Escória Comix: A Editora de Quadrinhos Criada para Aniquilar a Raça Humana.

Nem só de discos de vinil e cds é composta a minha coleção. Dentre elas estão muitos quadrinhos, que luto contra a maresia e as traças para manter intactos. Infelizmente a maioria deles são da Marwell ou DC e seus selos, mas a meta de 2020 era dar apoio ao cenário nacional que possui muitos autores fuderosos. Nessas minhas sagas em bancas de shows independentes, encontrei o Rogéria, uma HQ com a lenda Fábio Mozine, e conheci o incrível trabalho de Lobo Ramirez, o fundador da editora Escória Comix. Tive um papo que me fez refletir bastante com ele. Falamos um pouco sobre ter uma editora em tempos de pandemia, underground da HQ e da música, ideologia nos quadrinhos e muito mais. Confira entrevista:

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Antes do início do Escória Comix, você já ilustrou capas de discos, cartazes de shows, e artes de marcas independentes. Fale um pouco sobre a sua trajetória no underground relacionando música e arte.

Comecei desenhando capas de álbuns de bandas de amigos e da minha própria banda , depois fui fazendo cartazes de shows ai  quanto mais gente ia conhecendo meu trabalho aparecia mais pedidos pra arte de camiseta capas de albuns. 

Basicamente foi isso, sempre tudo misturado música e arte.

Como se deu a ideia de criar uma editora de HQ´s? Como é o mercado? Dá pra viver de quadrinhos no Brasil?

Cara, a ideia de criar uma editora de HQ’s  surgiu porque eu queria juntar num lugar só todo o pessoal que produzia os quadrinhos loucos que eu gostava, normalmente esses doidos  fazem tudo sozinhos e  como é muito trabalho desenhar e ainda ter que vender seu peixe nem sempre conseguem atingir  um público maior , já com a editora da uma melhorada nisso porém já respondendo sua segunda pergunta o “mercado” é desigual e espalhado e na verdade é mais um monte de cena de quadrinhos por ai com pouca  visibilidade e por isso não dá pra viver de quadrinhos no Brasil, as pessoas que conseguem “viver” muitas vezes fazem trabalhos para fora por que aqui mesmo não existe um mercado sólido pra sustentar esse tipo de atividade.

Além das HQ´s, você vende outros produtos na loja virtual da Escória. Qual é a importância desse, digamos, merchandising para a editora? O valor arrecadado ajuda a financiar edições?

É com a venda desse merchandising que consigo lançar os quadrinhos. Esses produtos ( bonés, camisetas, meias etc) são o que mais vende no site e são essenciais para a Escória sem eles não consigo financiar a produção dos HQs.  Como um camarada meu diz é “Independent Comix Street Wear” hahaha.

Você também edita o trabalho de outros artistas, além dos seus próprios. Fale um pouco sobre eles.

Eu demorei pra me tocar que o trabalho que eu faço é editar mas as vezes editar significa saber que o que o outro artista entregou já está perfeito ai é só arrumar pra mandar pra gráfica. Digo isso porque fui descobrir depois que tem muita gente que se acha editor e fica mandando os artistas modificarem suas histórias, eu sempre dei total liberdade pro trabalho autoral e normalmente só sou chato com a capa mas nada sai pela Escória sem a aprovação do artista.
A maioria são amigos que fui conhecendo nos rolês de quadrinhos outros eu acabo encontrando pelo Instagram mesmo e quando gosto do trabalho entro em contato e pergunto se teria algum interesse em lançar pela Escória.

O processo de uma editora independente se parece um pouco com o dos selos musicais. Você considera que o “underground” da HQ é similar ao do cenário musical?

Totalmente, pelo menos do jeito que eu trabalho eu acho idêntico a de um selo de música underground. Vai ver  que por ter vindo desse meio eu enxergo as coisas desse jeito , mas sei que editoras de quadrinhos não independentes são bem diferentes disso. 

Você também é baterista da banda de crossover Orgasmo de Porco. As inspirações para som e HQ são parecidas?

São exatamente as mesmas, não consigo desassociar uma coisa da outra. Os mesmos filmes trash , desenhos animados, livros, rolês , bandas de hardcore e metal e os rolês que a gente da pela vida . Uma coisa alimenta a outra sabe? Tu lê um gibi faz uma música inspirado as vezes ouve um som e tem ideia prum gibi.

A grande mídia tem destacado o crescimento dos HQ´s de direita. Você acredita que isso é uma realidade ou é uma tentativa de empurrar a ideologia neoliberal ou até mesmo proto fascista para a cultura pop? 

Eu acho que a grande mídia que é neoliberal e por si só sempre apoia esses projetos proto fascistas tem colocado essas aberrações que aparecem por ai numa falsa igualdade de pesos saca? Não é nem de longe a maioria nem existe um crescimento de HQs de direita relevante porém quando eles publicam isso estão colocando essas exceções como iguais no meio de um monte de quadrinhos que não tem nada haver com isso.Também tem o lance de que a maioria desses hqs de super heróis estadunidenses já serem proto fascista  a muito tempo mas “ninguém” percebia isso.

Esgoto Carcerário – Loja Monstra

Cite três HQ´s brasileiras que você recomenda.

Recomendo a coletânea “Pé de Cabra 3 ” da editora Pé de cabra que tem uma porrada de artista independente brasileiro e pra quem não conhece muito funciona como um ótimo catálogo do que está sendo produzido atualmente.O zine “Know Haole #4” do autor Diego Gerlach lançado pela sua própria editora Vibe Tronxa comix.  Esse Zine foi a primeira coisa que eu li do gerlach que tive vontade de usar drogas pesadas, muito bom.
E também recomendo o quadrinho “Esgoto Carcerário” lançado pela Escória Comix  da autora Emilly Bonna .

Eu adquiri um dos seus trabalhos em Caruaru em uma mesa de CDs, patchs… e fiquei positivamente surpreso. Qual é a importância das parcerias para disseminar a cultura independente?

Rapaiz, foi no patch customs ne? Que massa. Total importância , a gente tá tudo no mesmo rolê e o pouquinho que um monte de gente se ajuda já é grande coisa sabe? Cada parceria ali e aqui  vai ajudando a espalhar essa cultura doida que a gente tanto curte.

A editora completou quatro anos de existência. Como é para você insistir em impressos, na era digital? Muita gente te desestimulou nessa empreitada?

Cara , muita gente me desestimulou em tudo porém muito mais gente me apoiou e principalmente eu tinha convicção que era possível fazer  a Escória Comix e lançar material impresso. Se fosse dar errado tudo bem mas eu queria apostar pra ver  e a questão é que eu uso muito todas as midias digitais ao meu favor divulgando os quadrinhos e pra vender já que a loja é um site né.  Eu acho que apostar 100% em coisas digitais pode dar certo mas eu prefiro ter sucesso com o fracasso do impresso, pelo menos por enquanto tá dando certo veremos se a editora resiste mais 4 anos .

Parabéns pelo trabalho e obrigado pela atenção. Esse espaço é seu, use como quiser.  

Muito obrigado pelo espaço e por essa entrevista, valeu de verdade. 
Queria agradecer todo mundo que sempre acompanha a Escória Comix e compra os quadrinhos e também convidar quem nunca ouviu falar a dar uma chance, conheça. Compre algum gibi e leia vai que tu gosta. É isso ai, continuem reais e pau no cu de deus. 

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Loja virtual: https://www.escoriacomix.com.br/

Ateie Fogo! Entrevista com a banda de Thrash/Death Setfire

A banda paulista Setfire, original de Mauá, tem sido muito assídua nessa quarentena. Eles lançaram um full album, dois clipes, playthrough de guitarra e agora sessões de quarentena. E eles querem que a chama se espalhe ainda mais. Confira a entrevista que fizemos com eles.


Conte um pouco sobre o início da banda e a trajetória para chegar até aqui.

Antes do Setfire, tínhamos uma banda Cover de Sepultura+Pantera, chamada Territory Hostile. O Setfire é um banda de Thrash Metal paulista, oriunda da cidade de Mauá/SP, formada em Junho de 2009 com foco em composições próprias e com fortes influências de bandas como Pantera, Sepultura, Torture Squad, Death, Slayer, Lamb of God entre outras. Em 2010 lançamos o EP Deserted Land com 5 faixas, o qual rendeu muitas críticas positivas em sites, revistas, rádios, tanto no âmbito nacional quanto internacional, desse EP lançamos dois videoclipes das músicas Envy Shit e Revolution of Machines. Em 2015 o “Deserted Land” foi relançado na versão de fita cassete pela gravadora Norte americana Hotarex, remasterizado e com a capa redesenhada. A banda promove um Festival titulado “Setfire Fest” desde 2014 na cidade de Mauá-Sp, com a intenção de abrir espaço para as bandas do cenário independente apresentarem seus trabalhos, reunir o público para prestigiar o evento e fortalecer a Cena Rock/Metal na região Abc Paulista. Já foram realizadas 5 edições do Setfire Fest, com participações de bandas como: Vooodoopriest, Attomica, Vírus, Distraught entre outras. A formação atual da banda conta com Artur Morais nos vocais, Michael Douglas e Fernando Ferre nas guitarras, Felipe Jeronymo no contrabaixo e Nikolas Marcantonatos na bateria. Lançamos recentemente o nosso mais novo álbum Spots of Blood nas plataformas de Streaming e em mídia física. Desse CD, lançamos dois clipes das músicas Paralyzed e Paranoia, e um Lyric Video para a música Careless.

Em meio a pandemia e a impossibilidade da realização de tours, muitas bandas tem adiado os lançamentos, no entanto vocês optaram por lançar o excelente álbum Spots of Blood e dois clipes, que tem sido muito elogiados. Por que escolheram manter o lançamento? Isso impactou a resposta do público?

Nesse período de Pandemia a grande maioria das pessoas estão mais conectadas a internet, aproveitamos essa oportunidade para lançar o Spots of Blood em todas plataformas de Streaming juntamente com os clipes e estamos trabalhando fortemente nas Quarentine Sessions, que inclusive já foram lançados dois vídeos das músicas Nordeste e Revolution of Machines no nosso Canal do YouTube. A resposta do público vem sendo muito satisfatória, tanto relacionado ao Spots of Blood, quanto aos clipes lançados, estamos recebendo muitos elogios e um enorme reconhecimento da galera.

Vemos um Setfire mais maduro nesse trabalho. Como foi o processo de gravação do Spots of Blood?

Na época que lançamos o EP Deserted Land, logo após começamos a trabalhar nas composições do Spots of Blood, porém quando estávamos compondo a sexta música, conhecida hoje como Paralyzed, teve a saída do baterista Alex Momi da banda. Em 2013 o baterista Alex Kruppa assumiu o posto e reiniciamos o processo de composição das músicas, mas ele também deixou a banda após um período de 1 ano e meio. Em 2014 o baterista Daniel Balbinot entrou na banda, compôs a batera de todas as músicas e gravou o Spots of Blood na íntegra. Por esses motivos tivemos um bom tempo para amadurecer as composições e deixá-las cada vez mais próximas do que tínhamos como objetivo. O processo de composição da banda sempre foi bem democrático, todos integrantes davam suas opiniões em toda a estrutura da música, desde as linhas vocais até a batera, tudo de uma forma bem organizada e numa boa parceira. O interessante nisso tudo é que cada um conseguiu colocar um pouco de sua influência nas músicas e ficamos muito satisfeitos com o resultado. Com as músicas prontas fomos ao mesmo estúdio que gravamos o EP Deserted Land, chamado Acústica, localizado na cidade de São Caetano do Sul-Sp. O Danilo Pozzani foi responsável pela produção, mixagem e masterização do Disco e fez um trabalho extraordinário, os toques dele na produção das músicas foram essenciais para fazermos os últimos ajustes que precisava antes de iniciarmos as gravações.

Vocês divulgaram um vídeo muito bacana da participação do Vitor Rodrigues (ex Torture Squad e ex Voodoopriest) na música “The Thin Line”. Contem um pouco sobre essa parceria.

A amizade com o Vitor Rodrigues existe desde o lançamento do nosso EP Deserted Land em 2010, numa apresentação do Torture Squad entregamos o material pra ele na época e pouco tempo depois, ele enviou um e-mail pra banda com uma resenha extremamente detalhada de cada faixa do disco, ficamos muito felizes e impressionados com a atitude dele, daí em diante continuamos mantendo contato e essa amizade só se fortaleceu com o tempo. Convidamos ele para dividir os vocais com o Artur Morais na música The Thin Line e ele aceitou numa boa participar, tudo aconteceu de forma bem natural, o Artur entrou em contato com ele e o deixou a vontade para cantar nas partes que ele achasse melhor e se sentisse mais a vontade, não teve nenhuma regra. Ele curtiu demais a música e no estúdio arregaçou nos vocais (risos), cantou literalmente com a alma e se sentiu muito bem, dizendo pra gente que havia sido uma das melhores participações que ele havia feito, pela forma natural que aconteceu.

Por que vocês optaram por letras em inglês? Qual é a temática das letras que compõe o álbum?

A escolha do idioma foi para atingir de forma universal todos os públicos e facilitar as aberturas de portas pra banda com o resto do mundo. A parte literária da banda sempre foi pautada ao protesto à pobreza, o alerta ao crescimento tecnológico e seu impacto na história, as atitudes de violência e revolta geradas pelo estilo de vida que a sociedade impõe e o cotidiano das interações humanas. E nesse CD não foi diferente, o álbum Spots of Blood retrata em cada letra, as “manchas de sangue” deixadas pelo homem por suas atitudes erradas e decadentes ao longo da história, vale a pena ler com calma e refletir sobre o tema de cada letra. Temos uma música com a letra em português no álbum, chamada Macaco ou o Rato, que retrata a alienação da mídia sobre a sociedade.

Indiquem 3 bandas nacionais independentes que vocês gostam e ouvem o som.

Krisiun, Claustrofobia e Korzus.

Após a pandemia, podemos esperar uma tour aqui no nordeste?

Temos a pretensão de fazermos uma turnê “pós-pandemia” para divulgação do Álbum em âmbito nacional e dando tudo certo, com certeza na nossa rota o Nordeste estará incluso.

Obrigado pela atenção. Deixem uma mensagem para o público.

Primeiramente gostaríamos de agradecer ao Moisés Duarte do blog “O Colecionador – Música independente” pela abertura do espaço para falarmos um pouco sobre o trabalho e história do Setfire.

E mandar um abraço e agradecimento a todos os nossos fans(Firebangers), que acompanham nosso trabalho e são o combustível para as chamas do Setfire, sem vocês nada disso faria sentido!!!

Quem não conhece ainda o nosso trabalho, acesse os links abaixo para conferir:

www.youtube.com/setfiretv
www.facebook.com/setfireofficial
www.instagram.com/setfire_official
www.twitter.com/setfireofficial

Junte-se ao fogo e vamos incendiar!

#jointhefire

RESISTÊNCIA! Conheça um pouco da história do selo de Fortaleza Vertigem Discos

Um dos braços fortes no apoio da cena, principalmente para as bandas, são os selos. Eles é que distribuem a música em formato físico, indicam, ajudam a fomentar a cena local e nacional. Um dos grandes trabalhos que temos aqui no Nordeste, é da Vertigem Discos, que é uma iniciativa de apenas três anos, mas muito importante do professor de história Vinicius. Conversamos um pouco com ele sobre o selo, cena e muito mais.

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A Vertigem Discos foi um dos pequenos selos mais ativos no ano de 2019. Para você, o que representa ter um selo? Qual é o sentido que ele possui na sua vida?

Mesmo sendo Professor de História em tempo integral. A música sempre fez parte da minha vida. E a 3 anos resolvi me envolver mais sendo que de outra forma. Ter um selo underground representa fazer parte de algo mais humano, ou seja, não há interesses mercadológicos mirabolantes ao ponto de enxergar uma banda, seus componentes e seu trabalho como cifras. E sim a oportunidade de conhecer pessoas que se esforçam, que lutam, suas histórias de vida, posturas e por aí vai. Hoje a Vertigem Discos é totalmente inserida no meu ritmo frenético e na minha formação enquanto ser humano. Está sendo um caminho muito especial.

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Como surgiu a ideia de ter um selo?

Bom. A Vertigem tem 3 anos e de selo apenas dois. Ela seria uma loja de discos pequena dentro de uma cafeteria idealizada pela minha ex esposa. Como o projeto não deu certo acabei ficando com um acervo básico de Lp’s variados, além dos meus que entraram na roda também. Com isso, parti para as feiras de vinil que existem na cidade de Fortaleza. Depois de um ano comecei a me incomodar porque estava apenas com materiais importados, caros ou de bandas que eu mesmo não curtia, ou seja, tava virando um lance mercadológico demais. Foi aí que comecei a dar sentido as coisas quando passei a pegar apenas materiais independentes tanto em vinil como em CD virando um caçador de selos independentes e de bandas. Descobrir que o Brasil produz coisas incríveis no Underground foi incrível. Em seguida, em um dos eventos que eu levava meus caixotes conheci a Anuska que tem uma loja virtual que hoje é Colab com a Vertigem, a Medusa Store e também é parte integrante do coletivo de mulheres feministas do underground o Girls to The Front. No dia ela amou ter visto o CD da banda Bulimia no caixote e me falou do Coletivo e dos projetos. E foram com esses contatos que descobri toda uma proposta agregadora de selos e bandas no Brasil todo que se juntavam para lançar materiais rateando os custos e se ajudando. O primeiro foi o EP da banda Eskröta “Eticamente Questionável” e hoje são 10 bandas e seus incríveis materiais.

Ter um selo é viável financeiramente falando? As pessoas ainda compram material físico? O investimento que você faz nas bandas retorna?

Não no sentido de lucrar. As vezes (o que é raro) eu reponho o gasto a longo prazo. Compram. O legal de ser um selo underground é que você trabalha na base da insistência, da resistência e indo até as pessoas ou fisicamente ou pela internet. E também o contrário. As pessoas me acham! Até de lugares do Brasil que eu nunca ouvi falar. Tem vezes que em um rolê se vende bem, outros nada. Tem gente que pega meu contato. Tiram fotos de um material que interessou para escutar em casa. Sugerem bandas para eu procurar e viram grandes amigos e apoiadores da Vertigem Discos. O retorno financeiro muito raro. Pego parte da grana do meu trampo de professor e arrisco. O retorno maior são as amizades, parcerias e a ampliação da divulgação.

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Qual é o perfil das pessoas que consomem material físico hoje em dia.

É variado. Geralmente são pessoas próximas ou a cima dos 30 anos. Algumas vezes adolescentes que se aventuram em conhecer as bandas nacionais por causa das postagens.

Entendemos que há um carinho em todos os lançamentos, mas destaque aquele que foi mais importante para você enquanto indivíduo. Fale um pouco sobre ele, qual foi o seu envolvimento, como chegou até a banda, letras, entre outros aspectos que você julga especial.

Nossa difícil. Eu acrescentaria dois. Quebrando as regras kkkkkkkkkkk O Primeiro da banda “O Preço” porque foi um lançamento sozinho de 500 cópias (Uma loucura) mas que me fez transpor uma barreira daquilo que entendo por arriscar. O Christian Targa (Vocal e Guitarra) que foi do Blind Pigs me procurou propondo isso. Achei insanidade, mas quando escutei as músicas que falam de revolta, mensagens positivas em um contexto crítico e não ilusório eu aceitei. Vai demorar um bom tempo pra pagar (rindo de nervoso). Mas não me arrependo. Principalmente porque a banda me dá um apoio e uma moral incrível. Não são aqueles que pedem o suporte e desaparecem. Tornou-se uma parceria mesmo. O segundo que está a caminho de Fortaleza, é o Split Inflamar com quatro bandas de crust com vocal feminino. Manger Cadavre?, No Rest, WarKrust e Vasen Käsi. Escutei no Deezer logo que saiu e foi um impacto porque são gritos de alerta para nossa situação política e são gritos de representatividade e luta feminina. São elas que hoje formam a postura no underground. Fato. Assumem posicionamento abertamente, organizam festivais, denunciam e combatem de frente. Tem que ser respeitado e apoiado sempre. Além de ter feito parte desse projeto graças ao contato com a Nata vocalista da Manger Cadavre? Que desde o lançamento do Anti Auto Ajuda também pelo selo eu considero uma das bandas mais importantes o cenário nacional.

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Quais são os planos para 2020? Já existem lançamentos fechados?

Plano principal é sobreviver mais um ano como tenho feito sempre. Mas dessa vez tentando ir para lugares fora de Fortaleza. Estarei no grande Abril Pro Rock com a Vertigem Discos e pretendo, na medida do possível, atingir outros festivais. Pelo menos na Região Nordeste. Tem a parceria com a Medusa Store e vai rolar camisetas e bonés em breve. Lançamento tem a banda de Thrash daqui a Dead Enemy (ESCUTEM!) que estou ajudando a juntar selos para o lançamento em CD falta apenas um por sinal. E é isso.

Eu já estive no festival ForCaos e pude notar que a cena por aí é bem forte e unida. Conte um pouco sobre o underground daí.

Não só no Ceará mas o Nordeste como um todo tem emergido uma gama de bandas incríveis e em diferentes segmentos musicais. Isso relevando qualidade sonora, material e criatividade. Aqui em Fortaleza existem pessoas que lutam o ano inteiro para movimentar a cidade com festivais e bandas que se esforçam ao máximo para conseguir gravar. Esses espíritos combativos acabam se juntando e fazendo acontecer. Ressalto o papel histórico da ACR (Associação Cearense de Rock) e o incrível trabalho do Coletivo Girls To The Front. E não são os únicos diga-se de passagem. Esses grupos mesmo com os ataques que sofrem pelos cortes e ameaças de fechamento de casas culturais resistem bravamente.

Um selo não é apenas um canal que lança bandas. Os valores são demonstrados desde a curadoria dos lançamentos. Quais são os valores mais importantes da Vertigem Discos?

Ser um selo/distro que apoia e divulga bandas antifascistas, combativas, que se esforçam para que o seu trabalho seja reconhecido não como um produto do mercado mas como uma voz que enfrenta. E claro. Ter significado na vida das pessoas.

Obrigado pelos grandes lançamentos que você ajudou a proporcionar esse ano. Deixe um recado para a galera!

Eu agradeço imensamente ao Colecionador porque nunca imaginaria que responderia uma entrevista. Isso é um marco. Agradeço a todos que cruzam os caminhos da Vertigem Discos desde o começo e apoiam na base da amizade, comprando os materiais, divulgando, sugerindo, conversando e dando aquele combustível para continuar. Sou muito honrado. Grato pelas bandas por termos uma relação muito justa e algumas até de amizade incrível. E a você que leu até aqui. Como faço nas minhas postagens: APOIE AS BANDAS UNDERGROUND E A DISTRO/SELO LOCAL.

Hardcore Crust da Amazônia: conheça um pouco mais sobre a Klitores Kaos de Belém/PA

Klitores Kaos é uma banda de crust feminista, de esquerda, antifascista. Formada em fevereiro de 2015, pelas vocalista Grace Dias e baterista Débora Mota, a partir de uma vontade e necessidade de bandas formadas só por mulheres no cenário hardcore punk da cidade, com uma ideologia de fato feminista, como uma forma de expressar nossas ideias, criticar o sistema opressor que serve aos interesses da elite burguesa do país, a desigualdade e caos social de nossa cidade, e enfatizando a questão de gênero também. Fazem um som politizado, pesado e cru! Conversamos um pouco com elas e com a ex-vocalista Grace que continua ativa na banda, apesar da distância.

A banda passou recentemente por uma mudança de formação, devido a viagem da vocalista Luma para Portugal. Falem um pouco sobre essa transição.

Acho que uma das principais dificuldades foi a mudança de formação, quem ficaria no vocal, passaram a Thyrza que segurou as pontas em alguns shows importantes que ja estavam marcados. Depois encontrar uma vocal q ficasse permanente era o desafio. Agora já estão mais orientadas as coisas e a batera assumiu o vocal e ta se saindo muito bem, apenas tendo que se ajustar algumas coisas nas músicas.

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A Klitores Kaos é uma banda com postura e letras antifascistas. Como é o cenário independente em Belém? Há apoio ou repúdio à postura da banda?
A gente recebe muita manifestações de apoio na cena de Belém, muitas minas passaram a ir nos shows depois de um tempo afastadas do cenário, pois se sentiram acolhida com nosso som e letras. Mas claro que há ainda muito machismo, que são expressos através de xingamentos bem baixos na página da banda e até mesmo com assédio de homens em alguns shows. Caras que dizem apoiar a banda, mas tem atitudes super machistas e misóginas, parece que não lêem as nossas letras e nem sacam a ideologia da banda. Apoio que é pura falácia no fim das contas. Somos uma banda de composta por mulheres, feminista e antifascista!

Vocês fizeram um financiamento coletivo para ajudar na gravação do próximo trabalho de vocês e conseguiram angariar os fundos. Como foi esse processo? A galera ajudou na divulgação?

Fizemos no site do vakinha e no começa não tínhamos muita confiança que conseguiríamos arrecadar a grana, mas felizmente valeu a pena a iniciativa pois teve muita divulgação da galera de Belém e de outros Estados, doações da nossa cidade e de fora também, e conseguimos bater a meta que propomos! Aproveitamos pra agradecer novamente todos que ajudaram e divulgaram! Já finalizamos a gravação do EP e esperamos que em breve fique pronto!

Como foi o processo de gravação? Quando o material estará disponível?

O processo de gravação foi algo bem novo pra todas nós, apesar de que já tínhamos passado pela experiência de gravar um tributo a banda Bulimia, tocando uma versão de uma das músicas, gravar nosso próprio som foi diferente, tivemos que ajustar algumas coisas, mas tivemos muito apoio e orientação do Zé Lucas, da banda Sokera, que ta produzindo a gravação do EP, enfim, foi bem emocionante particularmente pra mim registrar nossas músicas próprias, um sonho realizado! O EP ta em processo de finalização da mixagem/produção das músicas, esperamos que em breve fique tudo pronto,pois queremos lançar não apenas em formato digital, mas também físico(inclusive os selos e distros que tiverem interesse em lançar nosso material, só entrar em contato, estamos disponíveis para.conversar, como eu disse,é um procedso novo pra todas nós, de gravação, produção, lançamento, e quem tiver dicas etc para nos passar, agradecemos muito.

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Formação anterior da KK

Indiquem 5 bandas do Pará que vocês curtem e que tem o posicionamento ideológico próximo ao de vocês.

Bad Trip, Alcoólicos Anônimos, Setembro Negro, Aurora Punk e Contraponto Crust.

Quais são os planos futuros da banda?

Em relação a planos futuros, agora que eu e Camila estamos morando bem longe de Belém, acho que principalmente manter s banda na ativa, continuar passando nossa mensagem, mediante as várias dificuldades de cada uma das integrantes (manter uma banda no undeground não é fácil, ainda mais sendo só de.mulheres, com ideologia de esquerda/combativa) escrever e compor mais músicas, para podermos gravar um CD completo um dia, tocar em outros Estados onde ainda não fomos e quem sabe um dia fora do país.

Considerações finais.

Agradecemos a oportunidade em poder falar um pouco sobre a esse processo de resistência que é formar e manter uma banda de mulheres, feminista, formada por proletárias/mãe solo/moradoras de periferia/ estudantes/ lgbt, nesses 4 anos de existência da Klitores Kaos. Esperamos ver cada vez mais minas pirando nos nossos shows, se sentindo mais seguras nesses espaços e incentivar a criação de mais e mais bandas de minas!!! Só a Luta muda a vida!!!!

O Blackned Crust do Mácula Como Resistência na Bahia

A Bahia nos presenteia com bandas de muita qualidade e uma delas nos inspira na resistência por uma postura concreta e repleta de atitudes do “Faça Você Mesmo” na prática: conheça o blackned crust do Mácula.

A banda se formou em 2010 em Simões Filho/BA. Fale um pouco sobre o começo da Mácula e a cena baiana.

Na verdade, a Mácula é uma banda que surgiu de um outro projeto chamado “Nuvens negras”, idealizado a partir das conversas entre Caleb e Italo, após o término de seus respectivos grupos (Lágrimas de Ódio e Choque Frontal). Ao vir morar na Bahia, a Debie assumiu o baixo e, assim, ao lado dos supracitados e do Bal, nosso batera, formamos a Mácula. Iniciamos as atividades tocando músicas já construídas anteriormente, algumas delas – como Ideias Incendiárias – fazem parte do nosso repertório até hoje e sintetizam um tanto dos nossos pensamentos e expectativas.

Embora a Mácula tenha dado seus primeiros passos em Simões Filho (ensaios, encontros e tudo mais), Italo, na época, morava em Camaçari – e hoje, em Salvador, ou seja, dizer que somos um grupo simõesfilhense seria algo um tanto equivocado, rs. Sobre a cena, boa parte das bandas daquele período já não está mais em atividade, outras seguem firmes, como a Orelha Seca e a Asco, a Rancor e a Agnósia (projetos nos quais membros da Mácula também estão envolvidxs), entre outras.

No último ano o selo Crust or Die, o qual vocês são envolvidos fez uma rifa para angariar dinheiro para comprar uma nova guitarra para o Itálo. Vocês conseguiram? Podemos esperar a volta da banda às atividades?

Como você tocou no assunto, queremos aproveitar o espaço para agradecer a todxs aqueles que nos ajudaram de alguma forma, comprando a rifa, compartilhando a ideia, comentando, etc agradecemos demais, pessoal! No entanto, cabe ressaltar que, na realidade, a rifa foi para conseguirmos recursos para a compra de captadores semelhantes aqueles que estavam na guitarra do Italo quando ele a perdeu. Sim, embora não tenhamos conseguido passar adiante todos os números da rifa, ela deu certo. Agora estamos nos reorganizando para a retomarmos os ensaios e continuarmos nossas atividades, ainda mais com dois lançamentos – os splits com a Reiketsu e Extinction Remains – batendo à porta.

Fale um pouco sobre o processo de composição dos sons e sobre os lançamentos dos splits com o Reiketsu e com a Extincion Remains.

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Podemos dizer que a Mácula compõem suas músicas em conjunto: um chega com uma base, geralmente Italo e/ou Caleb, passamos as cordas, Bal vai pensando e desenvolvendo a bateria, o instrumental vai sendo passado e todxs, na medida do possível, vão opinando, após essa etapa, Caleb vai encaixando as letras (ele tem um caderninho cheio delas, rs); às vezes acontece de Caleb enviar algum esboço de letra para Italo pensar nas melodias e talz. Como você bem colocou, nesse ano está previsto o lançamento desses dois splits: Mácula e Reiketsu é um projeto de longa data que finalmente se concretizará nesse ano, será nosso primeiro lançamento em vinil, e estamos extremamente empolgados com esse lançamento, pois a Reiketsu é nossa banda irmã, tocamos juntos algumas vezes e a parceria é grande (<3); já o split com a Extinction Remains é algo, de fato, novo: ainda não tocamos nenhuma das faixas, e todas elas foram criadas já para compor um material compartido. Ambos os materiais mostrarão uma nova Mácula, uma Mácula diferente: algumas dessas mudanças, tanto na parte instrumental como na lírica, poderão já ser observadas nas composições que farão parte do split com a Reiketsu (apesar das letras claramente politizadas, um lado mais introspectivo, existencialista – para alguns, diríamos, pessimista toma formas) e se tornarão mais nítidas no material a ser lançado com a E.R. (onde, inclusive, o hardcore crust que caracterizou nossos primeiros trabalhos pouco aparecerá).

Nazifascimo Tropical é um som extremamente atual que foi composto em 2015. Como vocês avaliam o cenário político atual e como ele está influenciando na cena?

O mundo todo parece estar seguindo uma nova onda política que que não nos cheira nada bem, o Brasil apenas confirmou que ele, infelizmente, não é exceção. Começamos a reparar esse declínio, por assim dizer, há algum tempo, em 2015 (ano da composição) isso já se mostrava de forma muito temerária, já era previsto, sabe? Depois de tanto pensar e pesar, tanto refletir sobre, hoje podemos dizer que o momento político do qual compartilhamos e no qual vivemos é, primeiro, uma excelente peneira, pois permite, de certa forma, perceber quem é quem na dita “cena”, através dos posicionamentos que bandas, coletivos e indivíduos assumem; segundo, dizem que não há movimentação quando o período é de acomodação, ou seja, em um momento como este, somos impelidos a agir, a nos mexer e arcar com nossos posicionamentos – não é um bom momento para medrosos. Esse triste cenário que assola todo o mundo tem derrubado máscaras e dividido “cenas”: proporcionando que diversos ratos saíssem do esgoto e dessem as suas caras. As pessoas, aparentemente, têm se tornado menos “apolíticas”; acreditamos que isso possa contribuir para uma movida mais madura e consciente e que, no final, possamos nos mostrar mais fortes.

Indiquem três bandas nacionais que vocês ouvem e curtam o som e posicionamento. Fale um pouco sobre elas.


Só três? Putz!
Pode parecer clichê, mas aí vão 3 bandas que estão diretamente ligadas ao Crust Or Die (até pq, caso não acreditássemos nelas, não abraçaríamos seus respectivos lançamentos):
1.  Manger Cadavre? – A Manger virou uma banda parceira desde o ano passado, quando fizemos um re-lançamento do “Origem da Queda”. Já gostávamos bastante do trabalho da banda, não só pelo som, mas principalmente pelo posicionamento político da banda, principalmente da Nata, vocalista, sempre muito ativa tanto no underground quanto fora dele. Nesse ano tivemos o prazer de editar o primeiro Full deles, chamado “AntiAutoAjuda”, que trouxe uma temática importante e atual: a questão de como o capitalismo contribui para o surgimento de doenças como a depressão e a ansiedade.

2. Reiketsu – Como falamos anteriormente, são como irmãos para nós, temos compartilhado boas histórias e experiências há algum tempo, sabemos dos corres dos meninos (nem tão meninos, kkkk) e, além de tudo, há uma grande identificação com os sons (letras e músicas).

3. Malespero – Temos enorme apreço por esses mineiros, já compartilhamos espaço e fomos muito bem acolhidos por eles, temos consciência dos corres de alguns integrantes do grupo e do posicionamento do grupo como um todo mesmo, contrário a esse projeto fascista que paulatinamente veio se desenvolvendo no Brasil.

Sabemos que você pediu apenas 3 nomes, mas, embora tenhamos citado 3 bandas do eixo sudeste, seria injusto não aproveitar o espaço para pedir aos leitores que abram seus ouvidos e mentes para as tantas bandas fodas da Bahia e do restante do NE, que há muito vêm trampando e se posicionando e, muitas vezes, por falta de espaço, por situação geográfica e outros tantos fatores continuam esquecidas ou simplesmente encerram suas atividades sem as oportunidades e o espaço dos quais poderiam usufruir.

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Quais são os projetos futuros da Mácula?

Bom, estamos à espera desses dois novos álbuns (splits), uma das coisas a fazer é conseguirmos manter uma boa sequência de ensaios e, futuramente, apresentações para espalhá-los como praga pelo mundo afora – ou seja, pronto esperamos convites para infernizá-los em todo e qualquer lugar. Depois, queremos sentar com calma, pensar e desenvolver a ideia de um full-length, projeto que nos persegue há algum tempo.

Considerações finais.

Queremos agradecê-lo pelo espaço aberto, pelo convite que você e tantos outros nos fazem, mesmo estando paradxs há algum tempo, para falarmos de nós, de nossos projetos, de nossas ideias e para enchermos o saco, como bem sabemos, de todxs. Isso é muito gratificante e nos estimula a não ceder e não parar, mas a seguir em frente.
Àquelxs que não nos conhecem, abaixo estão alguns endereços virtuais, bem como nossa caixa postal, para que conheçam um pouco mais, troquem ideias, interajam conosco:

– Caixa postal 113 – CEP 43700-000 – Simões Filho/BA          

https://macula.bandcamp.com/

– Spotify: https://open.spotify.com/artist/0DyTj2GWyxYVq4HkohWgwP

Obrigado a todxs que têm nos acompanhado e “suportado”. Abraços livres!

Penúria Zero: Crítica Social Sem Deixar de Lado A Diversão

Em atividade desde 2005, a banda Penúria Zero teve início em Luziânia/GO. Após um hiato de alguns anos, a banda retornou com força total em 2011, com variadas formações, sendo que a mais longa delas foi com Tuttis no vocal, Sopão na guitarra, Fabi no baixo e Biscoito na bateria. No inicio do segundo semestre de 2019, Fabi deixa o baixo, vaga assumida por Ismael Braz. Com variadas apresentações em diversos festivais importantes na cidade, como Headbangers Attack, Ferrock e Porão do Rock, a banda também já se apresentou fora do círculo capital, com apresentações na Bahia, Goiânia e em Minas Gerais. Com um álbum e 4 webclipes lançados nos últimos 3 anos, atualmente a banda trabalha em músicas para lançar um EP digital em 2019. Conversamos um pouco com essa galera. Confira!

Vocês estão em atividade desde 2005, tendo alguns lançamentos. Como avaliam a mudança da cena independente nesses 14 anos de banda? O que melhorou e o que piorou?
Olá! Primeiramente gostaríamos de agradecer o convite. Muito obrigado pela oportunidade. Mas vamos lá sobre a pergunta… A banda foi fundada em 2005, mas não deu prosseguimento em suas atividades, por motivos pessoais, a Tuttis (vocalista) teve que se mudar para Paracatu(MG), no mesmo ano, deixando a banda inativa por 6 anos, retornando em 2011. Acho que a principal melhoria nesse tempo, foi na questão dos produtores. Hoje os eventos são na maioria das vezes bem mais organizados
que antes. Antigamente rolava muitos eventos organizados nas “coxas” hehehe Sem hora para começa, sem hora para acabar, as vezes você chegava no local para tocar e faltava: amps, baterias e tals…. Era bastante correria. A parte que está cada dia ficando pior, é fazer o publico sair de casa para prestigiar os eventos, mesmo com eventos mais organizados, com bandas conhecidas nacional e internacionalmente, o pessoal tá preferindo ficar em casa.

As letras de vocês tem um tom divertido, como em “Suco de Cevada” e crítico como em “Santa Hipocrisia”. Quem escreve as letras? Como se dá o processo de composição de vocês?
Então… rsrs. Na banda todo mundo escreve, é tudo junto e misturado. Normalmente alguém cria uma letra, uma melodia em casa manda no grupo da banda (zap), daí já começamos a trabalhar a composição individualmente. No ensaio juntamos tudo e acertamos os detalhes.

Verificamos que a banda teve uma mudança de integrantes, com a saída da baixista. O que podemos esperar dessa nova formação?
Coisa boa, te garanto. hehehe Já estamos ensaiando a algum tempo com novo baixista, que quem acompanha a banda já sabe que é o Ismael Braz (baxista da banda Os Maltrapilhos), o cara já tá aí na cena underground do DF a muito tempo, e é um excelente músico. Se tudo sair como planejado, até o final do ano já teremos novas músicas gravadas com o baixo do Ismael.

Os clipes que vocês possuem lançados se destacam pela produção de qualidade. Falem um pouco deles. Temos certeza que tem alguma história divertida!
Produção de qualidade? hehehe Valeu de mais por ter curtido. Nossa parte de fotos e vídeos são tudo na base do “faça você mesmo” e produzido pela própria banda,
sem roteiro, sem equipamentos caros, só uma nikon D3300 e as ideias na cabeça(que muitas das vez não dão certo). Em exemplo é o clipe de Suco de Cevada, nossa ideia inicial era bolar algo parecido com uma festa(o que aconteceu) e ter umas filmagens externas, filmagens em um bar e tals… Mas chegamos no dia da gravação, tomamos umas pingas e resolvemos simplificar e colocar todo mundo dentro de um banheiro na casa da Fabi (ex baixista) nesse dia consumimos 1L de cachaça + 1,5L de Cantina da Serra + várias caixas de Kaiser.

Vocês são muito ativos na cena do entorno do DF, além de tocar bastante, estão sempre organizando eventos. Como é levar a contra cultura para fora dos grandes centros?
Cara, é trabalhoso e gratificante ao mesmo tempo. Mesmo tirando do próprio bolso para fazer praticamente tudo. E mesmo com os poucos espaços que temos, quando organizamos esses eventos, nós nos sentimos mais vivos, sentimos parte de uma cena que tá lutado pra sobreviver, de uma cena que não quer deixar a “peteca cair”.

Indiquem 5 bandas da região de vocês que vocês curtam e comentem um pouco sobre elas.

Brazzatack, Podrera, Terror Revolucionário, Os Maltrapilhos, Beer and Mess.
Essas são bandas que estão na correria do underground já tem um tempo, tanto produzindo quanto tocando ou simplesmente comparecendo e fortalecendo o rolê.
Quando tiver um tempinho, procure nas mídias digitais, são bandas que realmente fazem a diferença no dia a dia do submundo musical aqui do Distrito Federal.

Considerações finais.
MUITO OBRIGADO pelo convite. É sempre bom encontrar pessoas dispostas a divulgar o nosso underground. Até a próxima.

Gui Caiaffa: Bateria e Inclusão Social, pois o amor ao instrumento é para todos

Um novo canal de YouTube tem estimulado muitas pessoas a saírem do campo das ideias e colorem em prática aquilo que desejam fazer. Gui Caiaffa, é um baterista que nasceu com a síndrome de Apert, a qual uma das características é a fusão dos dedos da mão. Mas isso não o impediu de estudar o instrumento e se profissionalizar como músico. Em seu canal, a mensagem é clara: a bateria é para todos e todos podem aprender as técnicas, rudimentos e, o essencial, tocar com muita paixão e energia. Conversamos um pouco com o Gui. Confira a entrevista!

Foto por Estevam Romera

Sabemos que o seu interesse pela bateria começou na infância. Conte um pouco sobre esse despertar.

Eu era muito pequeno quando comecei. Minha mãe conta que quando eu tinha uns 3 anos, ela ia cozinhar e me punha no chão com um monte de panelas em volta e me dava colheres de pau para ficar brincando. Sempre nesse momento tinha uma música tocando e ela percebeu que, dependendo da música, eu batia nas panelas no mesmo ritmo. Foi então que ela ligou para um amigo maestro, e ele pediu para me ouvir. Ele deu a idéia para ela de esperar até eu ter uns 5 anos e me colocar na aula de musicalização pois achava que eu ia me dar bem. Nessa mesma época das panelas, lembro que meu pai me chamava para ver bandas tocando ao vivo na tv e na primeira vez em que eu vi alguém tocando batera, me hipnotizei de tal forma que quando cheguei na minha primeira aula de música, ja sentei no banquinho da batera e de la não sai mais.

Você possui a síndrome Apert, que tem como uma das caraterísticas a fusão dos dedos das mãos. Em algum momento essa síndrome te desestimulou nos estudos da bateria. Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou?

Quando eu comecei a tocar ja tinha feito todas as cirurgias para a abertura dos dedos e foi muito natural para mim o começo do aprendizado. Usava baquetas bem leves e não tive nenhuma dificuldade para aprender as levadas básicas. A medida que fui aprimorando meus estudos e a tocar coisas mais difíceis, as dificuldades que tive foram de aprendizado de técnicas, rudimentos, articulação e frases dependendo da música que eu ia tirar. Hoje em dia toco com uma baqueta 5B e continuo exercitando meus “pontos fracos”. Com relação a desestimulação nunca tive momentos que me fizeram querer desistir de tocar. Pelo contrario. Acho que foi um instrumento que para mim, sempre me deu forças para me manter firme e seguir meu caminho.

Foto: Estevam Romera

Você começou no som pesado, heavy metal e tal. Teve uma banda de pop e a escolha do seu primeiro drumcover foi um som do Muse, que é de rock alternativo. Fale um pouco sobre as suas influências de som.

Desde pequeno sempre tive influencia do rock. Mesmo meus pais não sendo músicos, eles sempre gostaram de música e colocavam bastante coisa para eu ouvir. O primeiro CD que eu escutei foi uma coletânea de rock alternativo que tinha The Cure, Killing Joke, David Bowie e vários outros. A medida que fui crescendo, fui conhecendo outras coisas como Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, Guns N’Roses, até chegar na minha adolescência que foi quando eu descobri o som pesado mesmo. Aí escutava direto Metallica, Sepultura, Motorhead, Slipknot, Pantera e por ai vai. O Muse e outras bandas de rock menos pesadas também fizeram parte dessa época ( Dai a escolha de Hysteria). Mas paralelamente ao rock, sempre procurei ouvir outros estilos também como Pop, R&B, Funk, Soul e um pouco de jazz também. Hoje em dia o as bandas que escuto mais são Clutch, Queens Of The Stone Age, Kyuss, Nick Cave And The Bad Seeds e Mike Patton. Se fosse falar de tudo que eu curto a lista ia ser extensa, hehe.

Você está gravando no Family Mob, em São Paulo e é aluno do Jean Dolabella (ex-baterista do Sepultura atual Ego Kill Talent). Conte um pouco dessa relação na ideia de criar o canal.

Conheci o Jean quando eu tinha 18 anos. Li uma matéria sobre ele na Modern Drummer na época, e resolvi mandar um email para marcar uma aula. Na época fui na casa dele para ter aula. O Family Mob nem existia ainda. Achei que ia aprender técnicas de pedal duplo e tocar metal na primeira aula, mas foi totalmente o contrário, hehe. Quando ele colocou para tocar Cherish da Madonna para eu tocar junto estranhei um pouco no começo, mas vendo os toques que ele me passava com relação a técnicas, dinâmicas e outras maneiras de tocar, comecei a ter uma outra percepção da bateria e de outros estilos musicais . As aulas com ele foram esporádicas por uns 5 anos. Sou de SP capital, mas na época estava morando em Floripa e sempre quando vinha para cá, marcava as aulas. Faz 5 anos que voltei a morar em Sampa para me focar mais no meio musical e estudar. Nessa época o Family Mob ja existia e na primeira vez que entrei la, ja tive vontade de gravar alguma coisa la. Tendo aulas a quase 10 anos com o Jean, a gente construiu uma relação que acho que vai além de Professor/Aluno. Além de tocar, a gente conversa bastante também, e foi numa dessas conversas que a idéia do canal surgiu. Minha idéia inicial era só fazer drum covers e montar um portfólio para apresentar para amigos ou bandas que precisassem de um batera. Mas, conversando mais a respeito, fomos tendo a idéia de criar um diferencial para o canal e além dos drum covers, eu sempre iniciar os vídeos falando um pouco sobre mim, minhas próprias percepções com relação ao aprendizado e falando um pouco sobre a música do vídeo.

Foto: Estevam Romera

Ficamos muito inspirados com o seu intuito de trazer a questão da inclusão social para o canal. Além de ser um baterista excelente, sua história é fantástica. O que você pensa em trazer para o canal sobre a temática? 

Estou vendo a melhor maneira de encaixar este tema no canal. Mas principalmente quero fazer as pessoas acreditarem mais em si (Tendo elas alguma diferença ou não) e mostrar que por mais que hajam “limites”, cada um pode superar o medo e vence-los. Há cinco anos atrás conheci um projeto chamado Alma De Batera. É um projeto criado por um cara chamado Paul Lafontaine para oferecer aulas de bateria para pessoas com algum tipo de deficiência. Na primeira vez que fui assistir a uma aula, aquilo me transformou de tal maneira que me fez ter outra visão sobre essas pessoas e sobre mim mesmo. Tive a oportunidade de fazer alguns trabalhos voluntários como assistente dele e ver o quão amorosos e empáticos temos que ser não só com quem tenha alguma deficiência, mas sim com todos com quem convivemos.

Além dos drumcovers, quais serão as pautas do seu programa?

Vou falar do porque da escolha do set de batera e de pratos para cada música. Futuramente quero falar sobre inclusão no meio musical e fazer algumas entrevistas com algum outros bateras ou outros músicos até para possíveis participações nos covers. Quero ter uma interação maior com os inscritos também. A partir do segundo vídeo que vai ao ar nesse sábado (27 de Junho) eu falo para as pessoas fazerem perguntas para quem quiser saber mais sobre a síndrome e vou pedir também sugestões de músicas para futuros covers e qualquer outra pergunta que as pessoas queiram fazer relacionada a bateria. Acho assim, um jeito bem legal de construir os próximos conteúdos.

Parabéns pela iniciativa e muito obrigado pela atenção. Desejamos sucesso no canal. Espaço é seu! Deixe suas considerações finais e uma mensagem para quem quer se iniciar na música.

Eu que agradeço pelo reconhecimento do meu trabalho e pelo espaço que vocês estão me dando. Mesmo o canal tendo sido recém lançado, vocês do O Colecionador ja me apoiam e acho que podemos construir uma relação bem legal. Quero dizer para todos que queiram aprender algum instrumento, que não criem barreiras com relação a idade ou vocação para tocar. Vá atras do que acreditam e apenas façam o que gostam.

Fuck Namaste: O Faça Você Mesmo Como Norteador de uma Existência

Foto: Yago Albuquerque

Vocês são de Caucaia/CE, e vemos que estão em atividade constantemente. Seja com shows, lançamentos e outras produções individuais, vocês são pessoas ativas na região. Falem um pouco da importância do “Faça Você Mesmo” para cada um de vocês e para a banda.
O Faça você mesmx é nossa vida, porque tudo que fazemos tá inserido nessa prática. Foi o modo de ver o mundo que agente escolheu pra fugir da vida falsa de contra cheques. 
É algo que faz você querer tá dentro, pois não dá pra teorizar assim tão bem quanto a prática hahahhahaa tipo se tá chato, agente cria a diversão, se tá troncho, agente conserta, é como se fosse um “bushido” do subterrâneo! Vai além da música também, pois pode ser aplicado quando você cozinha por exemplo. É sobre subversão, ou sobre dar um outro significado pra tudo que nos foi imposto e enfiado goela abaixo.

Vocês começaram já lançado de cara um álbum com 13 sons. Há um ano vocês lançaram um split com a Chikara. Falem um pouco sobre o lançamento.
O pessoal de lá conversou com o pessoal de cá, e como tínhamos as músicas prontas, foi só mandar. A infernet meio que derrubou essa barreira da distância e facilitou também. Eles também tem splits com outras bandas do Brasil como Baixo Calão, What I Want e Klitores Kaos.

Há alguns anos haviam muitas bandas no estilo espalhadas pelo Brasil. Como vocês consideram que a cena de fastcore/power violence está atualmente?
Toda hora tem banda lançando discos, eps, lps, splits, tapes. Sempre dá uma renovada de bandas aqui e acolá, como se algo fosse cíclico, digo isso porque é só olhar num youtube, ou em outra plataforma digital/virtual e teremos milhares de pessoas envolvidas na barulheira. Aqui no Bra$il deu uma morgada um tempinho atrás, mas como falei, é cíclico, daí já vemos outras pessoas, ou ás vezes as mesmas pessoas, fazendo som rápido e sujo, em qualquer lugar do país vai ter gente fazendo zuada porque como a nação tá doente, motivo é o que não falta pra cuspir na cara do esquema.

Como é ser uma banda posicionada ideologicamente em uma época de extremo conservadorismo e avanços gigantes da direita neoliberal?
Se você vai vai tocar hardcore/punk/metal já tem de tá implícito na sua cabecinha que é contra toda essa merda que tá aí! É totalmente incoerente você achar que ouvindo Napalm Death, você pode ir pra igreja domingo e fazer arminha com as mãos. O lance do underground são pra pessoas que já tão com azia de tanta loucura que o sisteminha cagou na gente! Foi criado pra indignação, se você não se posicionar contra essa cambada que tá no poder (eita que clichê! hahahahahha) você nem precisa começar a ouvir esse tipo de som; no final vai ser tão sem sentido, as letras das bandas que você escuta, falando mal de você mesmo hahahahaha não tem muita lógica né?! Agente acorda cedo pra ralar, tamo P da vida, vamo pagar imposto até morrer, tanta putaria assim pressionando que nosso posicionamento se alimenta de emputecimento.

“muitas mulheres se sentem muito representadas pela minha pessoa
como mulher, gorda, negra e nordestina.”

Como é, para a vocalista Priscilla, ser uma mulher negra nordestina dentro de uma cena majoritariamente masculina e branca?
Tem várias questões. A primeira delas é o peso da responsabilidade de estar com o microfone e muitas mulheres se sentem muito representadas pela minha pessoa
como mulher, gorda, negra e nordestina. Então eu preciso ter muita cautela sobre o que dizer pra não soar ofensivo pra alguém que não é nosso alvo. A gente usa muito ironia nas letras e as vezes alguns ataques diretos mesmo, e o cuidado de passar essas mensagem chegue corretamente e que nosso discurso não seja tomado por pessoas que somos contra por exemplo. Sobre a questão de gênero em si muitas pessoas acham que eu não sou feminista por que não falo muito sobre isso no palco mas a minha presença ali e a minha vivência já deveriam servir mais do que os gritos que eu dou. O respeito tem que vir independente de eu estar no palco e que eu não precise pedir por ele pra tê-lo. Ainda se enfrenta esse tipo de barreira mas não é algo que me faça recuar, de forma alguma.

Foto: Yago Albuquerque

Indiquem cinco bandas nacionais que vocês realmente curtam.
Nossa! Existem muitas bandas que gostamos, mas vamos destacar somente bandas Brasileiras: Blight (CE), Afronta (CE), Diagnose (CE), Manger Cadavre?(SP) e Falso (RN) mas tem tantos, tantos, que não caberia nessa entrevista. É difícil escolher só cinco.

Quais são os planos da banda?
Lançar materiais, tocar, se divertir, jogar praga nos políticos/policiais, roubar ricos, tacar fogo em igreja, fazer amor, apedrejar bancos…

Considerações finais
Obrigado pela paciência, obrigado pelo apoio, obrigado a você que leu; apoia tua cena de algum jeito.

A Realidade Distópica Apontada Pelo Rest In Chaos

Questionando a essência do comportamento humano na contemporaneidade, Rest in Chaos faz uma análise subjetiva sobre como os signos neoliberais influenciam no nosso comportamento. Matando a nossa própria personalidade, aquilo que realmente somos, para adequação ao sistema e os frutos da tecnologia, usadas de forma irracional, a banda planta questionamentos em seu death metal influenciado pelo teor crítico do grindcore e do thrash metal. Conheça um pouco sobre a banda catarinense nessa entrevista!

Vocês começaram a banda em 2016 e nesse pouco tempo de estrada já realizaram grandes feitos como tours, clipes, lançaram material… Além do som que é excelente, o que vocês consideram como essencial para as coisas acontecerem para uma banda independente?

Acreditamos que força de vontade e atitude são coisas essenciais para que haja algum tipo de evolução em um projeto, acreditar no som, arregaçar as mangas e não criar empecilhos também ajuda, de resto é apenas sorte de estar nos lugares certos, com as pessoas certas.

O clipe do som “Ego Riser” é muito bem produzido, assim como o som. Falem um pouco sobre a concepção desse trabalho.

A ideia básica da música é falar sobre o quanto matamos a nossa própria personalidade, para garantir que estamos certos. A partir disso, encontramos um lugar abandonado para representar nossas mentes. Fizemos a confecção de corpos e adicionamos o elemento do sangue. A mensagem acaba ficando sutil e metafórica, mas o objetivo é assustar para que depois entendam. Os corpos mortos no clipe, na verdade, representam nossas próprias personalidades, mortas pelo nosso ego.

Quais são as principais influências no som de vocês? Sobre o que as letras tratam e quem as escreve?
Nossas influências passam por bastantes vertentes, do Metal atual ao Thrash, Grind, Hardcore com pitadas de Death Metal também. Até agora a temática de nossas letras fala basicamente do quão raso o ser humano se tornou, dominado por pequenas máquinas e apps (celulares, tablets e redes sociais), vive em função de sua imagem, tenta passar algo que não é e faz com que outras pessoas se sintam mal por não ter condições de ter o mesmo, mentindo para si mesmo. Look At Me e Ego Riser são exemplos perfeitos de nossa temática. Para os próximos trabalhos estamos pensando em maneiras de expandir o conceito e começar a entender melhor as emoções e ideias que levam os humanos a interagir dessa forma, tentar entender a fundo o porquê perdemos o controle de nós mesmos.

Vocês vão se apresentar junto ao Brujeria em Florianópolis. Como se deu o convite? Como está a expectativa para o show?
O convite acabou acontecendo bem naturalmente. O Kaká (da Xaninho Discos) é quem estava produzindo e acabou que fomos recomendamos como banda de abertura por alguns amigos em comum com ele, pessoas que já conheciam o nosso trabalho. E foi assim que ele conheceu a banda. Depois disso conversamos bastante, durante uma semana inteira alinhando Ideias, para que houvesse a parceria e tivéssemos a certeza de que tudo estava alinhado. Acabou dando certo. O Kaká é um cara bem profissional da cena, está há muito tempo envolvido e é muito respeitado. Ficamos bem felizes com esse voto de confiança, gratos por poder fazer parte desse rolê!

Recentemente vocês saíram em tour com a banda Distraught. Comentem um pouco sobre os shows, o convívio entre as bandas, aprendizados, perrengues…
Tá aí um rolê que foi bastante especial pra gente. A Distraught é uma banda que conhecemos há muito tempo e temos uma grande admiração. Viramos amigos, mantemos contato ao ponto de irmos na casa uns dos outros, literalmente a parceria aconteceu. Foi uma tour muito divertida e quase não houve perrengues, foi só parceria e diversão.

Indiquem 5 bandas nacionais que vocês curtam e que os nossos leitores deveriam conhecer. Falem um pouco sobre elas.

Distraught sem dúvidas é uma das bandas que todos deveriam conhecer, metal pesado, anos na cena underground, peso absoluto e com muita classe.

Manger Cadavre? Também é recomendadíssimo, nossos irmãos do crust fazem uma sonzeira com muito contexto, nos fazendo refletir sobre o atual momento de escuridão em que vivemos politicamente no Brasil. Muito respeito!

Surra, motivos pelos quais nem precisamos falar, né… Surra quebra em todos os sentidos!

Eutha não poderíamos deixar de citar. Banda do underground catarinense com quase 30 anos de vida, peso e agressividade inclusive nas letras.

Desalmado. Essa é uma das bandas que viraram referência em conceito e caminho a ser trilhado.

Podemos esperar um full album?

Sim. No momento estamos em estúdio regravando o nosso EP de 2016 para juntar com os outros 3 singles, mixados e masterizados pelo Adair Daufembach. Decidimos regravar para que houvesse a mesma qualidade dos últimos sons lançados, e com isto, temos em mãos um material de 10 faixas, nosso primeiro full álbum.

Quais são os planos futuros da Rest in Chaos?

No momento estamos produzindo o material para o lançamento do nosso próximo single, Artificial, e finalizando as edições para o clipe do mesmo. Além disso, o processo de composição nunca para e pretendemos lançar nosso segundo full já em 2020. Temos planos para uma tour, mas ainda estamos em negociação e é surpresa até pra gente onde será. Seguindo em frente, continuaremos indo até onde nos chamarem, levando nosso som e nossa mensagem, resgatando cada indivíduo que pudermos incluindo nós mesmos, para que o mesmo não nos tornemos este ser humano raso do qual falamos em nossas músicas.

Considerações finais

Queremos agradecer à todos que contribuíram de alguma forma para que nós, a RIC tenha conseguido chegar até aqui. Continuamos acreditando que através de um esforço coletivo e de muita união, as coisas se transformem novamente. Desejamos que todos os responsáveis por manter a cena viva, permaneçam acreditando, que todos os admiradores e entusiastas da música alternativa continuem comparecendo aos shows e mantenham viva a chama deste nosso lado obscuro, só assim, bandas como nós e as outras que citamos, conseguirão continuar a caminhada.

A Resistência Riot Grrrl do Cosmogonia

O punk/hardcore do Cosmogonia ultrapassa gerações e traz a temática feminista para o meio. Nascida nos anos 90, a banda teve uma importância na história do movimento riot grrrl e, hoje, em uma nova formação, continua levando uma mensagem forte com um som bem definido e com qualidade, além de ocupar os espaços que são delas por direito. Conversamos um pouco sobre a trajetória e a cena com a banda. Confira!

Foto Andréia Assis

Após um hiato de 13 anos, vocês voltaram com força em uma sequência de shows muito grande. Isso ajudou no processo de composição do EP? Falem um pouco sobre o processo de gravação.

Na verdade já tinha som quase pronto quando paramos em 2007. A Teté sempre esteve

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Foto por Maya Melchers

ativa de alguma forma, tocando, criando, compondo. Quando voltamos, a gente já quis trazer músicas novas. Era importante pra gente expressar os nossos sentimentos e musicalidade atual. Nossa música “Mentiras”, apesar de não termos registrado, já era um som de 2006. Fizemos alguns ajustes nela e criamos a “Abusivo” e “Sem Silêncio” logo que retornamos com a banda. A gente não imaginou que iriam rolar tantos shows, foi uma surpresa enorme receber os convites, reencontrar amigos antigos da banda dando força e somando… E aí, enquanto iam rolando os shows, surgiu a “Tempo” e gravamos o EP pelo Experência Family Mob no estúdio Family Mob em São Paulo, o qual selecionou a banda para uma diária no projeto Experiência Family Mob, teve mix e master externas, por Vinícius Buchecha no Estúdio 1100, em Diadema. Pouco depois da gravação do EP, a música “Privilégio” surgiu, que sairá no próximo trabalho nosso, ainda sem data prevista. Mas estamos sempre trabalhando continuamente em novas composições. Estar tocando ativamente, participar de festivais, ir pra estrada tocar fora são vivências que nos dão inspiração para surgirem as letras, melodias, riffs e etc.

A banda já passou por diversas formações, mas de acordo com as publicações de vocês, sempre teve a Elis (membro fundadora) por perto e vocês demonstram uma gratidão. Como é a relação com as ex-integrantes? Como está a formação atual?

Bom, a Elis é o início de tudo! Sem a Elis, Cosmogonia não existiria. Ela é a fundadora e idealizadora de tudo o que a banda é e representa. Ela sempre esteve presente nas nossas decisões, é presente até hoje nessa atual fase da banda. Ela é o nosso elo mais forte com a ideologia e essência da Cosmogonia. A Elis fez parte da nossa formação como mulheres feministas e como seres humanos que almejam uma sociedade mais justa e igualitária. E com ela, diversas mulheres passaram pela banda. Elas deixaram suas marcas, vivências e contribuições para que hoje a gente possa ainda estar aqui resistindo e insistindo em nossa luta e em transmitir nossa mensagem e som. Hoje em dia, graças as redes sociais, tivemos a possibilidade de reviver coisas maravilhosas.  
Quando começamos a retornar, fomos resgatando também toda a história e memória da Cosmogonia. Pedíamos nas redes para as pessoas enviarem registros nosso e fomos recebendo fotos, flyers, mp3, coletâneas, e até a nossa primeira fitinha demo K7 gravada em 1998. Tudo isso fez a gente se reencontrar com diversas pessoas que já passaram pela banda ao longo dos tempos. Tudo isso nos motivou ainda mais a reviver e também é algo que nos atenta ao fato de que não podemos mais parar, de que precisamos continuar o legado de levar nossa mensagem pra quem chega, pra quem junto luta e nos possibilita estar aqui hoje. A formação atual é a Gabi nos vocais, Teté na guitarra e backing vocal e Fernando no baixo. Com a saída recente da Dani, no momento, estamos em fases de teste, buscando uma baterista mulher, então enquanto isso, contamos com a ajuda de dois amigos que se revezam, que são o Nautilus (que também toca na banda TxP com o Fernando nosso baixista) e o Roberto (que atua nas bandas Running Like Lions e Bad Canadians). Eles estão segurando as pontas até encontrarmos nossa diva das baquetas!

Apesar de não fazer parte da banda nos anos 90, vimos em uma entrevista em que a vocalista Gabi diz que acompanhava a banda desde sempre que a Cosmogonia era sua maior inspiração. Fale um pouco sobre o cenário riot dos anos 90.

A Gabi era muito nova naquela época. Ela tinha apenas 14 anos e na medida do possível estava sempre nos rolês promovidos pela Cosmogonia, ou pelas bandas de amigos daquela época. As coisas eram bem diferentes do que era hoje em dia. 
Tanto os rolês como o comportamento das pessoas, o engajamento em causas, e até mesmo a convivência e comunicação com as pessoas era muito diferente do que vivemos hoje. O punk se mobilizava por diversas causas dentro do cenário underground, porém as bandas com mulheres e de mulheres sempre foram excluídas de muitas vivências (como também hoje em dia). Dependíamos muito do contato com amigos para por um festival de pé, pra trocar zines, correspondências pelos correios. A cena, naquela época, girava de uma forma em que éramos total dependente de comunicação assíncrona, então nos preocupávamos mais em termos de apoio às bandas, comprar material, colar nos rolês, e também fazer rolês para ajudar quem mais precisava era muito comum. 
Hoje em dia o fácil acesso ao material e aos rolês, para a maioria das pessoas que estão nos grandes centros não são tão valorizados por aqueles que consomem material. 
Nós vemos isso toda vez que saímos de São Paulo pra tocar. Regiões mais carentes de rolê como cidades do interior e de outros estados estão sempre com a casa cheia, pessoas na medida do possível apoiam, comparecem, compram material, e curtem o que você faz nas redes sociais das bandas. Antigamente o engajamento do público com as causas e com as bandas, era muito maior.

Apesar do movimento empoderar as mulheres no punk rock, havia muita disputa naquela época. Como você avalia as mudanças de comportamento daquela época para a atual? As mulheres estão mais unidas?

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Havia (e ainda há), muita disputa entre as bandas do underground. A Teté, que é a mais antiga e entrou em 2003 teve a vivência dos shows daquela época. Ela inclusive, inicialmente, notou de imediato essa disputa que rolava bastante entre as minas e bandas das minas. Ela não sentia a mesma sororidade que vemos hoje das manas. Havia muita desunião, exclusão, inclusive de fests de mina e também da própria história do Riot no Brasil. Cosmogonia mesmo com toda sua importância e representatividade desde 1993 na cena, por conta de ser uma banda da periferia, que não tinha acesso a gravar material, a produzir vídeos (que também na época era bem mais difícil), acabou por muitas vezes quase que apagada das citações, documentários e etc sobre o movimento Riot brasileiro. Já passamos por situações onde mulheres de outras bandas colavam no rolê pra julgar nossas roupas, nossos equipamentos, rolava até questionamentos se possuíamos conhecimento teórico sobre o movimento feminista! (risos) Não que isso não aconteça hoje, pois ainda continua acontecendo, mas é de uma maneira mais isolada e até camuflada. Mas hoje em dia, quase que em 98% dos casos, as minas colam pra apoiar, curtir o som e tal. Quando retornamos, sentimentos que a conscientização e a união das próprias mulheres entre si está bem mais forte, bem mais evoluída e isso também foi e ainda é extremamente o que nos mantém ativas e com vontade de seguir e focar na banda.

Ano passado e esse ano vocês participaram de dois festivais grandes de hardcore. Como foi a experiência? Vocês acreditam que os produtores estão incluindo as bandas com mulheres por entenderem a necessidade ou ainda tratam como “cota” para calar as cobranças do público?

Sinceramente, infelizmente achamos que muito dessa nova inclusão de bandas feministas e femininas em festivais ainda são “cotas” . Devido ao fato de que o Empoderamento Feminino e o Feminismo serem temas que cada vez mais têm se inserido na grande mídia, nas redes sociais, nas empresas e em diversos espaços, consequentemente chegou também nos grandes festivais. Então, notamos que ainda, as grandes produtoras estão preocupadas com as cobranças. Apesar de termos tido super apoio nos fests, tanto da equipe de produção, técnica, quanto das outras bandas que tocamos, fica visível o quanto ainda é pouco e o quanto ainda falta lutarmos para chegarmos num equilíbrio justo e igualitário. Afinal, é um espaço que também é nosso por direito!  Mas, ao mesmo tempo, os fests maiores nos dão também a maravilhosa possibilidade de mostrar para o público que comparece neles (que não são os mesmos que frequentam os rolês mais undergrounds), que existimos! E que nossa existência, nossas mensagens, nossos pontos de vista e nossa música também precisam fazer parte dos fests. Quando tocamos nesses festivais maiores, buscamos sempre focar sobre o simples fato de estarmos ali e aí vamos tentando plantar a sementinha de que a participação da mulher ainda é muito pequena.  Acreditamos que fazendo isso, a conscientização de que é necessário cada vez mais aumentar as bandas como a nossa vai se difundindo e também vai aumentando as cobranças, fazendo com que cada vez mais, os produtores de festivais tenham sempre que pensar em incluir minorias nesses festivais. 

Quais são os planos futuros da Cosmogonia?

Lançar um álbum full. Ainda é um sonho, mas estamos trabalhando com passinhos pequenos para alcançá-lo. E cair na estrada e fazer o máximo de shows em lugares que antes nunca estivemos é uma vontade grande. E nunca mais parar de tocar. 

A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas em pé e atividades ao ar livre

 Indiquem 5 bandas que vocês ouvem e acham que todo mundo deveria conhecer.

Bioma, Sapataria, HAYZ, Mau Sangue e Vesta 

Qual foi o principal aprendizado nesses anos todos de underground?

De que não estamos sozinhas, que sozinhas não chegamos à lugar nenhum, que não vamos nos calar, não vamos desistir de levar nossa mensagem pro máximo de pessoas possíveis. Que mesmo sendo uma banda de minorias, com mulheres, ainda somos muito privilegiadas, dar um passo atrás e trazer aquelxs que tem mais dificuldades que nós nesse mundão underground injusto e excludente. 

Considerações finais.

Não estaríamos de volta à ativa, principalmente se não fosse a força de canais de comunicação faça você mesmo.
Somos muito gratas por cada um que curtiu, compartilhou, consumiu qualquer tipo de material que tenhamos disponibilizado esses anos todos. Apoiem as bandas com mulheres ou de mulheres. Chamem mulheres fotógrafas, zineiras, designers, técnicas de som, que fazem comida pros seus rolês. Fortaleçam cada minoria que tenta sobreviver no underground. Juntos somos mais fortes.