Escória Comix: A Editora de Quadrinhos Criada para Aniquilar a Raça Humana.

Nem só de discos de vinil e cds é composta a minha coleção. Dentre elas estão muitos quadrinhos, que luto contra a maresia e as traças para manter intactos. Infelizmente a maioria deles são da Marwell ou DC e seus selos, mas a meta de 2020 era dar apoio ao cenário nacional que possui muitos autores fuderosos. Nessas minhas sagas em bancas de shows independentes, encontrei o Rogéria, uma HQ com a lenda Fábio Mozine, e conheci o incrível trabalho de Lobo Ramirez, o fundador da editora Escória Comix. Tive um papo que me fez refletir bastante com ele. Falamos um pouco sobre ter uma editora em tempos de pandemia, underground da HQ e da música, ideologia nos quadrinhos e muito mais. Confira entrevista:

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Antes do início do Escória Comix, você já ilustrou capas de discos, cartazes de shows, e artes de marcas independentes. Fale um pouco sobre a sua trajetória no underground relacionando música e arte.

Comecei desenhando capas de álbuns de bandas de amigos e da minha própria banda , depois fui fazendo cartazes de shows ai  quanto mais gente ia conhecendo meu trabalho aparecia mais pedidos pra arte de camiseta capas de albuns. 

Basicamente foi isso, sempre tudo misturado música e arte.

Como se deu a ideia de criar uma editora de HQ´s? Como é o mercado? Dá pra viver de quadrinhos no Brasil?

Cara, a ideia de criar uma editora de HQ’s  surgiu porque eu queria juntar num lugar só todo o pessoal que produzia os quadrinhos loucos que eu gostava, normalmente esses doidos  fazem tudo sozinhos e  como é muito trabalho desenhar e ainda ter que vender seu peixe nem sempre conseguem atingir  um público maior , já com a editora da uma melhorada nisso porém já respondendo sua segunda pergunta o “mercado” é desigual e espalhado e na verdade é mais um monte de cena de quadrinhos por ai com pouca  visibilidade e por isso não dá pra viver de quadrinhos no Brasil, as pessoas que conseguem “viver” muitas vezes fazem trabalhos para fora por que aqui mesmo não existe um mercado sólido pra sustentar esse tipo de atividade.

Além das HQ´s, você vende outros produtos na loja virtual da Escória. Qual é a importância desse, digamos, merchandising para a editora? O valor arrecadado ajuda a financiar edições?

É com a venda desse merchandising que consigo lançar os quadrinhos. Esses produtos ( bonés, camisetas, meias etc) são o que mais vende no site e são essenciais para a Escória sem eles não consigo financiar a produção dos HQs.  Como um camarada meu diz é “Independent Comix Street Wear” hahaha.

Você também edita o trabalho de outros artistas, além dos seus próprios. Fale um pouco sobre eles.

Eu demorei pra me tocar que o trabalho que eu faço é editar mas as vezes editar significa saber que o que o outro artista entregou já está perfeito ai é só arrumar pra mandar pra gráfica. Digo isso porque fui descobrir depois que tem muita gente que se acha editor e fica mandando os artistas modificarem suas histórias, eu sempre dei total liberdade pro trabalho autoral e normalmente só sou chato com a capa mas nada sai pela Escória sem a aprovação do artista.
A maioria são amigos que fui conhecendo nos rolês de quadrinhos outros eu acabo encontrando pelo Instagram mesmo e quando gosto do trabalho entro em contato e pergunto se teria algum interesse em lançar pela Escória.

O processo de uma editora independente se parece um pouco com o dos selos musicais. Você considera que o “underground” da HQ é similar ao do cenário musical?

Totalmente, pelo menos do jeito que eu trabalho eu acho idêntico a de um selo de música underground. Vai ver  que por ter vindo desse meio eu enxergo as coisas desse jeito , mas sei que editoras de quadrinhos não independentes são bem diferentes disso. 

Você também é baterista da banda de crossover Orgasmo de Porco. As inspirações para som e HQ são parecidas?

São exatamente as mesmas, não consigo desassociar uma coisa da outra. Os mesmos filmes trash , desenhos animados, livros, rolês , bandas de hardcore e metal e os rolês que a gente da pela vida . Uma coisa alimenta a outra sabe? Tu lê um gibi faz uma música inspirado as vezes ouve um som e tem ideia prum gibi.

A grande mídia tem destacado o crescimento dos HQ´s de direita. Você acredita que isso é uma realidade ou é uma tentativa de empurrar a ideologia neoliberal ou até mesmo proto fascista para a cultura pop? 

Eu acho que a grande mídia que é neoliberal e por si só sempre apoia esses projetos proto fascistas tem colocado essas aberrações que aparecem por ai numa falsa igualdade de pesos saca? Não é nem de longe a maioria nem existe um crescimento de HQs de direita relevante porém quando eles publicam isso estão colocando essas exceções como iguais no meio de um monte de quadrinhos que não tem nada haver com isso.Também tem o lance de que a maioria desses hqs de super heróis estadunidenses já serem proto fascista  a muito tempo mas “ninguém” percebia isso.

Esgoto Carcerário – Loja Monstra

Cite três HQ´s brasileiras que você recomenda.

Recomendo a coletânea “Pé de Cabra 3 ” da editora Pé de cabra que tem uma porrada de artista independente brasileiro e pra quem não conhece muito funciona como um ótimo catálogo do que está sendo produzido atualmente.O zine “Know Haole #4” do autor Diego Gerlach lançado pela sua própria editora Vibe Tronxa comix.  Esse Zine foi a primeira coisa que eu li do gerlach que tive vontade de usar drogas pesadas, muito bom.
E também recomendo o quadrinho “Esgoto Carcerário” lançado pela Escória Comix  da autora Emilly Bonna .

Eu adquiri um dos seus trabalhos em Caruaru em uma mesa de CDs, patchs… e fiquei positivamente surpreso. Qual é a importância das parcerias para disseminar a cultura independente?

Rapaiz, foi no patch customs ne? Que massa. Total importância , a gente tá tudo no mesmo rolê e o pouquinho que um monte de gente se ajuda já é grande coisa sabe? Cada parceria ali e aqui  vai ajudando a espalhar essa cultura doida que a gente tanto curte.

A editora completou quatro anos de existência. Como é para você insistir em impressos, na era digital? Muita gente te desestimulou nessa empreitada?

Cara , muita gente me desestimulou em tudo porém muito mais gente me apoiou e principalmente eu tinha convicção que era possível fazer  a Escória Comix e lançar material impresso. Se fosse dar errado tudo bem mas eu queria apostar pra ver  e a questão é que eu uso muito todas as midias digitais ao meu favor divulgando os quadrinhos e pra vender já que a loja é um site né.  Eu acho que apostar 100% em coisas digitais pode dar certo mas eu prefiro ter sucesso com o fracasso do impresso, pelo menos por enquanto tá dando certo veremos se a editora resiste mais 4 anos .

Parabéns pelo trabalho e obrigado pela atenção. Esse espaço é seu, use como quiser.  

Muito obrigado pelo espaço e por essa entrevista, valeu de verdade. 
Queria agradecer todo mundo que sempre acompanha a Escória Comix e compra os quadrinhos e também convidar quem nunca ouviu falar a dar uma chance, conheça. Compre algum gibi e leia vai que tu gosta. É isso ai, continuem reais e pau no cu de deus. 

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