Penúria Zero: Crítica Social Sem Deixar de Lado A Diversão

Em atividade desde 2005, a banda Penúria Zero teve início em Luziânia/GO. Após um hiato de alguns anos, a banda retornou com força total em 2011, com variadas formações, sendo que a mais longa delas foi com Tuttis no vocal, Sopão na guitarra, Fabi no baixo e Biscoito na bateria. No inicio do segundo semestre de 2019, Fabi deixa o baixo, vaga assumida por Ismael Braz. Com variadas apresentações em diversos festivais importantes na cidade, como Headbangers Attack, Ferrock e Porão do Rock, a banda também já se apresentou fora do círculo capital, com apresentações na Bahia, Goiânia e em Minas Gerais. Com um álbum e 4 webclipes lançados nos últimos 3 anos, atualmente a banda trabalha em músicas para lançar um EP digital em 2019. Conversamos um pouco com essa galera. Confira!

Vocês estão em atividade desde 2005, tendo alguns lançamentos. Como avaliam a mudança da cena independente nesses 14 anos de banda? O que melhorou e o que piorou?
Olá! Primeiramente gostaríamos de agradecer o convite. Muito obrigado pela oportunidade. Mas vamos lá sobre a pergunta… A banda foi fundada em 2005, mas não deu prosseguimento em suas atividades, por motivos pessoais, a Tuttis (vocalista) teve que se mudar para Paracatu(MG), no mesmo ano, deixando a banda inativa por 6 anos, retornando em 2011. Acho que a principal melhoria nesse tempo, foi na questão dos produtores. Hoje os eventos são na maioria das vezes bem mais organizados
que antes. Antigamente rolava muitos eventos organizados nas “coxas” hehehe Sem hora para começa, sem hora para acabar, as vezes você chegava no local para tocar e faltava: amps, baterias e tals…. Era bastante correria. A parte que está cada dia ficando pior, é fazer o publico sair de casa para prestigiar os eventos, mesmo com eventos mais organizados, com bandas conhecidas nacional e internacionalmente, o pessoal tá preferindo ficar em casa.

As letras de vocês tem um tom divertido, como em “Suco de Cevada” e crítico como em “Santa Hipocrisia”. Quem escreve as letras? Como se dá o processo de composição de vocês?
Então… rsrs. Na banda todo mundo escreve, é tudo junto e misturado. Normalmente alguém cria uma letra, uma melodia em casa manda no grupo da banda (zap), daí já começamos a trabalhar a composição individualmente. No ensaio juntamos tudo e acertamos os detalhes.

Verificamos que a banda teve uma mudança de integrantes, com a saída da baixista. O que podemos esperar dessa nova formação?
Coisa boa, te garanto. hehehe Já estamos ensaiando a algum tempo com novo baixista, que quem acompanha a banda já sabe que é o Ismael Braz (baxista da banda Os Maltrapilhos), o cara já tá aí na cena underground do DF a muito tempo, e é um excelente músico. Se tudo sair como planejado, até o final do ano já teremos novas músicas gravadas com o baixo do Ismael.

Os clipes que vocês possuem lançados se destacam pela produção de qualidade. Falem um pouco deles. Temos certeza que tem alguma história divertida!
Produção de qualidade? hehehe Valeu de mais por ter curtido. Nossa parte de fotos e vídeos são tudo na base do “faça você mesmo” e produzido pela própria banda,
sem roteiro, sem equipamentos caros, só uma nikon D3300 e as ideias na cabeça(que muitas das vez não dão certo). Em exemplo é o clipe de Suco de Cevada, nossa ideia inicial era bolar algo parecido com uma festa(o que aconteceu) e ter umas filmagens externas, filmagens em um bar e tals… Mas chegamos no dia da gravação, tomamos umas pingas e resolvemos simplificar e colocar todo mundo dentro de um banheiro na casa da Fabi (ex baixista) nesse dia consumimos 1L de cachaça + 1,5L de Cantina da Serra + várias caixas de Kaiser.

Vocês são muito ativos na cena do entorno do DF, além de tocar bastante, estão sempre organizando eventos. Como é levar a contra cultura para fora dos grandes centros?
Cara, é trabalhoso e gratificante ao mesmo tempo. Mesmo tirando do próprio bolso para fazer praticamente tudo. E mesmo com os poucos espaços que temos, quando organizamos esses eventos, nós nos sentimos mais vivos, sentimos parte de uma cena que tá lutado pra sobreviver, de uma cena que não quer deixar a “peteca cair”.

Indiquem 5 bandas da região de vocês que vocês curtam e comentem um pouco sobre elas.

Brazzatack, Podrera, Terror Revolucionário, Os Maltrapilhos, Beer and Mess.
Essas são bandas que estão na correria do underground já tem um tempo, tanto produzindo quanto tocando ou simplesmente comparecendo e fortalecendo o rolê.
Quando tiver um tempinho, procure nas mídias digitais, são bandas que realmente fazem a diferença no dia a dia do submundo musical aqui do Distrito Federal.

Considerações finais.
MUITO OBRIGADO pelo convite. É sempre bom encontrar pessoas dispostas a divulgar o nosso underground. Até a próxima.

A Luta Do Povo Preto no Hardcore Punk

Que o punk nasceu preto, muita gente tenta apagar, mas sabemos que sim e vamos repetir isso até que a branquitude pare de se apropriar até disso. Na cena atual, isso tem se reforçado ainda mais. Eu, enquanto negro, fico muito feliz quando vejo bandas formadas totalmente por negros nos representando no underground e espero que os espaços sejam cada vez mais ocupados e a mensagem de luta, ouvida.

Sou uma grande fã da Black Pantera que tem feito um trabalho muito bom desde 2014. Além dos lançamentos, a banda tem tocado por vários festivais pelo Brasil e Europa, entre os principais estão o Afropunk em 2016 em Paris, o Download em 2017 em Paris e o Porão do Rock em 2017 Brasília

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Mas hoje eu gostaria de apresentar dois novos nomes da cena que eu aposto as minhas fichas e irão aparecer muito por aqui no O Colecionador.

Punho de Mahim

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A banda se formou quando amigos decidiram montar um projeto, trazendo à tona uma temática pouco discutida na cena punk e no underground de modo geral: a questão do negro na sociedade. Para este tema em questão eles tem propriedade para abordar em suas letras, pois sentem a dor que o racismo estrutural proporciona em dia a dia, além de machismo, sexismo, entre outros males impostos pelo patriarcado.Punho de Mahin faz referência à Luíza Mahin: Muçulmana, teria sido uma princesa na Costa Mina na África de nação jeje-nagô, da tribo Mahi, trazida como escrava para Bahia no século XIX. Tornou-se quituteira e com seu tabuleiro conhecia e mantinha contato com diversas pessoas, além de seus aliados e isso a auxiliava para confabular sobre a organização das revoltas que aconteciam nesse período.

Crexpo

Com dois ex-integrantes da banda Oitão (Ed Chavez e Marcelo BA), conta com Douglas Prado na guitarra e Xandão Cruz no vocal, a banda nasceu para trazer a questão racial ao punk hardcore. Nem precisamos dizer que o time já nasceu com qualidade e por isso estamos ansiosos pelo o que vem por ai.

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Resenha: “Shit And Blood” Pata

Em meados de junho, a banda mineira Pata lançou o álbum “Shit and Blood“, que conta com dez músicas. O trio, que é formado por Lúcia Vulcano (guitarra e voz), Beatriz Moura (bateria) e Luís Friche (baixo), possui influências do grunge e do punk, tendo como maior referência a L7. Produzido, gravado e mixado por Rafael Dutra, masterizado por Ygor Rajao e captado no Estúdio Motor, em Belo Horizonte.

Com nove músicas em inglês, apenas “Selvagem e cabeluda” é em português, cuja letra aborda puberdade, menstruação e a vida adulta. O som que mais chama a atenção é o de abertura: ” Downer” tem guitarras distorcidas muito boas, e um clipe muito divertido. Outro destaque é a “The Witches” que tem uma levada mais stoner. “Next Year”, por sua vez, traz a mensagem política da banda, com um tom de preocupação sobre esse ano de 2019 e as atrocidades do golpista eleito (estavam certas em se preocupar).



Lançado pela Efusiva Records, selo fonográfico feminista criado em 2015 no Rio de Janeiro, tem arte da capa assinada por Lorena Bonna. Lançado pela Efusiva Records, selo fonográfico feminista criado em 2015 no Rio de Janeiro, é uma das bandas mais legais que ouvimos nos últimos tempos. Sonoridade noventista e temáticas atemporais. Recomendamos.


Surra: Correria, Posicionamento e Som Brutal

Uma das bandas que mais tem tocado nos últimos anos é o Surra. Correria, posicionamento firme e som brutal que tem lotado shows e gerado rodas gigantes. Conversamos um pouco com o trio que contou sobre a trajetória, sobre o processo de composição e lançamento do novo álbum, shows, política e muito mais.

Foto: Mel Kato

O Surra é uma das bandas ascendentes do cenário independente que tem tudo para ocupar espaços de bandas que estão no mainstream. Para começar, falem um pouco sobre a trajetória de vocês e como estão conseguindo reascender a paixão da juventude pela música pesada.

Leeo Mesquita: Nossa trajetória começa um pouco antes do Surra, já tocamos juntos em outras bandas desde 2005. Entre 2008 e 2012 formávamos o Like a Texas Murder. Era um som quase que na mesma pegada, só que com algumas ideias confusas. Em 2012 decidimos montar o Surra, uma banda em trio e de som mais rápido, e desde então seguimos produzindo material e tocando em qualquer lugar em que ofereçam condição. Percebo também que esse tipo de som rápido voltou a ganhar uma maior atenção e as novas gerações do metal/hc/punk/crossover tem acompanhado o trabalho das bandas, coletivos, etc. Isso move as bandas pra continuar produzindo material cada vez melhor, muito foda. Esse feito é de todas as organizações de show e bandas da atualidade: tanto das novas bandas como das mais antigas que voltaram pra estrada nesses tempos.  †

Foto pos Maya Melchers

Vocês gravaram o novo trabalho no Family Mob Studios, que tem o selo de excelência em todos os gêneros de som, mas quando se trata da música extrema o estúdio se destaca tendo clássicos como das bandas Nervosa, Ratos de Porão, Desalmado, Manger Cadavre? dentre outros… Como foi esse processo? O que saiu de aprendizado em se gravar em um estúdio desse porte?

Guilherme Elias: Esse é basicamente o terceiro material do Surra que sai do Family Mob. Depois que deixamos de gravar em Santos foi o estúdio que escolhemos e mantivemos assim desde o Ainda Somos Culpados. Toda a experiência e estrutura que o Family Mob oferece é essencial mas essa capacidade de experimentar coisas, quebrar padrões está muito presente no trabalho do estúdio.

Notamos uma mudança na trajetória das letras desse novo trabalho. Diferentemente dos demais, em que vocês faziam as denúncias, nesse momento temos um Surra mais maduro e que aponta alternativas de superação da opressão capitalista. Quem escreve as letras e como se deu essa transição de linha de pensamento?

Leeo Mesquita: Eu acabo escrevendo e lapidando a maioria das letras, mas vale ressaltar que não elaboro nada sozinho. Estamos sempre dividindo material e debatendo assuntos. Todos contribuem, seja com ideias, seja com esboços. Algumas pessoas notaram essa diferença no tom das letras e isso me deixou feliz, foi intencional. Essa mudança teve grande influência de uma conversa que tive com uma grande amiga nossa, a Nata, vocalista do ‘Manger Cadavre?’. Estávamos no estúdio Family Mob tomando café, acho que estávamos gravando naquele dia. Ela ressaltou pra mim a importância de evoluir as ideias nesse sentido, de apontar a organização proletária como próximo passo. Isso grudou nas minhas ideias durante a elaboração das letras e sou grato a Nata por isso!

Foto por Carol Folha

Vocês incluiram um samba composto e executado pelo Guilherme Elias. Como se deu a ideia de inserir um estilo em que a maior parte dos fãs de metal é avesso? Como tem sido a receptividade do público?

Guilherme Elias: Acreditamos que o Samba principalmente na parte lírica tem muito a ver com o nosso trabalho. Como pessoalmente tenho grande afinidade pelo estilo sempre trouxe essa musicalidade para o Surra e nesse trabalho concordamos que seria bacana explorar isso. A ideia inicial era ser só uma pequena vinheta mas acabou ficando melhor do que imaginávamos e estendemos um pouco a duração do samba.A receptividade tem sido excelente, muita gente que já acompanha a banda a um tempo sabia desse lance de curtirmos samba/pagode mas pra muita gente foi uma novidade bacana. 

O instrumental do disco está com muito mais peso do que os trabalhos anteriores. Podemos dizer que o surra está caminhando mais para o metal e deixando o punk para trás no thrash? 

Victor Miranda: Acredito que não. O Surra nunca foi uma banda com um estilo 100% definido, apesar de ter influências bem óbvias. O fato de estarmos sempre na estrada e em contato com outras bandas de outros estilos nos influencia bastante, portanto é sempre um processo bem orgânico. Não existe nada premeditado do tipo “vamos seguir aqui mais essa linha XYZ”. Nós vamos compondo e o som vai mudando conforme o nosso gosto na época. 

“Bom dia, Senhor” é o som que a maioria dos trabalhadores, principalmente os informais, se identificaram. Ela é carregada de ódio de classe e trás o gosto acre de quem é explorado pelo patrão que o trata como se estivesse fazendo um favor. Comentem um pouco sobre a música.

Leeo Mesquita:  Eu tinha essa letra a um tempo e ela era muito maior e com mais ‘humor’. Decidi escrever algo a ver com meu dia a dia, colocando nos versos tudo o que eu sempre quis falar pra alguns ricos que tive o desprazer de prestar serviço. Sou eletricista autônomo a mais de 10 anos e a maioria das grandes reformas em que trabalhei presenciei pessoas de diferentes classes sociais falando todo tipo de atrocidade. A inspiração veio daí. Remontei a letra e adaptei pra música. Essa música fizemos porque queríamos algo pesado e arrastado. Durante a composição dela nós ríamos dizendo que essa seria a música tough-guy do álbum, só que o ‘dedo na cara’ é na cara dum rico cretino.

Acompanhamos pelos Stories de muita gente da cena de São Paulo que vocês fizeram uma Premiere de apresentação do “Escorrendo Pelo Ralo”. Vocês são nitidamente uma banda muito querida por muitas bandas daí. Como é essa relação em São Paulo? Há solidariedade na cena? Quais são as principais bandas que estão na correria e que tem a mesma linha de pensamento e valores que vocês?

Guilherme Elias: Foi muito bacana poder reunir tantos amigos nesse momento tão importante que foi a première do lançamento do nosso disco. Nós temos sorte de durante a nossa caminhada conhecer muita gente talentosa não só de outras bandas mas fotógrafos, artistas, jornalistas, engenheiros de som, designers e conseguimos reunir alguns deles nesse pocket show. Nós somos de Santos, portanto, demorou um pouco de tempo para nos entrosarmos com a galera de São Paulo mas agora 7 anos como Surra, e eu e o Victor morando na cidade, acabou sendo natural estar mais presente e acompanhando a cena da Capital. Bandas na correria em São Paulo temos uma infinidade mas acredito que mais ligadas a gente o Desalmado e o Paura. São bandas sempre fomos fans e agora temos o prazer (ou não) de sermos amigos pessoais dos integrantes, fazer turnês, vídeos, dividir palco juntos e etc. 

Vocês irão participar do festival itinerante de hardcore do Garage Sounds. Como é para vocês fazer parte do cast? O que esperam?

Victor Miranda: Pra gente será uma experiência sensacional participar de um festival desse porte, ainda mais dividindo o palco com vários nomes gigantes do rock nacional. Esperamos rever vários amigos pelo Brasil e também esperamos nos divertir bastante em todas as datas.

O Surra é assumidamente comunista e carrega a bandeira do antifascismo há muitos anos. Qual é a importância de posicionar politicamente em uma época em que muitas bandas preferem se manter neutras que assumir suas reais inclinações ideológicas?

Leeo Mesquita: As bandas que vejo declarando essa ‘neutralidade’, no geral, são bandas maiores, um pouco mais velhas. Tem gente nova nessa onda também, mas algumas bandas antigas parecem temer a reação do público. Alguns escondem seus pensamentos reacionários sim, mas o que acontece no geral é que os tempos mudaram, nosso momento é de entendimento da luta de classes. Quem não acompanhou isso fica confuso mesmo, já que, mesmo acompanhando os acontecimentos, ainda é difícil entender as manobras da burguesia. É muita desinformação na internet, tem que ficar esperto. Essas cenas de música pesada não são bolhas impermeáveis/blindadas desse tipo de discurso. Acho que isso já explica a importância da expressão de ideias revolucionárias através da arte. 

Podemos esperar uma nova tour no nordeste?

Victor Miranda: O Garage Sounds vai ter várias datas no nordeste, mas ainda assim queremos tentar organizar algo somente do Surra, até mesmo para podermos tocar em mais lugares. Só não sei quando, mas é um desejo nosso de fazer isso acontecer. 

Muito obrigado pela atenção. Muito obrigado por esse clássico anticapitalista. Deixem seu recado!

Victor Miranda: Muito obrigado pelo espaço! Acompanhem a banda nas redes sociais (@surrathrashpunk) e nos vemos na estrada!  Muito obrigado pela atenção. Muito obrigado por esse clássico anticapitalista. Deixem seu recado!