediato à atenção, preparando o terreno para as intensas reflexões que vêm a seguir.

2. “Abyss”

Aqui a banda desacelera um pouco, dando espaço para a cozinha, especialmente o baixo se destacar. A composição mistura peso com técnica, explorando grooves inesperados. Para além da agressividade, “Abyss” traz uma leve variação de clima, mostrando versatilidade.

3. “Addiction”

Uma das faixas mais densas do álbum: combina mudanças de andamento, variações de intensidade e vocais guturais bem potentes. Segundo a banda, e como refletido no videoclipe lançado, a música capta a energia dos shows ao vivo visceral, crua e honesta.

4. “Burnout”

Marca-se por sua carga emocional: alternâncias entre vocais limpos e agressivos criam um contraste que reforça o tema de esgotamento mental, angústia, pressão contemporânea. É uma faixa que convida à reflexão, sem abrir mão da intensidade.

5. “Vanity”

Nesta música, o peso retorna com força: guitarras rispidas e um baixo marcante dão o tom. A faixa tem um riff que remete ao metal clássico/trash e caminha para momentos melódicos, um equilíbrio agressivo e melódico que mostra parte da amplitude da Humanal.

6. “Oppressor”

Com uma pegada rítmica e crescente, “Oppressor” soa quase como uma marcha dura, firme, implacável. A construção instrumental evoca imagens de força e opressão, reforçando o clima sombrio e contestador que permeia o álbum.

7. “Xawara”

Talvez a faixa mais original do disco. Cantada em português e inspirada no livro A Queda do Céu de Davi Kopenawa ela traz influências indígenas e um groove que mistura peso e ancestralidade. A guitarra tem traços que lembram o metal brasileiro tradicional, mas a vibe é única: ritualística, intensa, com identidade própria.

8. “Animal Social”

A faixa aposta numa estrutura fragmentada, com viradas inesperadas e uma bateria bem marcada inclusive com bumbos duplos. Esse dinamismo cria uma sensação de inquietude, colaborando com a atmosfera crítica e desconfortável proposta pelas letras.

9. “Spiritless”

Aqui, o baixo volta a se destacar, conduzindo uma construção mais progressiva. A música mistura momentos mais calmos com explosões instrumentais, espelhando a pluralidade do som da banda. Representa bem o espírito experimental e ambicioso do álbum.

10. “The Art of Losing”

Para fechar, a faixa é mais cadenciada e pesada, com forte carga emocional. Não é a que mais exibe técnica, mas talvez seja a que mais entrega sentimento: traz um senso de finalização, de conclusão de jornada. Fecha o álbum com impacto e deixa a impressão de “retorno ao começo” como se o ciclo pudesse recomeçar imediatamente.

A ordem das faixas de Delirium parece cuidadosamente planejada para criar uma jornada emocional e sonora. Abertura vigorosa, transições de tensão e alívio, variações de ritmo e atmosfera, e um encerramento que funciona como um desfecho dramático. Esperamos poder conferir um show ao vivo dessa banda tão técnica!

O Death Metal Carioca Renasce com Portals to Chaosium, do Gutted Souls | Resenha

O novo álbum Portals to Chaosium, da banda carioca de death metal Gutted Souls, reafirma a maturidade de um grupo que há anos circula pela cena extrema brasileira, mas que agora consolida uma identidade própria ao unir brutalidade técnica, atmosfera sombria e uma produção contemporânea. O trabalho apresenta uma sonoridade que dialoga com o death metal dos anos 1990 e início dos 2000, porém filtrada por uma abordagem moderna, marcada por riffs densos, passagens rápidas e variações rítmicas que evitam a monotonia típica de alguns registros mais diretos do gênero. As guitarras ganham protagonismo com linhas complexas e solos que se aproximam do progressivo, enquanto a bateria sustenta o alicerce da agressividade com blast beats precisos e mudanças de tempo bem amarradas.

Além da força instrumental, o álbum se destaca pelo caráter conceitual. As letras exploram temas como niilismo, horror existencial, tecnologia opressiva e relações sociais deterioradas pela hiperconectividade, criando um pano de fundo distópico que dialoga com o caos sugerido no título. O single “Parasocial Parasitism”, já divulgado anteriormente, exemplifica esse viés crítico ao abordar as ilusões de intimidade e dependência emocional construídas pelas redes sociais. A combinação entre violência sonora e reflexão temática confere ao trabalho uma dimensão adicional, ampliando seu alcance para além do impacto imediato.

Com produção limpa o suficiente para valorizar os detalhes, mas sem sacrificar a aspereza do estilo, Portals to Chaosium evidencia uma banda consciente do que deseja expressar. Gutted Souls entrega um registro pesado, técnico e narrativamente coerente, capaz de agradar tanto os ouvintes que buscam brutalidade quanto aqueles que apreciam trabalhos mais complexos e conceituais dentro do death metal. O discose apresenta, assim, como um passo firme na evolução do grupo e um lançamento relevante dentro da música extrema nacional.

Sobre as músicas

O trabalho Portals to Chaosium do Gutted Souls se organiza como uma jornada sonora contínua que começa com Hallowed Chambers of Madness, uma introdução atmosférica que prepara o terreno para o horror cósmico que permeia todo o trabalho. Em seguida, Cosmic Ungod inaugura a porção brutal do álbum com riffaria veloz, solos melódicos e uma aura de entidade ancestral que dita seu próprio manifesto de destruição, já estabelecendo a mescla entre técnica e brutalidade que se tornará marca do disco. A terceira faixa, Parasocial Parasitism, mantém o peso mas desvia a temática para o presente, criticando de forma direta as relações ilusórias criadas pelas redes sociais e expondo a manipulação emocional e a intimidade fabricada enquanto os instrumentos constroem um ambiente denso e dissonante que reforça o desconforto proposto pela letra. Na sequência, Kings of Nothing adota uma abordagem mais old school, com riffs que remetem às raízes do death metal dos anos 90 e uma narrativa que evoca figuras de poder vazias, quase marionetes de forças maiores, ampliando o aspecto distópico do disco.

Multicosmic Domination System (Blacken the Mercury: Corrupt the Silver) aprofunda ainda mais o clima de ficção sombria ao tratar de dominação cósmica e transformação alquímica, enquanto a música alterna momentos técnicos e grooves pesados que mantêm o álbum dinâmico. Em Biotechnological Transhumanist Engineers, a banda mergulha num terror de viés tecnológico, narrando a intervenção biotecnológica e o distorcimento da humanidade por engenheiros transumanistas num cenário futurista e opressivo, acompanhado por arranjos que oscilam entre passagens cadenciadas e explosões intensas. Spectacle of Charred Flesh recupera a brutalidade direta, evocando guerra, violência e destruição em uma composição rápida e agressiva que carrega a crueza do death metal tradicional. Em Apathic Anger, o foco volta-se para a degradação emocional coletiva, ressaltando a apatia crescente de uma sociedade que se rende ao cansaço e à alienação enquanto a banda mantém a ferocidade e o caráter técnico que já se tornaram constantes no álbum.

A penúltima faixa, Zero-Sum Overlords, funciona como um ápice conceitual ao apresentar o surgimento de uma elite opressora que domina um mundo corrompido, sintetizando o terror cósmico, tecnológico e social espalhado pelas faixas anteriores em uma composição grandiosa e intensa. Por fim, Praise be the Cosmic Devourer encerra o álbum com um clima de desolação e reverência a uma entidade devoradora, fechando o ciclo temático com a mesma atmosfera obscura que o inaugurou. O resultado é um disco coeso, brutal e conceitual, que transita entre death metal técnico, brutalidade old school e ambientação narrativa, revelando a maturidade e a identidade sólida do Gutted Souls dentro da cena extrema brasileira.

A ordem das faixas de Portals to Chaosium forma uma narrativa integrada: começa com horror cósmico e ambientação sombria, passa por críticas à alienação digital e ao transumanismo, mergulha em destruição, decadência e manipulação, e conclui com a ascensão de uma ordem opressora ou de entidades dominadoras, numa visão distópica. Essa construção dá ao álbum não só coesão musical mas também uma profundidade conceitual que vai além da brutalidade sonora.

Além disso, a alternância entre death metal técnico, brutal e old-school torna a experiência variada, equilibrando agressividade, técnica e atmosfera. Para ouvidos atentos, há sutilezas nos riffs, solos e na produção que realçam os temas existenciais e de horror, reforçando a proposta da banda.

Sem dúvida, essa é uma das bandas mais promissoras do Rio de Janeiro, quando se trata de qualidade técnica. Esperamos que venha uma turnê pelo nordeste em 2026!

O Medo Como Forma de Controle: O Novo Álbum do Manger Cadavre? é um petardo da música pesada brasileira | Resenha

O álbum Como Nascem os Monstros, lançado em 2025 pela banda brasileira Manger Cadavre?, é um trabalho que reafirma a força do metal extremo nacional enquanto espaço de crítica social e reflexão sobre as contradições contemporâneas. Gravado no Family Mob Studios, com captação de Leonardo Mesquita (Surra), mixagem de Otávio Rossato e masterização de David Menezes, o disco apresenta uma produção que equilibra clareza instrumental e agressividade, permitindo que a potência sonora caminhe lado a lado com a mensagem das letras.

Concebido como um álbum conceitual, “Como Nascem os Monstros” investiga o medo em suas diversas formas: como mecanismo individual, ferramenta de controle social e gerador de violência simbólica e estrutural. As letras abordam desde a alienação e a manipulação midiática até a opressão institucional e a exploração social, mostrando que os monstros retratados não são seres sobrenaturais, mas produtos da desumanização e das contradições da sociedade. Ao cantar em português, a banda torna a denúncia mais direta e próxima da realidade brasileira, evitando abstrações e reforçando a urgência de sua mensagem.

Musicalmente, o disco mantém a agressividade característica da Manger Cadavre?, combinando thrash, crust e death metal, mas apresenta maior atenção à estrutura e à dinâmica das composições, com passagens até de um Death Doom, mas sempre acompanhados do D-beat, clássico do crust. Riffs densos e velozes se alternam com passagens cadenciadas e tensas, enquanto a bateria e os vocais acompanham com precisão o clima de tensão e desespero que permeia o álbum. A sonoridade cria uma experiência imersiva que transforma cada faixa em parte de uma narrativa maior, conduzindo o ouvinte por uma jornada que começa com inquietação e termina em uma reflexão sobre os monstros sociais e psicológicos que habitam o cotidiano.

A coerência conceitual do álbum é reforçada pela arte da capa, de Bárbara Gil, que mistura formas anatômicas e abstratas para representar visualmente o nascimento desses monstros a partir do medo e da insegurança. As doze faixas formam um conjunto orgânico, em que cada música contribui para o panorama de angústia, indignação e denúncia social, evitando que o trabalho se torne apenas uma coleção de músicas agressivas, mas sim um todo estruturado e intencional.

“Como Nascem os Monstros” demonstra maturidade artística e posicionamento crítico, reafirmando a Manger Cadavre? como uma referência do som extremo brasileiro e do underground engajado. É um disco que combina peso e técnica com consciência social, mostrando que a música pesada pode ser, ao mesmo tempo, uma ferramenta de resistência, reflexão e enfrentamento das injustiças contemporâneas.

Encontramos referências ao Death Metal Sueco, com o som cavernoso do HM-2 que Paulinho traz nas guitarras. No estilo, encontramos influência de Entombed, Bolt Thrower e Obituary. Ao mesmo passo, músicas como ‘Cancêr do Mundo’ e ‘Engaiolados’, trazem referências do heavy metal, são sons enérgicos, que nos remetem ao melhor de Wolfbrigade e Disfear, quando homenageiam bandas como Judas Priest e Motorhead.

Com um baixo muito bem executado, notamos a evolução de Bruno, que aparenta ser o mais jovem do grupo. Marcelo nos surpreende com pedais duplos brutais e a sua habitual energia do d-beat, mas com pratadas bonitas e que fazem toda a diferença no som. Por fim, o vocal de Nata está mais inteligível do que nunca, sem perder o ódio que ela despeja com maestria ao vociferar suas denúncias, como em Abutres, que aborda indiretamente a questão da Palestina e o financiamento de “israel” pelos EUA. Esse som nos faz permanecer em silêncio quando o vocal de Nata acaba sozinho.

Faixa a Faixa

1. Insônia (Instrumental)

A abertura do disco com uma faixa instrumental (pela primeira vez na história da banda) funciona como introdução de clima. “Insônia” prepara o ouvinte para a atmosfera de angústia, tensão e inquietação que permeia o álbum. A ausência de letra reforça justamente essa sensação de agonia silenciosa, o incômodo da mente que não dorme. Serve muito bem como primeiro impacto, antes que a voz e os gritos comecem a aparecer.

2. Engaiolados

Aqui começam as vozes e as letras diretas. “Engaiolados” sugere uma condição de aprisionamento físico, psicológico e social e denuncia as estruturas que aprisionam indivíduos: seja pela alienação, medo, pobreza, opressão ou manipulação. Entendemos que também aborda a FOMO (fear of missing out). Musicalmente, um peso cru e ao mesmo tempo trabalhado, com os já citados elementos do heavy metal, urgente, coerente com o estilo death/crust da banda, reforçando o desespero da condição de estar “enjaulado”.

3. Obsolescência Programada

Com esse título, a música parece abordar a lógica de descarte, não apenas de produtos, mas de pessoas, ideias, vidas. A letra denuncia como sistemas econômicos e sociais transformam tudo em mercadoria descartável, gerando sofrimento, desigualdade e precarização. Sonoramente, a faixa mistura agressividade e urgência, traduzindo a frustração e a crítica de maneira direta. O som tem um início longo, mas que não é enjoativo, mas que cede a um death crust enérgico, que possivelmente deve estar gerando mosh pits.

4. Como Nascem os Monstros

A faixa-título centraliza o conceito do álbum: como o medo, a alienação, o conformismo, a opressão e a violência social e simbólica moldam “monstros”, seres deformados pela dor, pela injustiça, pela manipulação e pela desumanização e que todos nós podemos ser “monstros” de outras pessoas. A música reune peso, densidade e tensão para transmitir a gravidade desse processo. É o núcleo temático: o álbum não fala de monstros fantásticos, mas de monstros reais, feitos por sociedades que se corroem por dentro.

5. A Terceira Onda

“Terceira Onda” se refere a uma nova fase de repressão que as Igrejas Neopentencostais utilizam como estratégia: o medo como fonte de persuasão, pois ao fiél, o inferno se pagará em vida, caso não aja conforme a cartilha. Com sonoridade intensa, a faixa expressa urgência, descontentamento e alerta para os perigos de repetição de opressões e tragédias. Destaque para as passagens melódicas da música que remetem a Carcass.

6. Paralisia

“Paralisia” evoca ideia de imobilidade, estagnação, incapacidade de reagir, talvez provocada pelo medo de se perder o pouco que se possui. A faixa transmite essa opressão psicológica, o peso da indecisão, da insegurança e do conformismo imposto. Sonoramente, riffs pesados e densos, ritmo sufocante, criando uma sensação claustrofóbica coerente com o título e o destaque se dá para os tambores de Marcelo que encerram o som como um decreto fúnebre.

7. Retórica do Silêncio

Esse título já sugere um jogo de contradições retórica que se impõe através do silêncio. Trata-se talvez da crítica ao silenciamento de vozes, à censura, à repressão, à aceitação silenciosa da opressão ou, talvez, da desistência em se discurtir, por se considerar uma perda de tempo, já que o “inimigo é outro”. A faixa provavelmente enfatiza a opressão simbólica e estrutural: o medo de falar, de se manifestar, o silêncio imposto. Musicalmente, alternar rupturas abruptas, tensão, agressividade com um final memorável que induz ao goregrind (mas bem curto).

8. Mortos que Caminham

Um título metafórico, “Mortos que Caminham” sugere alienação por meio de redes sociais, alienados que vivem em modo automático, sem consciência, sem autonomia, zumbis de um sistema doente. A música provavelmente traz urgência em rever o consumo digital, refletindo a desolação e a desumanização que esses processos causam no indivíduo. Sonoramente, é a faixa que mais curti, com palhetadas de Thrash e a essência caótica do crust.

9. Murmúrio

“Murmúrio” aparenta ser um som mais pessoal, que aborda o medo de tentar (O lamento pelo que não foi). A faixa trabalha atmosfera de tensão psicológica, angústia, caos mental em uma bonita poesia melancólica (As ondas são os fantasmas, que nos atrapalham o sono / Em um vai e vem de desejos tardios / Atormentados por um murmúrio). É a faixa mais introspectiva, sombria, explorando o medo subjetivo, o sofrimento silencioso e a instabilidade emocional. Sonoramente, mescla doom, sludge, death metal, com passagens mais rápidas que demonstram esse caos sentimental.

10. Efêmero

A faixa “Efêmero” assume no álbum a posição de provocar não apenas com sua sonoridade, mas com uma imersão sensorial no terror psicológico da experiência humana. No videoclipe, essa proposta se materializa: a banda opta por representar a crise de pânico como um encontro súbito e brutal entre o indivíduo e seus próprios demônios internos, transformando o medo invisível em horror concreto. Musicalmente, “Efêmero” dialoga com essa atmosfera: o som, agressivo, dá espaço a uma narrativa de angústia e desespero, coerente com os sintomas: taquicardia, sufocamento, sensação de irrealidade. A voz, os riffs e os elementos rítmicos funcionam como ecos desse mal‑estar: rápidos, sufocantes, quase claustrofóbicos, como se o som também estivesse respirando de forma descontrolada, junto com quem sofre a crise. Um dos pontos altos do disco.

11. Câncer do Mundo (Capitalismo)

Aqui a crítica social e política se torna explícita e direta. Com “Câncer do Mundo (Capitalismo)”, a banda denuncia o sistema capitalista como doença destrutiva que corrói sociedades, gera desigualdades, sofrimento, desumanização. A faixa provavelmente é uma das mais combativas do álbum: riffs pesados, agressivos, letras contundentes, denúncia social clara. A música simboliza o colapso moral e social gerado pela ganância, pelo poder e pela exploração. No som, também encontramos referências de heavy metal, death e o crust.

12. Abutres

Fechando o álbum, “Abutres” parece representar os predadores da sociedade, aqueles que se beneficiam da miséria, da opressão, do medo, da dor alheia financiando guerras (EUA). A faixa fecha o ciclo de denúncia: depois de expor o medo, a alienação, a desumanização e o funcionamento perverso das estruturas, resta apontar quem lucra com tudo isso. A música traz uma sensação de revolta, urgência, condenação. É o fechamento de um disco que não apenas retrata monstros mas aponta seus criadores. Musicalmente, um death doom da melhor qualidade possível.

Por fim, o Manger Cadavre? apresentou um disco muito diverso, mas com músicas que se conversam. Temos muitas referências, mas ouvimos e dizemos: caralho, isso é muito Manger Cadavre? e a banda sabe muito bem para onde está indo. Com certeza um dos melhores do ano!

O Thrash Metal Respira Entre Bombas – Resenha de ‘Rataria’ do Payback

O EP “Rataria” representa um momento de afirmação e redefinição para a Payback. Composto por cinco faixas: “Brainrot / Década da Decadência”, “Estrela de Davi”, “Sabor da Desgraça”, “Rataria” e “Entre o Arame e o Arsenal”, o trabalho marca a primeira vez em que a banda entrega um registro totalmente em português.

Musicalmente, “Rataria” combina a agressividade e velocidade típicas do thrash metal com influências claras do death metal, algo confessado pelos próprios integrantes como uma característica presente no DNA da banda, mas aqui assumida com mais convicção. Essa fusão resulta em um som cru, intenso e urgente, ideal para o tipo de mensagem que a Payback busca transmitir. A produção, feita por Alexandre Resende no Studio X, com mixagem e masterização de Hugo Silva (Family Mob Studios), contribui para manter a contundência sem sacrificar a clareza sonora.

Liricamente e tematicamente, o EP adota um tom de denúncia: aborda a desumanização imposta pelas redes sociais, a alienação e a superficialidade da “era digital”, as tensões políticas contemporâneas, como o avanço do reacionarismo, o autoritarismo e a manipulação midiática, além de tratar de injustiças históricas e críticas sociais. A faixa “Entre o Arame e o Arsenal”, por exemplo, amplia esse espectro para uma crítica global que toca imperialismo, xenofobia e exploração histórica, convocando uma perspectiva anticolonial e de solidariedade aos povos latino-americanos.

A escolha de compor tudo em português reforça a intenção de tornar o discurso da banda mais direto, acessível e contundente ao público nacional, uma decisão consciente de diálogo com a realidade local, e de utilização do metal como instrumento de crítica social e resistência cultural.

Como um todo, “Rataria” funciona como um EP urgente, visceral e politicamente engajado. A Payback mostra maturidade para fundir agressividade sonora com consciência crítica e urgência temática. O resultado é um trabalho que não apenas agrada aos fãs do thrash/death metal extremo, mas que também reafirma o papel da música pesada como espaço legítimo de contestação, reflexão e resistência.

FAIXA A FAIXA

1. “Brainrot / Década da Decadência”

A abertura do EP já define o tom: a faixa critica de forma direta o comportamento narcísico e alienado da sociedade contemporânea, especialmente em relação ao uso massivo das redes sociais e à dependência pela aprovação externa. A letra denuncia a “cultura da superficialidade”, o estímulo constante à aparência e à validação, bem como o vazio existencial gerado por esse culto à imagem e ao consumismo uma “década da decadência”. Musicalmente, a música lança mão da agressividade e da velocidade que evocam o thrash metal tradicional, porém com uma pegada atual e contundente. A escolha de começar o EP com esse tema parece funcionar como um choque uma convocação para o ouvinte despertar desse torpor digital e questionar o entorno.

2. “Estrela de Davi”

Com duração mais curta, “Estrela de Davi” atua como um ataque concentrado e intenso. A letra traz denúncia explícita sobre genocídio, guerra e violência estatal, um grito contra intervenções, massacres e regimes genocidas contemporâneos, com imagens fortes de destruição, guerra e horror. A urgência expressa no vocal e a ferocidade instrumental asseguram que a mensagem não se perca: não é mero comentário, mas indignação aberta. A faixa reforça o caráter político e contestador do EP, lembrando que o extremo do metal continua sendo terreno para denúncias.

3. “Sabor da Desgraça”

Aqui a agressividade assume contornos pessoais e brutais. A letra tem um tom de vingança, uma resposta à opressão, traição ou sofrimento traduzida em imagens de destruição, ressentimento e retaliação. A canção encarna a raiva transformada em potência: a “desgraça” que recai sobre quem causou dor. Musicalmente, a faixa mantém a crueza e a intensidade do metal extremo, talvez a mais visceral do EP. Serve como válvula de escape não só estético, mas emocional expressando dor e revolta como parte da experiência humana diante de injustiças.

4. “Rataria”

A faixa-título concentra o espírito geral do EP. A letra constrói um retrato sombrio da manipulação política, da decadência social e da ameaça de retormar caminhos autoritários uma crítica direta a sistemas opressores, manipulação midiática, injustiças estruturais. Há um sentimento de alerta: “a rataria” são aqueles que conspiram para manter o poder, sem ética, em benefício próprio. Sonoramente, a música talvez seja a que melhor equilibra peso, técnica e mensagem. Com riffs firmes, ritmo carregado e vocais incisivos, “Rataria” atua como centro nervoso do EP: é onde o ódio se torna denúncia, e a denúncia, consciência. A escolha de fechar a primeira metade com essa faixa dá ao EP um arco de transição entre crítica social ampla e conflito mais explícito.

5. “Entre o Arame e o Arsenal”

Fechando o EP, essa faixa assume um tom global e de resistência concreta. A letra aborda colonialismo, xenofobia, opressão a povos latino-americanos e marginalizados, imperialismo e a imposição de fronteiras que alienam e excluem um grito de resistência e reexistência. A banda convoca um resgate histórico e cultural, afirmando raízes e denúncia contra exploração e dominação. Musicalmente, a canção ainda guarda a agressividade característica, mas parece trabalhar também com urgência como se fechasse o EP convocando à ação, à consciência e à reação. Além disso, o videoclipe associado reforça visualmente todo o propósito da faixa, somando estúdio, performance e mensagem num só ato.

Resumidamente, Rataria é um respiro entre bombas do Thrash Metal brasileiro, atualizado com elementos do death metal, que está em alta no país.

A Vida é Temporária: O Death Metal Potiguar do Open The Coffin – Resenha do álbum Once Alive Always Dead

Once Alive Always Dead, novo álbum do Open The Coffin, banda de death metal old school de Natal/RN liderada por Cláudio “Slayer” é um mergulho sombrio e visceral na mortalidade, evocando tanto a podridão corporal quanto a inevitabilidade da morte desde o primeiro acorde. Ao longo das oito faixas, a banda mantém sua essência old school, com riffs pesados, baterias cortantes e vocais cavernosos, emprestando à obra uma atmosfera densa e cadenciada que remete aos clássicos do death metal mais clássico.

A produção, gravada no Black Hole Studio (Natal) e mixada e masterizada na Heavy Track (São Paulo), acerta ao não polir demais o instrumental: o som é sombrio e cru, mas suficientemente limpo para que cada detalhe da guitarra às linhas de baixo apareça com definição. Isso dá à música uma brutalidade orgânica, quase palpável, como se você estivesse escutando um rito fúnebre metálico.

As letras são temáticas de morte, desintegração e vida efêmera: em “Burn My Coffin”, logo na abertura, há uma invocação simbólica à própria sepultura, enquanto “Tomb Number 666” evoca uma simbologia macabra, unindo a contagem infernal à própria noção de túmulo. A faixa-título, “Once Alive Always Dead”, resume o conceito central do álbum: a ideia de que a vida é temporária, mas a morte é permanente, inexorável.

Em “Carnivorous Abomination”, o Open The Coffin traz imagens grotescas de decomposição e predadores mortais, criando uma atmosfera literal de carnificina. “Embraced by the Grave” tem um tom quase romântico, ou pelo menos fatalista, como se abraçar a sepultura fosse uma escolha ou destino inevitável. Já “Decaying Flesh” aprofunda a noção de deterioração física, com riffs que evocam o lento desmoronamento do corpo humano. “Zombified” (já lançada em videoclipe) traz uma energia quase enlouquecida, com a ideia de reanimação após a morte, uma morte-viva metálica. Por fim, a faixa “Tudo Pertence à Morte” fecha o disco com uma resignação absoluta: tudo no final pertence à morte, como um chamado funesto que reforça a mortalidade universal.

Mais do que um álbum de death metal com letras macabras, Once Alive Always Dead funciona como uma declaração conceitual: a vida pode começar no momento em que respiramos, mas a contagem regressiva já iniciou, e o túmulo é a única morada permanente. O Open The Coffin entrega isso com classe, peso e uma reverência genuína ao old school, mas sem soar retrô de forma barata: cada faixa tem sentimento, propósito e, sobretudo, brutalidade. É um trabalho que reforça o valor da banda dentro da cena extrema nacional e mostra que, mesmo falando da morte, eles têm algo vivo para dizer.

Faixa a Faixa

1. Burn My Coffin
A abertura do álbum traz uma invocação intensa: “queime meu caixão”. A ideia parece ser de rejeição da própria sepultura, uma espécie de negação simbólica da morte ou uma afirmação de rebeldia contra o destino inevitável. A faixa serve como introdução ritualística, com riffs pesados e composições sólidas que estabelecem a atmosfera de podridão e desespero que vai permear todo o disco. Há uma carga emocional forte: parece que o eu-lírico quer transformar seu próprio túmulo em cinzas, como se recusasse a sucumbir pacificamente.

2. Tomb Number 666
Com esse título, a música evoca simbolismos macabros e infernais: o número 666 tradicionalmente remete ao diabo ou ao apocalipse, e “túmulo número 666” sugere que a sepultura não é apenas final, mas profana. A faixa provavelmente fala de condenação, punição, talvez de uma morte marcada, ou até de renascimento sombrio. A sonoridade segue pesada, com batidas cadenciadas e riffs graves, propondo uma jornada claustrofóbica dentro de um caixão amaldiçoado.

3. Once Alive Always Dead
A faixa-título traz o conceito central do álbum: a vida e a morte como partes de um ciclo inexorável “uma vez vivo, sempre morto”. Isso sugere que a morte não é apenas o fim, mas a única certeza duradoura depois da vida efêmera. Musicalmente, a canção é provavelmente mais ponderada, com variações de ritmo que refletem a dualidade entre viver e morrer, talvez momentos de tensão alternando com explosões de agressividade, para ilustrar essa transição inevitável entre o existir e o desaparecer.

4. Carnivorous Abomination
Aqui a banda mergulha em imagens grotescas e de horror: “abominação carnívora” remete a uma criatura devoradora, violência extrema, degradação. A letra provavelmente descreve a morte ou a decomposição como algo monstruoso, visceral, talvez um organismo predatório que consome carne e vida. A sonoridade deve acompanhar essa visão, com riffs agressivos, batidas intensas e uma atmosfera de terror primitivo, evocando a podridão e a fome insaciável pela carne.

5. Embraced by the Grave
Essa faixa representa a aceitação da morte: “abraçado pela sepultura” sugere resignação, entrega ao destino, como se o túmulo fosse um abraço final. A letra pode falar sobre cansaço, desespero ou até encontrar consolo na morte. Musicalmente, imagino que a faixa tenha um tom mais sombrio e melancólico, talvez com pausas ou riffs mais cadenciados para transmitir esse sentimento de rendição e recolhimento ao túmulo.

6. Decaying Flesh
“Carne apodrecendo” é uma imagem crua e direta da decomposição física. Essa faixa provavelmente descreve o processo de putrefação, o fim inevitável do corpo, a deterioração da carne, uma meditação brutal sobre a mortalidade biológica. A música deve usar riffs cortantes, timbres graves e uma bateria que martela como se fosse o tambor da própria tumba, para evocar o horror da decadência física.

7. Zombified
Nesta faixa, a banda sugere a reanimação depois da morte, a noção de morto-vivo, revirando fezes da existência. “Zombified” combina a ideia de retorno à vida com a podridão da morte: um ser que já morreu, mas que renasce apodrecido, sem humanidade, contaminado pela podridão. Sonoramente, temos um ritmo mais frenético, clima de caos, para representar a loucura e o desespero de existir sem vida ou uma vida sem alma.

8. Tudo Pertence à Morte
Fechando o álbum, essa faixa parece ser o epitáfio: uma constatação de que tudo, no final, pertence à morte. É como um veredicto universal: a vida, a carne, os corpos, as ambições, a memória, tudo sucumbe à podridão. Essa música provavelmente traz o peso de um encerramento definitivo, com riffs densos, atmosfera ritualística e um sentimento de resignação e fatalidade. Serve como conclusão filosófica e sombria ao conceito do disco inteiro.

O nordeste presenteou o Brasil com mais esse petardo dessa lenda do death metal brasileiro. Ouça no repeat!