Há álbuns que celebram conquistas. Outros preferem encarar o tombo. Odisseia Emergente ao Fracasso, do Ironias, escolhe a segunda via e o faz com uma honestidade rara na cena atual. Longe de soar derrotista, o disco transforma a queda em narrativa, a frustração em motor criativo e o desencanto em comentário social.
Desde as primeiras faixas, o Ironias deixa claro que a proposta não é conforto. As canções avançam como capítulos de uma jornada torta, em que expectativas se inflamam para, logo depois, colidir com a realidade. Musicalmente, o álbum transita entre arranjos tensos e momentos de economia quase claustrofóbica, como se o silêncio também fosse parte do discurso. A produção evita o polimento excessivo. Há arestas, há ruídos e há intenção nisso.
As letras são o ponto alto. Com ironia, como o próprio nome da banda sugere, o grupo observa o sujeito contemporâneo encurralado entre promessas de sucesso e a experiência cotidiana do fracasso. Não se trata de cinismo vazio, mas de um olhar crítico que aponta contradições do trabalho, da ambição e da identidade. Quando o Ironias é mais direto, acerta. Quando flerta com o excesso de metáforas, por vezes perde impacto, mas nunca a coerência.
Há, porém, um risco assumido. A densidade constante pode cansar ouvintes menos dispostos a acompanhar a odisseia até o fim. Falta, em alguns momentos, um respiro melódico que amplie o alcance emocional do disco. Ainda assim, essa escolha parece consciente. O álbum quer incomodar mais do que agradar.
Odisseia Emergente ao Fracasso não é um trabalho feito para hits ou consumo rápido. É um disco que pede escuta atenta e disposição para encarar perguntas incômodas. Ao transformar o fracasso em eixo narrativo, o Ironias entrega um retrato ácido e pertinente do nosso tempo e prova que, na arte, cair também pode ser um gesto de resistência.
Fundado em 2014 por Jacintho, o IRONIAS surgiu no circuito punk/DIY do interior de São Paulo, entre as cidades de Leme e Jundiaí, construindo sua trajetória inicial com urgência, intensidade e total independência. Foram dois EPs, turnês pelo Sul do país e uma sonoridade crua e poética que marcou o underground da época.
Agora, com Jacintho, Cely Couto, Matheus Campos e Lucas Rosa na formação, o projeto renasce com maturidade e experimentação, reafirmando sua essência sem perder o ímpeto que o originou.
‘Odisseia Emergente ao Fracasso’ reúne 11 faixas que oscilam entre o indie rock, o pós-punk e até mesmo o punk-hardcore, construindo uma estética em que atmosferas densas e luminosas se entrelaçam. As guitarras são ora cortantes, ora etéreas; a bateria pulsa com energia vital; o baixo sustenta um terreno emocional em constante ebulição.

A arte da capa de ‘Odisseia Emergente ao Fracasso’ é de Diogo Robert de Lima, um artista indígena que mora no interior de São Paulo e a finalização é de Lari Limoeiro. O artista construiu cada quadro da capa baseado em um glossário de ideogramas que quando combinados transmitem uma mensagem.”Cada imagem corresponde a um tema presente no álbum, podem ser também representações de partes de uma jornada. Essas imagens também são literalmente um tipo de escrita, baseada em ideogramas e glifos. Existe um pequeno glossário com tais símbolos que quando combinados produzem variados sentidos. Em outras palavras, é possível ‘ler o álbum através da capa’. As influências são glifos pré colombianos, adinkra (uma linguagem de símbolos africanos) e alquimia/ tarot”, diz Lima.
Faixa a Faixa
1. Do Futuro
A faixa de abertura estabelece o tom do álbum com uma urgência existencial, costurando questões sobre nossas expectativas em relação ao amanhã e a ansiedade gerada pelo ritmo acelerado da sociedade atual. É um recomeço que já questiona se ainda sabemos olhar para frente sem perder parte de nós mesmos no processo. A introdução serve como um pacto: o ouvinte será desafiado desde o primeiro acorde. Destaque para a construção das linhas de bateria.
2. Telaviv Ou Quando o Meu Amor Acabar
O título é enigmático e carrega uma ambiguidade poética sobre amor e distância física ou emocional. A música explora a sensação de deslocamento afetivo e os conflitos interiores que surgem quando relacionamentos acabam, não apenas pela perda em si, mas pelo que deixam em aberto na paisagem íntima. As sonoridades nos transportam para os anos 80, em um pós-punk com alguma levada de The Cramps. Essa é para quem curte dançar!
3. Insaciável
“Insaciável”, por sua vez, mergulha na voracidade emocional e na busca incessante por algo que nunca se completa. É quase uma passagem climática no disco, que confronta o vazio gerado por expectativas incessantes e a incapacidade de saciar anseios internos. Aqui, o destaque vai para o vocal, que a mim, que sou 50+, remeteu a fase áurea do Cazuza.
4. Seis por Um
Curta e impactante, numa pegada meio punk hardcore, mas sem deixar os elementos do rock oitentista, a quarta faixa cria um senso de desequilíbrio e tensão. Um momento que intensifica a narrativa da odisseia emocional proposta pelo álbum.
5. Odisseia Emergente ao Fracasso
A faixa-título funciona como epicentro temático. Aqui, o conceito de fracasso deixa de ser um estigma para tornar-se lente crítica sobre expectativas sociais e pessoais. A música resume a visão do álbum: há dignidade tanto na luta quanto na queda, e os erros que nos moldam têm tanto peso quanto as vitórias. Aqui o destaque está nas linhas de baixo, tão importantes nos gêneros escolhidos para a mistura que é o Ironias. O vocal aqui assume outro tom, o que é bastante interessante.
6. Malmalmalmalmal
Faixa que ecoa sensação de turbilhão, esta música traz uma energia quase visceral e talvez seja a mais punk do álbum. O arranjo vertiginoso e a repetição de alguns riffs criam um efeito hipnótico que pode representar o desgaste psicológico e a confusão emocional num mundo saturado de estímulos e contradições.
7. Maré
“Maré” parece ser o ponto de respiro do álbum, uma balada que ao mesmo tempo que reforça a ideia de ciclos naturais que nem sempre podemos controlar. A imagem da maré funciona como metáfora para fluxos e refluxos de vontade, força e vulnerabilidade e é um balanço emocional que ecoa por todo o disco. Em tempos de rapidez, a escolha de fazer um som mais lento vai na contra-mão e acerta em cheio com o nosso íntimo.
8. Não Há Lucas
Aqui, riffs dissonantes nos abraçam, na ausência, e a letra de “Não Há Lucas” reforça esse vazio, evocando a sensação de estar perdido e sem direção. A música expõe uma camada mais sombria da experiência humana, confrontando a desesperança de um eu que procura sentido num cenário de incertezas
9. Podreres
Com um nome que parece fragmentar “poderes” e “podre”, a música pode ser lida como crítica à corrupção de forças que deveriam servir ao coletivo. É um momento de reflexão política e emocional, onde o som e a letra se combinam para questionar estruturas de autoridade e as consciências que delas dependem. O conjunto de vocais nesse som, cria uma experiência única ao ouvinte, e o sentimento de fazer parte da indignação.
10. Sem Sentido
A faixa representa um ponto de colapso narrativo no álbum, onde aquilo que buscamos parece, momentaneamente, desprovido de significado. É um mergulho na perplexidade diante do absurdo, e talvez um convite à aceitação do caos. A faixa é menos dançante, apesar da construção da linha de bateria, os riffs são mais raivosos. Aqui me recordo de uma das clássicas bandas góticas brasileiras dos anos 80, ativa até hoje: Elegia.
11. Me Engole
O encerramento traz uma intensidade crua, como se fosse uma conclusão inevitável de tudo que foi exposto até aqui. Fecha o álbum com um misto de intensidade emocional, com passagens que nos remetem a The Cure, mas com a ambiguidade do vocal, que traz uma perspectiva mais contemporânea do rock alternativo brasileiro.
Esse é um trabalho que pode soar divertido e emocional ao mesmo tempo, que carrega muito da identidade que os anos 80 tiveram de melhor dentro do rock.









