30 Melhores Clipes da Música Pesada Brasileira em 2025

Cresci no Recife quando a televisão ainda era uma janela rara para o mundo e, para quem gostava de música, a MTV virou um portal definitivo. Já passei dos 50 e carrego comigo a memória de tardes e madrugadas em que os clipes eram a porta de entrada para conhecer novas bandas, além é claro, dos festivais independentes, e o maior que temos: Abril Pro Rock. Foi ali, entre chiados de antena, vinhetas estridentes e VJs que pareciam falar diretamente comigo, que conheci bandas que nunca tocariam no rádio local e artistas que mudaram meu jeito de ouvir e de ver música.

A MTV não era só um canal, era uma escola informal de linguagem, estética e atitude. Os clipes vinham como pequenos filmes, às vezes confusos, às vezes geniais, mas sempre cheios de intenção. Para um recifense, longe dos grandes centros, aquilo ampliava o horizonte. A gente aprendia sobre tendências, cenas, política, ironia e rebeldia em três ou quatro minutos, embalados por guitarras, batidas eletrônicas ou silêncios calculados.

É com esse olhar, moldado por décadas de televisão musical, que apresento esta lista de clipes. Não como quem faz ranking ou tenta definir o melhor, mas como quem revisita referências. Cada vídeo aqui carrega um pouco daquela sensação antiga de sentar no chão da sala, controlar o volume para não acordar a casa e esperar que algo inesperado aparecesse na tela. Um prelúdio para assistir com calma, como se a MTV ainda estivesse no ar e a surpresa ainda fosse parte do ritual.

Nos últimos anos, com a ascensão dos vídeos curtos, muitas bandas tem deixado de investir em vídeo-clipes para promoção de seus álbuns, já que ninguém assiste mais que 1 minuto da produção. Mas ainda restam amantes do áudio visual. Com essa lista, gostaria de incentivar mais produções e que as bandas voltem a enxergar a arte antes de números e os fãs, deixem de ser usuários e voltem a ser metal maniacs!

30 Melhores Clipes da Música Pesada Brasileira em 2025

1 Violator – Chapel of the Sick 

2 NERVOSA – Smashing Heads

3 Allen Key – Get in Line

4 Torment the Skies – Temple of Mammon

5 OPEN THE COFFIN – Zombified

6 Desalmado – Blood Thorns

7 CREATURES – Beware the Creatures

8 Manger Cadavre? – Efêmero

9 Mukeka di Rato – Generais de Fralda

10 THE DAMNNATION – Burning Rain

11 Vazio – Ritual de Destruição

12 Antiklan – Ashen Void

13 Pacta Corvina – Às margens do Lucro 

14 MILITIA – O ÚLTIMO PASSO

15 Torture Squad – Magnum Chaos 

16 REBAELLIUN – Ignite

17 MIASTHENIA – Tapuia Marcha 

18 Pure Hate – Será Que Existe Deus?

19 INRAZA – A Loner

20 Payback – Entre o Arame e o Arsenal

21 ESKRÖTA – A Bruxa

22 Hellway Patrol – Pânico Satânico

23 Infamous Glory – Praising Insanity

24 Brain Rot – Cérebro Podre

25 EVILCULT – Midnight Ritual 

26 MURDERESS – Queen Of Swords

27 Inferno Nuclear – ANTIRRACISTA

28 Bleak Wind – Invisible Cycle

29 Terceira Guerra – Alvo Nas Costas

30 ID EST ME – FIGHTER COVER

ANTIKLAN anuncia “Ashen Void”, single/clipe lançado via Scena Lab, que marca fase mais densa da banda

A banda ANTIKLAN apresenta em 23 de novembro, no Canal Scena, seu novo single “Ashen Void”, que inaugura uma fase considerada mais visionária e intensa na trajetória do grupo. A música amplia o brutalismo sonoro característico da banda, incorporando uma atmosfera de dissonância ritual e uma entrega vocal que transita por desespero, insurgência e uma forma primitiva de transcendência. O lançamento sinaliza o início de um período mais denso, afiado e comprometido com a ruptura estética e sonora que consagrou a identidade da ANTIKLAN.

Assista aqui: https://youtu.be/k_lT4yeJRpE?si=qS5OEhrH7Au98FY9

Formada em 2020 no subterrâneo musical de Natal, no Rio Grande do Norte, a ANTIKLAN define seu trabalho como um ato de resistência sonora. O grupo surgiu do impulso de explorar territórios desconhecidos e experimentais, atravessando fronteiras entre gêneros. A proposta combina a expressividade visceral do metal com a energia crua e indomável do punk.

O álbum de estreia, “Under Wetiko”, lançado em 2022, consolidou essa fusão. O trabalho, classificado como um álbum-conceito e um manifesto atemporal, mergulhou em temas como violência estrutural, psicologias insurgentes, perspectivas anticoloniais e a possibilidade de ultrapassagem desses limites.

Com uma sonoridade que transita entre post-metal, post-doom de caráter atmosférico e experimental, sludge e punk, a ANTIKLAN constrói um espaço em que peso, catarse e ritual se encontram. Suas composições funcionam como um chamado, evocando tanto um retorno às raízes quanto um avanço em direção ao desconhecido, sempre atravessado pela recusa ao medo e pelo impulso de fortalecer a luta.

Nos últimos anos, a banda também passou a dialogar e colaborar com coletivos artísticos anarco-insurgentes de diferentes partes do mundo, ampliando seu envolvimento com causas urgentes e movimentos de resistência.

SOBRE O CANAL SCENA

O Scena é, na atualidade, o maior canal no YouTube que fala exclusivamente de bandas do underground brasileiro. Tendo realizado uma pausa em 2024, retorna como vitrine de novos nomes da cena nacional, exaltando o underground pesado. Por meio da produtora Scena Lab, tem realizado curadoria e lançamento de vídeos oficiais, além do trabalho de agendamento de shows e turnês.

Ficha técnica da banda

Nome: ANTIKLAN
Gênero: Post-Metal, Post-Doom, Sludge Punk, Atmosférico, Experimental
Origem: Natal, RN, Brasil
Atividade: Desde 2020

Discografia
Under Wetiko (álbum completo, 2022)
Akasic Skull (videoclipe oficial, junho de 2022)
Ashen Void (single e videoclipe, 2025)

Formação
Julia “KaliNova” Gusso — voz e letras
Flávio França — guitarras
Max Barros — bateria
Gustavo Rocha — baixo
Breno Xavier — guitarra

Redes e contato
Instagram: www.instagram.com/____antiklan
Bandcamp: bandcamp.com/antiklan
YouTube: youtube.com/@antiklanband

A Honestidade em ‘Odisseia Emergente ao Fracasso’ do Ironias | Resenha

Há álbuns que celebram conquistas. Outros preferem encarar o tombo. Odisseia Emergente ao Fracasso, do Ironias, escolhe a segunda via e o faz com uma honestidade rara na cena atual. Longe de soar derrotista, o disco transforma a queda em narrativa, a frustração em motor criativo e o desencanto em comentário social.

Desde as primeiras faixas, o Ironias deixa claro que a proposta não é conforto. As canções avançam como capítulos de uma jornada torta, em que expectativas se inflamam para, logo depois, colidir com a realidade. Musicalmente, o álbum transita entre arranjos tensos e momentos de economia quase claustrofóbica, como se o silêncio também fosse parte do discurso. A produção evita o polimento excessivo. Há arestas, há ruídos e há intenção nisso.

As letras são o ponto alto. Com ironia, como o próprio nome da banda sugere, o grupo observa o sujeito contemporâneo encurralado entre promessas de sucesso e a experiência cotidiana do fracasso. Não se trata de cinismo vazio, mas de um olhar crítico que aponta contradições do trabalho, da ambição e da identidade. Quando o Ironias é mais direto, acerta. Quando flerta com o excesso de metáforas, por vezes perde impacto, mas nunca a coerência.

Há, porém, um risco assumido. A densidade constante pode cansar ouvintes menos dispostos a acompanhar a odisseia até o fim. Falta, em alguns momentos, um respiro melódico que amplie o alcance emocional do disco. Ainda assim, essa escolha parece consciente. O álbum quer incomodar mais do que agradar.

Odisseia Emergente ao Fracasso não é um trabalho feito para hits ou consumo rápido. É um disco que pede escuta atenta e disposição para encarar perguntas incômodas. Ao transformar o fracasso em eixo narrativo, o Ironias entrega um retrato ácido e pertinente do nosso tempo e prova que, na arte, cair também pode ser um gesto de resistência.

Fundado em 2014 por Jacintho, o IRONIAS surgiu no circuito punk/DIY do interior de São Paulo, entre as cidades de Leme e Jundiaí, construindo sua trajetória inicial com urgência, intensidade e total independência. Foram dois EPs, turnês pelo Sul do país e uma sonoridade crua e poética que marcou o underground da época.

Agora, com JacinthoCely CoutoMatheus Campos e Lucas Rosa na formação, o projeto renasce com maturidade e experimentação, reafirmando sua essência sem perder o ímpeto que o originou.

‘Odisseia Emergente ao Fracasso’ reúne 11 faixas que oscilam entre o indie rock, o pós-punk e até mesmo o punk-hardcore, construindo uma estética em que atmosferas densas e luminosas se entrelaçam. As guitarras são ora cortantes, ora etéreas; a bateria pulsa com energia vital; o baixo sustenta um terreno emocional em constante ebulição.

A arte da capa de ‘Odisseia Emergente ao Fracasso’ é de Diogo Robert de Lima, um artista indígena que mora no interior de São Paulo e a finalização é de Lari Limoeiro. O artista construiu cada quadro da capa baseado em um glossário de ideogramas que quando combinados transmitem uma mensagem.”Cada imagem corresponde a um tema presente no álbum, podem ser também representações de partes de uma jornada. Essas imagens também são literalmente um tipo de escrita, baseada em ideogramas e glifos. Existe um pequeno glossário com tais símbolos que quando combinados produzem variados sentidos. Em outras palavras, é possível ‘ler o álbum através da capa’. As influências são glifos pré colombianos, adinkra (uma linguagem de símbolos africanos) e alquimia/ tarot”, diz Lima.

Faixa a Faixa

1. Do Futuro
A faixa de abertura estabelece o tom do álbum com uma urgência existencial, costurando questões sobre nossas expectativas em relação ao amanhã e a ansiedade gerada pelo ritmo acelerado da sociedade atual. É um recomeço que já questiona se ainda sabemos olhar para frente sem perder parte de nós mesmos no processo. A introdução serve como um pacto: o ouvinte será desafiado desde o primeiro acorde. Destaque para a construção das linhas de bateria.

2. Telaviv Ou Quando o Meu Amor Acabar
O título é enigmático e carrega uma ambiguidade poética sobre amor e distância física ou emocional. A música explora a sensação de deslocamento afetivo e os conflitos interiores que surgem quando relacionamentos acabam, não apenas pela perda em si, mas pelo que deixam em aberto na paisagem íntima. As sonoridades nos transportam para os anos 80, em um pós-punk com alguma levada de The Cramps. Essa é para quem curte dançar!

3. Insaciável
“Insaciável”, por sua vez, mergulha na voracidade emocional e na busca incessante por algo que nunca se completa. É quase uma passagem climática no disco, que confronta o vazio gerado por expectativas incessantes e a incapacidade de saciar anseios internos. Aqui, o destaque vai para o vocal, que a mim, que sou 50+, remeteu a fase áurea do Cazuza.

4. Seis por Um
Curta e impactante, numa pegada meio punk hardcore, mas sem deixar os elementos do rock oitentista, a quarta faixa cria um senso de desequilíbrio e tensão. Um momento que intensifica a narrativa da odisseia emocional proposta pelo álbum.

5. Odisseia Emergente ao Fracasso
A faixa-título funciona como epicentro temático. Aqui, o conceito de fracasso deixa de ser um estigma para tornar-se lente crítica sobre expectativas sociais e pessoais. A música resume a visão do álbum: há dignidade tanto na luta quanto na queda, e os erros que nos moldam têm tanto peso quanto as vitórias. Aqui o destaque está nas linhas de baixo, tão importantes nos gêneros escolhidos para a mistura que é o Ironias. O vocal aqui assume outro tom, o que é bastante interessante.

6. Malmalmalmalmal
Faixa que ecoa sensação de turbilhão, esta música traz uma energia quase visceral e talvez seja a mais punk do álbum. O arranjo vertiginoso e a repetição de alguns riffs criam um efeito hipnótico que pode representar o desgaste psicológico e a confusão emocional num mundo saturado de estímulos e contradições.

7. Maré
“Maré” parece ser o ponto de respiro do álbum, uma balada que ao mesmo tempo que reforça a ideia de ciclos naturais que nem sempre podemos controlar. A imagem da maré funciona como metáfora para fluxos e refluxos de vontade, força e vulnerabilidade e é um balanço emocional que ecoa por todo o disco. Em tempos de rapidez, a escolha de fazer um som mais lento vai na contra-mão e acerta em cheio com o nosso íntimo.

8. Não Há Lucas
Aqui, riffs dissonantes nos abraçam, na ausência, e a letra de “Não Há Lucas” reforça esse vazio, evocando a sensação de estar perdido e sem direção. A música expõe uma camada mais sombria da experiência humana, confrontando a desesperança de um eu que procura sentido num cenário de incertezas

9. Podreres
Com um nome que parece fragmentar “poderes” e “podre”, a música pode ser lida como crítica à corrupção de forças que deveriam servir ao coletivo. É um momento de reflexão política e emocional, onde o som e a letra se combinam para questionar estruturas de autoridade e as consciências que delas dependem. O conjunto de vocais nesse som, cria uma experiência única ao ouvinte, e o sentimento de fazer parte da indignação.

10. Sem Sentido
A faixa representa um ponto de colapso narrativo no álbum, onde aquilo que buscamos parece, momentaneamente, desprovido de significado. É um mergulho na perplexidade diante do absurdo, e talvez um convite à aceitação do caos. A faixa é menos dançante, apesar da construção da linha de bateria, os riffs são mais raivosos. Aqui me recordo de uma das clássicas bandas góticas brasileiras dos anos 80, ativa até hoje: Elegia.

11. Me Engole
O encerramento traz uma intensidade crua, como se fosse uma conclusão inevitável de tudo que foi exposto até aqui. Fecha o álbum com um misto de intensidade emocional, com passagens que nos remetem a The Cure, mas com a ambiguidade do vocal, que traz uma perspectiva mais contemporânea do rock alternativo brasileiro.

Esse é um trabalho que pode soar divertido e emocional ao mesmo tempo, que carrega muito da identidade que os anos 80 tiveram de melhor dentro do rock.

O Death Metal Técnico em Empty Idolatry do Torment The Skies

Quando a banda potiguar Torment The Skies anuncia um novo trabalho, espera-se brutalidade e em Empty Idolatry essa expectativa é cumprida com convicção. O EP, com quatro faixas, reforça a proposta de death metal técnico e combativo da banda, mas vai além: traduz indignação, crítica social e questionamento ao dogma em som tão cru quanto urgente.

Logo na faixa-título, “Empty Idolatry”, a banda dá a entender sua filosofia: idolatrias vazias, religiosas, sociais, ideológicas serão examinadas com instrumentos cortantes. A música soa como introdução consciente: rápida, direta e com a agressividade de quem não busca sutileza, mas impacto. A sonoridade é afiada, com riffs secos e bateria implacável, combinando agilidade e peso de modo eficiente.

Em “Temple of Mammon”, talvez o ponto mais explosivo do EP, a crítica social se torna explícita. A banda e especialmente o vocalista, denuncia a ganância disfarçada de fé, o “evangelho da prosperidade” que, segundo eles, “mata, cega e ilude a humanidade”. Musicalmente, a faixa mantém o ritmo intenso, com viradas bruscas, instrumental técnico e atmosfera carregada, perfeitamente alinhada ao tema de revolta. O videoclipe acompanha essa brutalidade com imagens simbólicas e encenações fortes, reforçando a mensagem de ira e repúdio.

“Brain-Devouring God” mergulha no terror existencial e na crítica à manipulação mental, a letra sugere uma “divindade devoradora de cérebros”, metáfora que denuncia líderes religiosos que reprimem o pensamento crítico e escravizam consciências. A música, com seus 4 minutos de duração, equilibra técnica e frenesi: os riffs trabalham com precisão, a bateria pulsa firme, e a densidade sonora cria clima claustrofóbico, ideal para o tema.

Por fim, “Ancient Abominable Practices” fecha o EP com peso e carga histórica. A faixa evoca passado sombrio “práticas abomináveis” e propõe uma reflexão sobre os abusos antigos associados à religião institucionalizada. O instrumental segue na mesma linha: grave, opressor, com cadência muitas vezes deliberada, como se cada batida fosse uma sentença de julgamento.

No conjunto, Empty Idolatry confirma a Torment The Skies como uma das vozes mais militantes do death metal nordestino contemporâneo. O EP entrega agressividade e técnica, mas sobretudo coragem: de questionar instituições, de denunciar falsos profetas, de confrontar tabus. A produção independente mantém o espírito cru e underground, sem polimentos supérfluos, o que reforça a honestidade do discurso.

Para quem acompanha o metal extremo nacional, o EP é um soco na cara da complacência: um alerta de que som pesado não precisa ser vazio pode ser ferramenta de combate e consciência. E, para quem ainda não conhecia a banda, Empty Idolatry funciona como convocação: não à adoração cega, mas à reflexão crítica, com guitarra, baixo e bateria do lado da indignação.

As Criaturas da Noite Que Deveriam Ganhar o Mundo | Resenha de Creatures II do Creatures

Conheci o CREATURES, banda de heavy metal de Curitiba, por meio de uma entrevista divertidíssima e super importante, dada pelo vocalista Marc Brito ao programa Blasfêmea, do canal Scena. Apenas conhecia o Hellway Train, pelo Ao Vivo no mesmo e tive a felicidade em vê-lo em ação na turnê no nordeste. A partir dali parti para ouvir seu novo disco, Creatures II, e aquilo que parecia apenas mais lançamento nacional soou como um verdadeiro chamado para quem ainda acredita no espírito do heavy metal tradicional e que efetivamente deveria figurar entre os melhores do ano em todo o mundo.

O segundo trabalho do Creatures, com data oficial de lançamento em 14 de novembro de 2025 pela gravadora High Roller Records, revela uma banda fortalecida, segura da própria linguagem e decidida a deixar uma marca. Gravado entre setembro de 2024 e março de 2025 no Heavy Tron Studio, com produção do guitarrista Mateus Cantaleäno e de Arthur Migotto, o disco apresenta a formação: Marc Brito (vocais), Mateus Cantaleäno (guitarra), Ricke Nunes (baixo) e Sidnei Dubiella (bateria), com participações adicionais pontuais que enriquecem a textura sonora.

O que salta aos ouvidos já na abertura com “Inferno” é uma atmosfera mais densa, sombria, mas ainda pulsante de energia, não feliz, mas viva. Em faixas como “Devil in Disguise” e “Night of the Ritual”, o Creatures demonstra como domina a arte de unir riffs clássicos e vocais teatrais a hooks melódicos e refrões marcantes. Há uma nítida reverência às raízes do heavy / hard rock, seja na estrutura das músicas, nos solos de guitarra ou na voz potente, mas sem nostalgia vazia: a pegada é contemporânea, o peso real e as composições soam convictas.

“Beware the Creatures” talvez resuma melhor o espírito do álbum: uma junção de atitude, técnica e sentimento. A produção permite que cada instrumento respire: os graves do baixo e da bateria sustentam a base, enquanto a guitarra de Cantaleäno brilha com solos e melodias que lembram grandes nomes do metal clássico. A entrega de Marc Brito nos vocais reforça a dramaticidade, conferindo credibilidade às letras, às vezes mais sombrias, às vezes angustiadas, mas sempre intensas.

Para quem, como eu, descobriu o Creatures recentemente, Creatures II não soa como mera sequência de estreia soa como uma ode ao verdadeiro AÇO. Uma reafirmação de que o heavy metal, mesmo em um país cujo underground muitas vezes privilegia o extremo, continua vivo, relevante e cheio de força. Com este álbum, o Creatures se coloca como uma das poucas bandas nacionais capazes de dialogar com legados clássicos sem soar retrô e sim urgente, necessário, atual.

Se o metal precisa de urgência e honestidade, Creatures II entrega isso. E talvez esse seja seu maior triunfo: ressuscitar o espírito do heavy sem concessões, com energia, convicção e alma.

Faixa a faixa

1. Inferno

A faixa de abertura coloca a atmosfera do disco imediatamente: pesada, urgente, com riffs marcantes e vocais intensos. Serve como introdução eficaz, preparando o terreno para o clima sombrio e ao mesmo tempo energético que permeia o álbum.

2. Devil in Disguise

Com riffs clássicos, andamento firme e refrão cativante, esta faixa consegue unir a brutalidade do metal com melodias acessíveis. “Devil in Disguise” se destaca por sua estrutura equilibrada agressiva na instrumentação, mas com momentos melódicos que ajudam a criar contraste.

3. Night of the Ritual

Aqui o Creatures aposta em uma ambientação quase ritualística, evocando imagens de cerimônias sombrias, mistério e tensão. A atmosfera da música dá sensação de horror gótico em pleno heavy metal, mostrando que a banda não tem medo de explorar tons dramáticos e de mergulhar no sombrio com competência.

4. Beware the Creatures

Uma das faixas mais emblemáticas do disco. Com riffs marcantes, melodia forte e refrão que gruda, ela parece funcionar como um manifesto da própria banda, é um chamado para o ouvinte abraçar tudo o que o Creatures representa. A energia pulsa intensa, e a produção destaca bem cada instrumento, reforçando o peso e a pegada clássica do metal.

5. Dreams

“Dreams” traz um clima talvez um pouco mais introspectivo e melódico, oferecendo um respiro em meio à agressividade das faixas anteriores. A alternância de momentos mais suaves com passagens mais intensas dá dinâmica ao álbum, mostrando que o Creatures sabe dosar seus elementos.

6. Queen of Death

Com uma pegada mais sombria e talvez mais dramática, essa faixa utiliza vocais e instrumentação para explorar temáticas intensas o título já sugere um tom pesado, e musicalmente a banda entrega coerência com esse espírito. Há um senso de teatralidade e peso que fazem dela uma das mais densas do disco.

7. Pure Madness

“Pure Madness” retoma a agressividade com força: riffs mais diretos, andamento vigoroso e energia que não dá trégua. A música parece representar o lado mais cru e visceral do Creatures, lembrando a essência bruta do heavy metal sem adornos excessivos.

8. Danger

Com ritmo marcante e melodias envolventes, “Danger” equilibra a força do metal com pegada quase hard-rock; é uma das músicas que mais evidencia a versatilidade da banda, capaz de alternar entre peso e acessibilidade com naturalidade.

9. Nothing Lasts Forever

Essa faixa traz uma sensação de melancolia, mas não é definitivamente melodramática, porém é carregada de sentimento/sofrimento. A atmosfera mais introspectiva funciona como um contraponto às faixas mais agressivas, adicionando profundidade emocional ao álbum e mostrando que o Creatures não busca apenas impacto sonoro, mas também nuance.

10. Path of the Night

Para encerrar a versão padrão do álbum, “Path of the Night” entrega um fechamento coeso: mistura de peso, melodia e sobriedade, dando a sensação de conclusão de um ciclo. A música age como epílogo, reunindo os elementos que o disco explorou: agressividade, melodia, atmosfera, dramaticidade, e deixando o ouvinte com a impressão de que a jornada valeu a pena.

Esperamos que o heavy metal nacional ganhe o mundo e que o Creatures ganhe palco de grandes festivais, pois a qualidade artística há de sobre.

O Amadurecimento, Fortalecimento e Potência do Inraza

Os três últimos singles da banda paulistana de Groove Metal, Inraza: “Crowning”, “A Loner” e “Somos Aqueles”, marcam uma etapa decisiva de amadurecimento artístico da banda, que, após um período de ajustes e transições, consolidou sua formação atual e passou a apresentar uma identidade musical mais clara e coesa. Esses lançamentos funcionam como um conjunto de declarações estéticas e conceituais que apontam diretamente para o álbum previsto para 2026, indicando não apenas evolução sonora, mas também estabilidade criativa.

Crowning” surgiu como o primeiro sinal dessa nova fase, reafirmando o peso característico do grupo, porém com maior precisão nos arranjos e uma abordagem mais refinada na construção das atmosferas. A faixa funciona como um manifesto de renovação: agressiva, técnica e carregada de intenções, evidencia que a banda encontrou segurança na própria linguagem e está pronta para se aprofundar nela.

Na sequência, “A Loner” amplia o alcance emocional do Inraza. O single revela uma faceta mais introspectiva, explorando sensações de isolamento e conflitos internos sem perder a contundência que sempre marcou o som do grupo. O contraste entre a densidade lírica e a força instrumental sugere uma busca mais complexa por nuances, mostrando que a banda não se limita ao impacto imediato, mas procura construir camadas interpretativas e sonoras.

“Somos Aqueles” representa um momento simbólico e histórico na trajetória do Inraza: é o primeiro feat da carreira da banda, trazendo a participação da vocalista Nata de Lima, da Manger Cadavre?. O resultado é um som mais visceral, direto e rápido, que carrega de forma explícita a influência do Manger. A inspiração foi tão forte que o próprio Inraza revelou que o apelido interno da música era “A Manger”, refletindo essa conexão estética e sonora. Cantada em português, a faixa reforça as raízes da banda, retoma o teor crítico presente em seus primeiros trabalhos e aproxima ainda mais o grupo do público local, evidenciando confiança e maturidade nesta nova fase. Destaque para as linhas de baixo marcantes, riffs pesados e bateria mais direta. Vale reforçar que o final é de arrepiar.

Juntos, os três singles formam um panorama nítido da maturidade atual do Inraza. A formação estabilizada trouxe concisão, personalidade e direcionamento, e cada lançamento recente atua como uma peça complementar na construção do novo capítulo da banda. O que se observa é um grupo que encontrou equilíbrio entre brutalidade, técnica e propósito, preparando terreno para um álbum que promete sintetizar essa evolução e consolidar o momento mais sólido da carreira do quarteto.

Com todo o respeito aos demais integrantes que passaram pela banda, essa é a formação em que o Inraza encontrou sua identidade, se desenvolveu e promete ainda muito mais. Aguardamos o álbum!

Mukeka di Rato lança “Generais de Fralda”, um retrato brutal do Brasil contemporâneo | Resenha

O grupo capixaba Mukeka di Rato apresentou em 2025 seu novo álbum, Generais de Fralda, marcando três décadas de atividade dentro do hardcore brasileiro. O disco, lançado pela Deck, traz 13 faixas em pouco mais de 20 minutos e reafirma a estética agressiva que consolidou a banda como um dos nomes mais influentes do punk nacional.

Gravado no Estúdio Tambor, no Rio de Janeiro, e produzido por Rafael Ramos, o álbum mantém a tradição sonora do grupo: riffs diretos, vocais rasgados e uma bateria acelerada que remete ao crust punk de referência internacional. A combinação resulta em um trabalho coeso e intencionalmente áspero, que se opõe a qualquer tratamento de estúdio que suavize sua proposta estética.

A temática das letras segue o caráter político característico da banda. As composições abordam questões como militarização da sociedade, precarização do trabalho, violência institucional, farmacologização cotidiana e desigualdade social. A crítica é direta e sem ambiguidades, reforçando a postura antifascista que acompanha o Mukeka di Rato desde os anos 1990.

Entre as faixas de maior destaque está “Engenho de Sangue”, que sintetiza o tom do disco com críticas contundentes à exploração social. Já “Globo da Morte”, parceria com o rapper FBC, amplia o escopo musical do álbum ao incorporar elementos de rap em meio ao hardcore, discutindo as condições de trabalho de entregadores e motociclistas. O repertório inclui ainda composições como “Se Droga, Brasil!”, que trata da banalização do uso de medicamentos, e “Somente Moedas Acendem Velas”, que apresenta nuances melódicas sem romper a unidade estética do projeto.

Com Generais de Fralda, o Mukeka di Rato reafirma sua relevância em um cenário musical que raramente oferece espaço a discursos tão incisivos. A banda entrega um registro que funciona tanto como documento social quanto como obra musical voltada a um público que valoriza intensidade e posicionamento político. O resultado é um álbum direto, urgente e fiel à trajetória do grupo.

FAIXA A FAIXA

Generais de Fralda abre o álbum com a faixa-título, que estabelece de imediato o clima de urgência e confrontação. A música funciona como manifesto: acusa figuras de poder, os “generais de fralda”, de conduzirem a sociedade ao caos enquanto brincam com estruturas de autoridade. Na sequência, “Predadores Armados” aprofunda essa crítica ao focar na violência policial e na lógica do terror estatal, mantendo a velocidade e agressividade que definem o disco. A terceira faixa, “Se Droga, Brasil!”, desloca o foco para a medicalização do cotidiano, denunciando o excesso de remédios como válvula de escape para uma sociedade adoecida.

O tom se torna ainda mais sombrio em “Criança Morta”, que expõe tragédias envolvendo inocentes, ecoando guerras, conflitos e negligências sociais. Em seguida, “Engenho de Sangue” revisita as raízes coloniais brasileiras, denunciando o racismo estrutural e a herança violenta que molda o país. Já “Filho da Rua” volta o olhar para a população em situação de rua, retratando abandono, invisibilidade e desigualdade com um senso de desespero contido no instrumental acelerado.

A crítica ao conluio entre poder econômico e autoritarismo aparece em “Fascism and Big Business”, que liga militarização, indústria armamentista e opressão social. A oitava faixa, “Somente Moedas Acendem Velas”, introduz uma rara mudança de atmosfera: com ironia e leveza melódica relativa, a banda critica instituições religiosas que lucram com a fé e o sofrimento. Logo depois, “Tá Fácil Morrer, Tá Fácil Matar” surge como um ataque relâmpago, curtíssima e brutal, escancarando a banalização contemporânea da violência.

Em “Globo da Morte”, a banda aborda a precarização do trabalho dos motociclistas e entregadores, reforçada pela participação do rapper FBC, que acrescenta uma camada urbana e narrativa ao hardcore da banda. “Ferrão” retoma um tom mais abstrato e poético, destoando das críticas diretas das demais faixas e oferecendo um intervalo mais simbólico dentro da agressividade geral do álbum. Já “Último Dia da Guerra” resgata relatos da Segunda Guerra Mundial para refletir sobre trauma, destruição e memória histórica, conectando conflitos antigos a tensões atuais. O disco se encerra com “Desgraça Capixaba”, faixa com tom sarcástico que denuncia problemas estruturais do Espírito Santo, mesclando críticas políticas com influências rítmicas que expandem o espectro sonoro do trabalho.

O resultado desse percurso é um álbum compacto e incisivo, que utiliza velocidade, distorção e lirismo direto para construir um panorama das contradições e feridas sociais do Brasil contemporâneo.

Blackned Grindcore na Tora! Dissociative Identity Disorder do VØID IT | Resenha

Descobri a banda paulistana de grindcore VØID IT por indicação de Caio, âncora do Canal Scena, em um dos programas dedicados aos lançamentos de metal extremo (Aliás, deixo aqui nossos agradecimentos por indicar tantas bandas absurdamente fodas no canal). A menção foi direta e enfática, o tipo de recomendação que desperta curiosidade imediata e, ao ouvir “Dissociative Identity Disorder”, tornou-se claro por que o grupo tem chamado atenção dentro do underground brasileiro. Lançado em 2025, o álbum apresenta um grindcore áspero, contaminado por influências de death e black metal, que reforça uma sonoridade brutal, veloz e sem concessões.

A estética do disco é marcada por uma atmosfera claustrofóbica, construída por riffs cortantes, bateria explosiva e vocais que soam mais como gritos vindos de um lugar de desconforto do que como mero recurso estilístico. Nada aqui é embelezado ou suavizado: o álbum assume sua rudeza como linguagem e transforma a violência sonora em parte da narrativa que pretende construir.

Tematicamente, “Dissociative Identity Disorder” mergulha em temas psicológicos, como fragmentação da identidade, colapso mental, depressão e vazio existencial, explorados com crueza e sem alegorias. Há pouco espaço para abstração: as letras e a própria estética sonora funcionam como um retrato direto do esgotamento interior. A capa, concebida pelo próprio guitarrista, reforça esse conceito ao visualizar as rupturas da mente que o álbum aborda.

Apesar da curta duração típica de lançamentos do gênero, o disco é eficiente ao extremo. Cada faixa segue a lógica do ataque imediato: curta, agressiva e objetiva, sem espaço para respiro. A experiência auditiva é ininterrupta e intensa, como se o álbum buscasse provocar no ouvinte a mesma sensação de desintegração que discute liricamente.

“Dissociative Identity Disorder” consolida o VØID IT como um nome relevante dentro do metal extremo nacional. É um lançamento que não procura agradar, mas impactar e o faz com convicção, honestidade e desconforto calculado. Para quem foi apresentado à banda pela via certa é um daqueles trabalhos que justificam plenamente a indicação: direto, brutal e artisticamente coerente, um registro que reafirma a vitalidade e a ousadia da cena extrema brasileira.

Faixa a faixa

1. “Instinct of Suicide”

A abertura do álbum traz riffs fortes e batidas rápidas, numa estrutura típica do grindcore, com atmosfera intensa e som direto ao ponto. Com 3:36 de duração é uma das mais longas do disco a faixa funciona como uma introdução sólida ao clima de agressividade, desesperança e conflito interior que permeia o trabalho.

2. “Inanimate”

Com apenas 1:33, essa música entrega um ataque curto e certeiro: velocidade, violência sonora e sensação de urgência. Sua brevidade reforça a contundência e não há espaço para melodia ou conforto, apenas entrega imediata.

3. “Emptines”

Com duração de 1:48, essa faixa segue a linha da anterior: som agressivo, atmosfera sombria, e um impacto que tenta traduzir a angústia existencial proposta no conceito do álbum e a fragmentação da mente, o vazio, o colapso interno.

4. “Into the Shadows”

Tem cerca de 2:08 de duração, uma das mais longas depois da abertura, e oferece uma variação de ritmo em relação às faixas mais curtas. Pode funcionar como uma espécie de “respiro tenso”: ainda pesado, mas com um pouco mais de espaço instrumental, talvez permitindo uma construção mais atmosférica antes de novos ataques.

5. “Evil Dead”

Com apenas 1:08, essa faixa é um golpe rápido e direto, explosiva, sem meias palavras. A curta duração sugere urgência e brutalidade concentradas: um momento de ruptura abrupta, coerente com a proposta geral de choque e desconforto do álbum. Referência do título clara ao clássico dos filmes de terror b.

6. “Mental Prison”

Com apenas 0:41, essa é talvez a faixa mais curta do disco, um estilhaço de ruído e violência. A brevidade extrema reforça a sensação de confinamento e desespero, funcionando como um fragmento perturbador no meio do conjunto: curto, denso e impactante.

7. “O Ser Humano Está Condenado À Extinção”

Com somente 0:26, a faixa funciona quase como um interlúdio de ruído um grito rabugento, uma declaração breve e intensa. A sua existência reforça o tom nihilista e crítico do álbum, simbolizando talvez desespero, crise existencial ou pessimismo absoluto.

8. “Mortified”

Duração de 1:43, esta faixa retoma o ritmo mais “clássico” do grindcore: violenta, pulsante, com riffs e bateria rápidas. Serve para reacender a brutalidade sonora depois dos breves interlúdios de caos com um novo ataque, crú e direto.

9. “Dissociative Identity Disorder” (faixa-título)

Com 1:23 de duração, a faixa-título sintetiza o conceito do álbum: fragmentação da mente, sofrimento interno, colapso da identidade. A curta duração e a intensidade sonora típicas do grind funcionam como metáfora: a mente se quebra, fragmenta, esmaga tudo em pouco tempo. Essa música prende o ouvinte, sem concessões, ao núcleo temático do disco.

10. “A Vida É Dura E Então Você Morre”

Encerra o álbum com peso e resignação. O título já dá o tom: pessimismo, desencanto, um olhar sombrio sobre a vida. Fecha o disco de forma dramática e contundente, como se fosse o epílogo de um colapso interno narrado ao longo das faixas.

O contraste entre duração e intensidade, entre ataque brutal e micro-explosões de ruído, espelha o tema central do álbum a desintegração da mente, a angústia existencial, a fragmentação do eu. O resultado é uma obra coesa e sufocante, que não dá espaço para conforto ou complacência: o ouvinte é confrontado com caos, dor e pessimismo do início ao fim. Esperamos que a banda possa visitar o nordeste (especialmente Recife), terra que curte tanto esse estilo visceral de som.

O Peso do Groove em Delirium, Álbum de Estreia da Humanal | Resenha

O álbum Delirium marca a estreia da banda curitibana Humanal no cenário nacional com uma força rara para um primeiro trabalho. Lançado em 13 de agosto de 2025, o disco consolida a sonoridade que o grupo vinha desenvolvendo desde seu EP inicial e da repercussão conquistada com o single “A Resistência”, de 2023, além de sua participação em eventos relevantes da cena metal, como o Bangers Open Air e a abertura para a banda russa Slaughter to Prevail .

Com uma fusão de metal progressivo, groove e elementos extremos, “Delirium” aposta em densidade e variação. A produção privilegia uma estética crua, mas equilibrada, que preserva a aspereza do gênero sem comprometer a inteligibilidade dos instrumentos. A vocalista Tati Klingel se destaca ao alternar com naturalidade entre guturais vigorosos e passagens limpas, imprimindo personalidade e peso emocional às composições .

As letras, majoritariamente críticas e introspectivas, abordam temas como saúde mental, vício, alienação tecnológica, esgotamento, colapso ambiental e religiosidade, sempre com uma abordagem direta e pouco complacente. A faixa “Xawara”, cantada em português e inspirada na obra A Queda do Céu, de Davi Kopenawa, surge como um dos pontos altos do álbum: um momento de originalidade rítmica e temática que amplia a paleta estética da banda . Já “Burnout” funciona como um retrato cru do esgotamento contemporâneo, conduzida por alternâncias vocais que reforçam a sensação de desorientação e pressão constante .

Ao longo das dez faixas, a Humanal demonstra domínio técnico e maturidade artística. O álbum é coeso, intenso e consciente de seu discurso, evitando soluções fáceis e buscando equilíbrio entre brutalidade e melodia. Para a cena metal nacional, “Delirium” surge como um trabalho de estreia robusto, que posiciona a banda não apenas como uma promessa, mas como um nome disposto a ocupar espaço com autenticidade, peso e reflexão.

Faixa-a-faixa

1. “Echoes of Ether”

A abertura já entrega o tom: riffs agressivos e andamento acelerado. A faixa causa uma sensação de urgência e tensão um chamado imediato à atenção, preparando o terreno para as intensas reflexões que vêm a seguir.

2. “Abyss”

Aqui a banda desacelera um pouco, dando espaço para a cozinha, especialmente o baixo se destacar. A composição mistura peso com técnica, explorando grooves inesperados. Para além da agressividade, “Abyss” traz uma leve variação de clima, mostrando versatilidade.

3. “Addiction”

Uma das faixas mais densas do álbum: combina mudanças de andamento, variações de intensidade e vocais guturais bem potentes. Segundo a banda, e como refletido no videoclipe lançado, a música capta a energia dos shows ao vivo visceral, crua e honesta.

4. “Burnout”

Marca-se por sua carga emocional: alternâncias entre vocais limpos e agressivos criam um contraste que reforça o tema de esgotamento mental, angústia, pressão contemporânea. É uma faixa que convida à reflexão, sem abrir mão da intensidade.

5. “Vanity”

Nesta música, o peso retorna com força: guitarras rispidas e um baixo marcante dão o tom. A faixa tem um riff que remete ao metal clássico/trash e caminha para momentos melódicos, um equilíbrio agressivo e melódico que mostra parte da amplitude da Humanal.

6. “Oppressor”

Com uma pegada rítmica e crescente, “Oppressor” soa quase como uma marcha dura, firme, implacável. A construção instrumental evoca imagens de força e opressão, reforçando o clima sombrio e contestador que permeia o álbum.

7. “Xawara”

Talvez a faixa mais original do disco. Cantada em português e inspirada no livro A Queda do Céu de Davi Kopenawa ela traz influências indígenas e um groove que mistura peso e ancestralidade. A guitarra tem traços que lembram o metal brasileiro tradicional, mas a vibe é única: ritualística, intensa, com identidade própria.

8. “Animal Social”

A faixa aposta numa estrutura fragmentada, com viradas inesperadas e uma bateria bem marcada inclusive com bumbos duplos. Esse dinamismo cria uma sensação de inquietude, colaborando com a atmosfera crítica e desconfortável proposta pelas letras.

9. “Spiritless”

Aqui, o baixo volta a se destacar, conduzindo uma construção mais progressiva. A música mistura momentos mais calmos com explosões instrumentais, espelhando a pluralidade do som da banda. Representa bem o espírito experimental e ambicioso do álbum.

10. “The Art of Losing”

Para fechar, a faixa é mais cadenciada e pesada, com forte carga emocional. Não é a que mais exibe técnica, mas talvez seja a que mais entrega sentimento: traz um senso de finalização, de conclusão de jornada. Fecha o álbum com impacto e deixa a impressão de “retorno ao começo” como se o ciclo pudesse recomeçar imediatamente.

A ordem das faixas de Delirium parece cuidadosamente planejada para criar uma jornada emocional e sonora. Abertura vigorosa, transições de tensão e alívio, variações de ritmo e atmosfera, e um encerramento que funciona como um desfecho dramático. Esperamos poder conferir um show ao vivo dessa banda tão técnica!

O Death Metal Carioca Renasce com Portals to Chaosium, do Gutted Souls | Resenha

O novo álbum Portals to Chaosium, da banda carioca de death metal Gutted Souls, reafirma a maturidade de um grupo que há anos circula pela cena extrema brasileira, mas que agora consolida uma identidade própria ao unir brutalidade técnica, atmosfera sombria e uma produção contemporânea. O trabalho apresenta uma sonoridade que dialoga com o death metal dos anos 1990 e início dos 2000, porém filtrada por uma abordagem moderna, marcada por riffs densos, passagens rápidas e variações rítmicas que evitam a monotonia típica de alguns registros mais diretos do gênero. As guitarras ganham protagonismo com linhas complexas e solos que se aproximam do progressivo, enquanto a bateria sustenta o alicerce da agressividade com blast beats precisos e mudanças de tempo bem amarradas.

Além da força instrumental, o álbum se destaca pelo caráter conceitual. As letras exploram temas como niilismo, horror existencial, tecnologia opressiva e relações sociais deterioradas pela hiperconectividade, criando um pano de fundo distópico que dialoga com o caos sugerido no título. O single “Parasocial Parasitism”, já divulgado anteriormente, exemplifica esse viés crítico ao abordar as ilusões de intimidade e dependência emocional construídas pelas redes sociais. A combinação entre violência sonora e reflexão temática confere ao trabalho uma dimensão adicional, ampliando seu alcance para além do impacto imediato.

Com produção limpa o suficiente para valorizar os detalhes, mas sem sacrificar a aspereza do estilo, Portals to Chaosium evidencia uma banda consciente do que deseja expressar. Gutted Souls entrega um registro pesado, técnico e narrativamente coerente, capaz de agradar tanto os ouvintes que buscam brutalidade quanto aqueles que apreciam trabalhos mais complexos e conceituais dentro do death metal. O discose apresenta, assim, como um passo firme na evolução do grupo e um lançamento relevante dentro da música extrema nacional.

Sobre as músicas

O trabalho Portals to Chaosium do Gutted Souls se organiza como uma jornada sonora contínua que começa com Hallowed Chambers of Madness, uma introdução atmosférica que prepara o terreno para o horror cósmico que permeia todo o trabalho. Em seguida, Cosmic Ungod inaugura a porção brutal do álbum com riffaria veloz, solos melódicos e uma aura de entidade ancestral que dita seu próprio manifesto de destruição, já estabelecendo a mescla entre técnica e brutalidade que se tornará marca do disco. A terceira faixa, Parasocial Parasitism, mantém o peso mas desvia a temática para o presente, criticando de forma direta as relações ilusórias criadas pelas redes sociais e expondo a manipulação emocional e a intimidade fabricada enquanto os instrumentos constroem um ambiente denso e dissonante que reforça o desconforto proposto pela letra. Na sequência, Kings of Nothing adota uma abordagem mais old school, com riffs que remetem às raízes do death metal dos anos 90 e uma narrativa que evoca figuras de poder vazias, quase marionetes de forças maiores, ampliando o aspecto distópico do disco.

Multicosmic Domination System (Blacken the Mercury: Corrupt the Silver) aprofunda ainda mais o clima de ficção sombria ao tratar de dominação cósmica e transformação alquímica, enquanto a música alterna momentos técnicos e grooves pesados que mantêm o álbum dinâmico. Em Biotechnological Transhumanist Engineers, a banda mergulha num terror de viés tecnológico, narrando a intervenção biotecnológica e o distorcimento da humanidade por engenheiros transumanistas num cenário futurista e opressivo, acompanhado por arranjos que oscilam entre passagens cadenciadas e explosões intensas. Spectacle of Charred Flesh recupera a brutalidade direta, evocando guerra, violência e destruição em uma composição rápida e agressiva que carrega a crueza do death metal tradicional. Em Apathic Anger, o foco volta-se para a degradação emocional coletiva, ressaltando a apatia crescente de uma sociedade que se rende ao cansaço e à alienação enquanto a banda mantém a ferocidade e o caráter técnico que já se tornaram constantes no álbum.

A penúltima faixa, Zero-Sum Overlords, funciona como um ápice conceitual ao apresentar o surgimento de uma elite opressora que domina um mundo corrompido, sintetizando o terror cósmico, tecnológico e social espalhado pelas faixas anteriores em uma composição grandiosa e intensa. Por fim, Praise be the Cosmic Devourer encerra o álbum com um clima de desolação e reverência a uma entidade devoradora, fechando o ciclo temático com a mesma atmosfera obscura que o inaugurou. O resultado é um disco coeso, brutal e conceitual, que transita entre death metal técnico, brutalidade old school e ambientação narrativa, revelando a maturidade e a identidade sólida do Gutted Souls dentro da cena extrema brasileira.

A ordem das faixas de Portals to Chaosium forma uma narrativa integrada: começa com horror cósmico e ambientação sombria, passa por críticas à alienação digital e ao transumanismo, mergulha em destruição, decadência e manipulação, e conclui com a ascensão de uma ordem opressora ou de entidades dominadoras, numa visão distópica. Essa construção dá ao álbum não só coesão musical mas também uma profundidade conceitual que vai além da brutalidade sonora.

Além disso, a alternância entre death metal técnico, brutal e old-school torna a experiência variada, equilibrando agressividade, técnica e atmosfera. Para ouvidos atentos, há sutilezas nos riffs, solos e na produção que realçam os temas existenciais e de horror, reforçando a proposta da banda.

Sem dúvida, essa é uma das bandas mais promissoras do Rio de Janeiro, quando se trata de qualidade técnica. Esperamos que venha uma turnê pelo nordeste em 2026!