O Crust Sludge Pernambucano do Ruína

Sempre digo que as bandas aqui de Recife não devem nada a nenhuma outra do Brasil à fora, ou mesmo do mundo. Temos bandas criativas, que muitas vezes com poucos recursos criam sonoridades fuderosas. Mermão, a Ruína é uma delas.

Com a proposta de unir elementos de diferentes gêneros da música extrema, o grupo formado em julho de 2017, flutua por diversas referências indo do crust ao sludge, do hardcore ao doom.

Autofagia, o EP de estréia da banda, produzido por Mathias Severien (Desalma), no Estúdio Pólvora, sintetiza o peso e o caos do som criado pelos pernambucanos ao longo de sua existência. Eu, particularmente, achei o som muito bom para um primeiro registro. Com seis músicas, “Fria Navalha” é a minha preferida, que conta com riffs fritados do black metal, unidos ao hardcore, e d-beat do crust. Como eles mesmos explicaram, o título do EP refere-se ao processo de degradação e ato do homem ou animal nutrir-se da própria carne. A temática do disco traz conceitos da sobrevivência e sentido da vida em um mundo onde nada é solucionado e tudo é exposto de forma degradante.

Pra quem gosta de som com vocal desesperado, andamentos que nos levam a loucura, com riffs que ficam presos na mente, “Autofagia” já mostra que a Ruína não brinca em serviço. Esperamos por um full álbum em breve.

Ruína é: 
Zé Carlos – Vocal 
Lucas Guedes – Guitarra
Rodrigo Santos – Bateia 

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Contato: ruinapunx@gmail.com 

Test: O quebra-cabeça do “O Jogo Humano”

Apesar de já ter ouvido falar muito na banda Test, nunca tinha parado para ouvir. Foi a partir da participação da banda no programa Scena, que passei a pesquisar sobre a mesma e descobri esse excelente lançamento de 2019: O Jogo Humano. O álbum conta com nada menos que CINQUENTA E QUATRO faixas inspiradas em “marchinhas”. O trabalho é feito à base de vários sons com percussões ininterruptas e possui letras que satirizam partes específicas da sociedade.

O Jogo Humano – Arte por Carolina Scagliusi

Em entrevista, João Kombi explica que a ideia é a de o álbum funcionar como um jogo interativo, para que o ouvinte possa unir as palavras contidas nos títulos, formando frases doidas e criando sequências distintas a cada vez. Ou seja, ele monta o álbum como ele quiser. Loucura? Sim. Mas funciona demais.

O álbum transita entre o grindcore e o black metal, com blast beats fantásticos do Barata. O clássico “cavalo manco” continua no som, para agitar a galera e trazer o circle pit aos shows dos caras. O lançamento físico está sendo feito por diferentes selos, cada qual com sua montagem. Ou seja, você encontra diversas versões desse mesmo disco. Quer algo mais inovador? Aguarde, pois com certeza eles inventam algo fuderoso no futuro.

As letras, por sua vez, tratam principalmente de variadas falhas humanas. O que invariavelmente acontecem. Todo mundo erra e todo mundo erra muito. Talvez trata-se de uma crítica à nossa bolha que busca seres humanos perfeitos de caráter incorruptível, quase como uma Igreja. Se é isso de fato, não sei dizer. Test sempre deixa a dúvida no ar. A autoria das mesmas são músicos de outras bandas e até de alguns gêneros aleatórios ao som do Test, como Jair Naves. Cada autor recebeu um título, sem demais explicações.

Som visceral, criatividade, o Test se mostra uma banda única. Nem consigo enquadrá-los como uma banda de grind. Eles transcenderam esse rótulo criando algo que não existe. Conseguiram ao mesmo tempo deixar o som orgânico e sujo. Tem reverbs, tem pegada experimental, tem batera louca. Não espere lógica, o Test foge do mais do mesmo.

O trabalho foi gravado, produzido e mixado pelo próprio João em seu home studio, e masterizado no Audio Siege, em Portland, Estados Unidos, por Brad Boatright (conhecido por ter material lançado também com o Sleep, Full of Hell e YOB).

“Inflamar”, o lançamento mais significativo de 2019

Se vocês achavam que 2019 teve lançamentos fuderosos, e que o ano já tinha fechado… Parem tudo o que estão fazendo e ouçam o split “Inflamar” que reúne as bandas Manger Cadavre?, No Rest, Vasen Käsi e Warkrust, todas lideradas por mulheres fortes e muito ativas no underground brasileiro.

A arte da capa ficou a encargo do Marcelo Augusto, que é guitarrista da Manger, e mais uma vez nos surpreendeu com a qualidade de seu trabalho. O lançamento físico estará disponível em breve pelo coletivo de selos Helena DiscosElectric Funeral RecordsCrust Or Die Collective, Xaninho DiscosUnderground Storm RecordsVertigem DiscosPoeira Maldita RecsTerceiro Mundo Chaos e Brado Distro. Ou seja, a distribuição está bem feita para todo o Brasil.

Faixa a Faixa

Se vocês já ficaram boquiabertos com o álbum AntiAutoAjuda lançado pela Manger Cadavre? no dia 1º de maio desse ano, se prepare: os dois sons da incansável banda estão incríveis. “Incendiar” é um som de revolta, com riffs do thrash, death e hardcore, pedal duplo, baixo bem marcado (como é característica do Manger), conta com os urros mais brutais da vocalista Nata de toda a discografia da banda. A letra fala sobre guerras híbridas e as estratégias utilizadas pelos países imperialistas para desestabilizar os países em que eles possuem interesse em implantar medidas neoliberais. O segundo som, “Amazônia”, também tem a ver com fogo. A letra fala das ações de mineradoras e ruralistas que deixaram rastros de sangue nos últimos meses, de acordo com o projeto entreguista. Meus senhores, que bumbo duplo! Que riffs! Que base pesada. Com referências claras de death metal, o hardcore crust da banda ficou muito bem preenchido e mostra que a Manger Cadavre? realmente merece todas as conquistas dos últimos anos.

Foto por Walter de Andrade

E as surpresas não param! Quem é mais velho, vai se lembrar de uma das primeiras, senão a primeira banda de hardcore crust brasileira com uma mulher no vocal: No Rest. O que temos em “Inflamar” é um crust punk metal, furioso e muito bem executado. “Nem sujeição, nem apatia” fala sobre a condição da mulher em nossa sociedade em que “o que é fácil para um, pode ser muito difícil para uma” e como a consciência das mulheres pode despertá-las para não viver sujeitas a tudo o que lhes é imposto pela condição de ser mulher e nem de apatia. É um chamado. Detalhe para os riffs que nos remetem ao blackned, bateria como os compassos do coração angustiado e que vocal. Aline mostrou que ainda é um dos grandes nomes do som extremo nacional. “Abraçando o fascismo” é uma denúncia sobre a extrema direita que se instaurou em nosso país e alguns outros. Som pra agitar e cantar junto! Esperamos que a banda nos presenteie com novos lançamentos, já que o hiato entre o último lançamento e esse split foi grande. Que felicidade escrever sobre vocês!

Foto: Divulgação No Rest

Vocês se lembram que em uma entrevista eu disse para anotarem o nome de uma banda muito promissora? Eis que a Vasen Käsi invade nosso peito com dois sons que também caminharam para o death metal melódico, é o peso do metal, somado ao crust, postura punk. Ambas as músicas são em inglês, com um vocal poderoso de Mars Martins, que somos absurdamente ao som da banda. Mermão, eu que amo Wolfbrigade, estou encantado. “Embrace the fall” é um som incrível! Com riffs muito bem construídos e criativos, que máquina Wallison Paulistinha se mostra. Batera na mesma pegada, preenchendo o som com peso. “Prometheus” segue na mesma linha, death metal com crust do começo ao fim. Letras impactantes, com métricas bem encaixadas. Essa banda ainda irá nos dar muito mais orgulho e com certeza esse lançamento mostra um amadurecimento gigante.

Foto por Amanda Rocha

Fechando esse trabalho formidável, temos o crust d-beat que traz o apocalipse com o vocal sujo e marcante de Anne, com a Warkrust. “Sua sociedade Não Vale Nada” é um som que agrada a headbangers e punks, com destaque aos riffs de guitarra bem colocados e que, ao som do tupá tupá, faz a gente querer abrir o mosh no meio do trabalho. A letra trata de como o ser humano foi condicionado a ser um escravo na sociedade capitalista. “Pobre de direita” começa com um clima desolador, que logo dá licença a ao d-beat e a uma pegada mais ao crust. A letra por si só fala do mal que assola a nossa sociedade atualmente: o pobre de direita. Som muito bem elaborado e sem uma mensagem positiva, como sempre nos avisou a Warkrust. A música termina em um fade out muito legal. Baita som!

Uma curiosidade, a Manger Cadavre? e a Vasen Käsi são bandas do interior do estado de São Paulo, enquanto a No Rest e a Warkrst são de Porto Alegre/RS. Mesmo com vertentes diferentes do crust, as quatro bandas conseguiram elaborar músicas que se conversam e (não sei se foi proposital), possuem uma lógica entre si.

” Em tempos sombrios, somente a mobilização pode inflamar um povo no sentimento de retomada dos direitos que estão sendo usurpados. Converter em chamas as ideias conservadoras e reacionárias. Sair da apatia. Colocar fogo. Lutar. “

“The Revolution Continues” – O Thrash Metal com Consciência de Classe do Red Razor

Uma das gratas surpresas que 2019 me reservou, foi conhecer o trabalho da banda catarinense Red Razor. Justamente em um dos estados com maior índice de apoio a Bolsonaro, é de onde surgiu um dos melhores trabalhos lançados esse ano: The Revolution Continues, lançado pelos selos Under Machine Records, Helena Discos, Resistência Underground, Escória Distro, Antichrist Hooligans Distro e Tales From the Pit . Para os fãs de thrash metal da velha escola, o disco é obrigatório.

capa é assinada por Andrei Bouzikov (Municipal Waste, Violator, Toxic Holocaust, S.O.D., Autopsy…)

Neste disco eles incluíram novos elementos musicais, principalmente de Death Metal, com vistas a construir uma sonoridade mais própria, respeitando as suas influências mas criando algo mais original. Além disso, o teor político nunca esteve tão em evidência. ” Entendemos que a arte é um importante mecanismo político e não podemos fechar os olhos à ascensão do pensamento fascista no país, trazendo músicas com temática voltada a denunciar o processo de ruptura com a democracia que estamos vivenciando desde 2016 (RIP Democracy) e o agravamento da violência contra populações periféricas (Violent Times) ” – comentam.

Faixa a Faixa

A faixa que dá nome ao disco, abre o álbum com riffs clássicos do thrash metal e muita energia. A letra coloca a revolução como um fato, a revolta da cerveja. Em um tom divertido, a mensagem na realidade ressalta a importância do boicote a grandes corporações multinacionais que injetam um grande capital em propaganda, crítica ao que as mesmas fazem com a nossa terra e pede apoio aos pequenos comerciantes.

For Those About Thrash entra na sequência é uma ode aos thrasers e justamente por isso começa com uma levada perfeita para o circle pit. Com solos excelentes de Daniel Rosick e Fabricio Valle, tem tudo para se tornar um clássico da banda.

Violent Times, por sua vez, denuncia a indústria armamentista que corrompe o estado (vide aqui a bancada da bala) e mata todos os dias o povo periférico em uma falsa guerra contra as drogas. Destaque para o baixo que gruda na nossa cabeça;

Born in South America é o single que já havia sido lançado pela banda e tem destaque pra batera que é colocada à velocidade da luz. Mermão, que som! Peso, velocidade, raiva. Tem tudo nesse som. A letra retrata a exploração indígena pelos primeiros colonizadores, exploração essa que se estende aos dias de hoje, pelos neoimperialistas.

R.I.P Democracy fala sobre a votação que perpetuou o golpe no Brasil. Votação sem crime de responsabilidade, mas por Deus, pela Família, a nossa democracia morreu. Solos muito bem executados e nada chatos, vocal e backing vocals são os destaques do som.

Sour Power é outro som que liga cerveja à revolução em analogias. E que riffs, meus amigos. É pra ficar tonto, como numa bebedeira!

Brewtal Mosh fala da realidade do trabalhador explorado em subempregos que odeiam, e buscam na cerveja e no mosh um escape para a realidade. O destaque desse som é o vocal que é colocado em alguns momentos como Tv Party do Black Flag. Instrumental perfeito. É um dos pontos altos do disco.

Fechado o trabalho temos The Sadist, narra o nascismento do serial killer conhecido como Vampiro de Düsseldorf. Com vocal mesclando o gutural com o gritado, clássico do thrash, e andamentos criativos, celebra com chave de ouro essa ode ao thrash metal brasileiro.

Track List:

1. The Revolution Continues
2. For Those About to Thrash
3. Violent Times
4. Born in South America
5. RIP Democracy
6. Sour Power
7. Brewtal Mosh
8. The Sadist

LINKS adicionais:

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Ação Direta “Na Cruz da Exclusão”: A Maestria no Hardcore Brasileiro

Com mais de três décadas de estrada, o Ação Direta lança este mês seu novo disco, Na Cruz da Exclusão, que sai numa parceria da Monstro Discos com a Xaninho Discos trazendo uma homenagem à banda Dorsal Atlântica. A versão de ‘Caçador da Noite’ também ganhou um videoclipe já disponível no YouTube.

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“Na Cruz da Exclusão” se inicia com com o som “Devorar”, que conta com uma intro tensa, que dá lugar a batidas insanas e um berro transtornado. “Viver é regredir” é um hardcore rápido com riffs bem construidos e criativos, que quebram pra um refrão insano. Na sequência temos “Secular” que fala sobre crimes ambientais, contra a cultura e o assassinato a 80 tiros, em assassinos que acabam sem punição, devido ao sistema. “Artificial” começa com um riff mais pesado sozinho que na sequência ganha o apoio dos demais instrumentos, ganhando corpo, que logo dá lugar ao hardcore que pede por pogo. “Sitiado” é um dos sons mais legais do trabalho, com uma pegada mais crossover. “Imbecilização da Raça” fala sobre a intolerância vinda de pessoas imbecis, com uma sequência de adjetivos com a letra “i”, é o meu som preferido do trabalho. “Na Cruz da Exclusão”, que dá nome ao álbum, é um som que fala sobre polarização e tem um baixo marcante e riffs clássicos do crust, com um tum pá tum pá convidativo ao pogo. Na sequência temos “What Should I Do With My Life”, único som em inglês, que ficou muito bom. A métrica de Gepeto ficou muito bem encaixada e fácil de grudar em nossas cabeças. É o segundo som mais legal do disco. “O.C.E.A.N.” conta com riffs do metal, com a clássica cavalgada, um ótimo som. “Caçador da Noite” começa com um discurso que dá licença a velocidade. Fechando o disco “Tempos de Individualização” fala sobre a perda do senso coletivo e exacerbada individualização dos tempos atuais.

Esse é mais um dos excelentes trabalhos lançados em 2019 (em que as bandas estão inspiradas pelas desgraças do atual governo) e que tem tudo para se tornar um clássico. Parabéns aos envolvidos!

Direto da Cidade Cemitério, o Terror Revolucionário traz o álbum”Campo de Esperança”

Após completarem duas décadas de existência praticamente sem pausas, a banda de hardcore/crust Terror Revolucionário nos presenteia com uma compilação que conta com nada menos que SESSENTA E UMA MÚSICAS. É mole, mermão? É nada! É brutalidade na veia.

A compilação saiu de forma independente em digipack, lançado e distribuído pela própria banda, contando com sons inéditos e versões raras que estavam arquivados em CDs e fitas k7 antigas. As gravações foram feitas por diferentes formações da história da banda. Aos fãs de música extrema e rápida, é um item indispensável na coleção.

Em Brasília, a cidade cemitério, “Campo da Esperança” é o nome do principal cemitério e por isso, .

Por se tratar de muitas músicas, excepcionalmente não farei a resenha faixa a faixa, mas vou destacar os sons que mais curti. Iniciando o álbum, “Políticos de Carteirinha” é um som que mescla tensão com os graves às passagens rápidas e empolgantes. “Antes agora do que tarde demais” é o terceiro som, e conta com os vocais da baixista Adriana e tem uma pegada mais hardcore. É difícil pular algumas faixas, ainda mais quando se é fã de uma banda, mas “Matando em nome de Deus”, que é o quarto som, merece uma atenção especial, assim como “Educando para destruir”. O 14º som é daqueles que você coloca no repeat, com riffs bem legais e baixo marcado, fica na cabeça. “Cidade Cemitério”, começa com um baixo estalado e com guitarras características do crust, assim como o d-beat da batera. Uma sequência de versões muito legais começam a partir da 18ª música, com destaque para “Vale das Sombras Vale da Morte”, original do Besthöven, “Rumores de Guerra” do Karne Krua e “Quem votou” da New York Against Belzebu, que ficou bruta. Nesse momento estamos no som número 30, com “Câncer Social” e estamos cansados de ouvir? Jamais! Percebemos a diferença de qualidade de gravação, no entanto essa é a magia do Campo da Esperança. “Dia do Operário” é rápido, cru e visceral. “Fora FMI” nos lembra os anos 90 de entreguismos do governo FHC e submissão ao fundo monetário internacional. Esse som se repete em diferentes gravações nas faixas 38 e 52, o que é bem interessante de se ouvir. A partir de “Neste inferno” é outra faixa que prende na cabeça. A partir de “Mudem o Sistema” provavelmente temos o registro de um ensaio ou show ao vivo gravado em k7, e vale como registro histórico de como as bandas divulgavam o seu som antigamente, o que é muito legal (jovens, valorizem a tecnologia que vocês tem acesso).

“Campo da Esperança” é uma ode ao underground Faça Você Mesmo e celebra os 20 anos de uma das bandas mais ativas do nosso país. O Terror Revolucionário nos lembra a todo instante o que é ser uma banda independente do terceiro mundo e porque amamos a cena do DF e, por mais que a realidade nos tire, eles nos enchem de esperança.

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QUILOMBO: Death Metal Contra o Racismo

Para mim é motivo de muita alegria encontrar projetos e bandas dentro do metal que falem sobre a ancestralidade, denunciem a diáspora e a atual segregação do preto no Brasil e mundo. Bandas como Black Pantera, Desalmado, Crexpo, Punho de Mahim dentre outras estão em atividade e tem muita importância nesse espaço. Para somar forças a essa galera, a banda Quilombo apresenta seu primeiro trabalho, a Itankale.

Com inspiração na realidade vivida pelo povo preto desde sempre, o EP conta com seis músicas, com lançamento pela Sangue Frio Produções.

Buscando fugir da historiografia contada pelo povo opressor (que tentam justificar o injustificável), as letras contam com um estudo aprofundado, além da participação do percussionista Binho Gerônimo, que trouxe elementos originários da África no EP. Resumidamente, o lançamento fala da cultura africana e seus descendentes, com a Diáspora africana; como a cultura e costumes se espalharam pelo globo, sincretismos, intercâmbios de ambos os lados, que moldaram algumas partes do mundo, como é nosso caso aqui no Brasil.

Faixa a Faixa

“Melanina” abre o EP com um cântico africano, que dá lugar ao death metal oitentista, com vocal potente e riffs poderosos. É um som mais longo, mas nem por isso cansativo. “Ancestralidade” começa com um blues que cede o espaço a um metal um pouco mais cadenciado, com melodias tensas. “Treze Nações” começa ao som de um berimbau e palmas típicas da capoeira, seguidas da brutalidade em pedal duplo e riffs na velocidade da luz. Na sequência temos “Descendentes de Reis” que também conta com uma introdução de cânticos africanos. É um som curto e impactante, que vale a pena de ser ouvido mais uma vez para se prestar atenção aos detalhes. “Semideusas” é o som que eu mais curti, é daqueles que a gente bangueia e abre o circle pit. Tem referências de Morbid Angel e Napalm Death. Fechando o EP, temos “Diáspora” que é um murro de brutalidade na nossa cara. Destaque para o vocal raivoso.

O trabalho está muito bom, necessitando de alguns acertos de mix e master apenas, mas criativo em composições instrumentais, vocais muito bem encaixados, com potência e precisão e temática mais que necessária. Eu, como homem preto e nordestino dentro do metal, só tenho a agradecer por esse trabalho.

Realidade Encoberta responde a ofensiva conservadora: “Não Vivamos Mais como Escravos”

A banda Realidade Encoberta foi formada em 87 por Nado e Daniel Malcriado. Depois de várias mudanças de formação, acabam adotando o crossover como estilo musical. Após a morte de Nado a banda decide terminar. Decidem retornar em 2013. A banda continua tocando e gravando e sua atual formação é: Carlos Underground(vocal), Túlio Falcão(guitarra), Daniel Farias(guitarra), Rodrigo Cirilo(baixo) e Eduardo Torment(bateria).

Recentemente eles lançaram o ótimo álbum “Não Vivemos Mais como Escravos”, que tem o hardcore como base, num crossover com o metal. Com um vocal que nos remete um pouco a Ação Direta, é um dos melhores lançamentos da região nesse ano.

“Idade das Trevas” é um som contestador sobre a realidade brasileira na atualidade. Com riffs empolgantes, baixo estalado e bateria veloz, inicia o trabalho com muita energia. Na sequência temos “P.I.B” e “Tv Alienação” que tem uma construção um pouco torta, o que as torna muito criativas. “Pague Propina” conta com uma velocidade brutal e flerta com o thrash e o death metal, mas sem perder a essência hardcore. “Hiper Realidade” fala sobre a era das fake news e distorção da realidade por meio do controle da mídia e que só a história nos dirá o quanto fomos idiotas. Após, entra “Cleptocracia” que nos convida a acordar, apesar de concordar com a frase que clama “nem direita nem esquerda”, é um som empolgante (Opinião do autor: é preciso de posicionar, sim, social democratas, comunistas e anarquistas compões a esquerda e extrema esquerda ~ esquerda eleitoreira e a revolucionária ~ frente a ofensiva da direita que massacra o povo. Não acreditamos que seja correto igualar a esquerda que luta pelos trabalhadores com a direita que atua em prol de grandes corporações e países imperialistas). “Estado de Exceção” traz a mensagem de resistência em riffs que contam com muito peso. “Pecunium Uel Pax” é o som mais legal do álbum. “No Limite” fala sobre saúde mental em um mundo de competição, exploração do trabalho que faz com que pessoas se sintam incapazes e depressivas. É um dos pontos altos do trabalho. “Não Vivamos Mais como Escravos” traz a mensagem de autogestão. “Não quero te Ouvir” é uma versão de “I don´t wanna hear it” do Minor Threat que ficou muito legal.

Todas músicas compostas e arranjadas por REALIDADE ENCOBERTA, exceto “Não Quero Te Ouvir (I Don’t Wanna Hear it)”, escrita por Ian MacKaye. 

Produzido por Daniel Farias.  Direção de Arte: Alcides Burn. Convidados especiais (vocais de apoio): Wilfred Gadelha, Alcides Burn. Gravado no Estúdio Palco, Recife/Pernambuco (Brasil), em outubro de 2018. baixo: Túlio Falcão 

Contraponto “Pagando o Pato”

Surgida em 2008, em Belém do Pará, e remoldada em 2010, o Contraponto é uma banda que toca em temas como desigualdade social, preconceito e violência de uma forma diferente. Buscando sempre a politização dos espaços em que atua, a banda tem como temática as lutas da classe trabalhadora e da juventude e a construção do socialismo libertário. “Pagando o Pato” é o segundo álbum da banda, que foi lançado em 2018, mas vale a pena ser resenhado.

Ainda com Thyrza Sinely nos vocais, o trabalho teve a bateria gravada no Estúdio AUDIO VJ, com produção de Olívio Portugal. Já as guitarras e baixo foram gravados no no mesmo estúdio, mas com produção de Olívio Portugal e no Quarto do Paulo, com produção de Paulo Wallace. As vozes, por sua vez, foram gravadas no Fábrika Studio, com produção de Paulo Wallace. Mixagem e masterização por Paulo Wallace no Quarto do Paulo.

O álbum, que marcou os 10 anos da banda, se incia com a música “Não é Não”, que contou a participação da Luma (ex-vocalista Klitores Kaos). O som conta com alguns riffs clássicos do crust e uma bateria bem trabalhada. O destaque fica para os vocais de Thyrza e Luma que arrebentam no extremo, mandando a mensagem certeira ” CHEGA DE SUBMISSÃO // MINHA LUTA NÃO É EM VÃO //RESPEITE MINHA REJEIÇÃO//
EU QUERO REVOLUÇÃO”. Na sequência os riffs introdutórios de “Início do Fim” já deixam o clima que está por vir: denúncia do golpe e a farsa”democraticamente” eleita de Jair Bolsonaro. As variações de vocais entre o rasgado e o gutural nos passam o mesmo ódio que sentimos ao relembrar de todo o percurso da tomada de poder pela extrema direita. “Barbárie” é um som de apenas 1 minuto e 24 segundos com apenas duas frases, mas que você vai colocar no repeat. “Barbárie II” continua sobre a temática que denuncia o desmonte do SUS, sistema que já foi referência mundial de saúde pública e hoje é constantemente atacado por investidas neoliberais que querem acabar com o serviço gratuito e privatizar tudo. Na metade do disco, temos “Frente Popular” que tem uma pegada mais hardcore punk, muito empolgante. “Realidade Cruel”, por sua vez, fala sobre menores que, em condições de abandono do Estado, acabam no tráfico. “American Way of Life” é som que mais curti, com riffs criativos, d-beat frenético, vocal bem cravado e denúncia do imperialismo estadunidense. “Meritocracia” como se supõe, fala sobre a falácia que nos é empurrada, destaque para as linhas de baixo que ficaram muito boas. “Pagando o Pato” que dá título ao álbum é um dos sons mais bem construídos, com um berro incial de causar medo a todo o sistema S, que financiou o golpe. Fechando, temos “Guerra Inútil” que denuncia a Polícia Militar (que tem que acabar). Os fãs de Wolfbrigade vão curtir muito o som.

Sem dúvidas, esse foi um dos lançamentos excelentes que tivemos ano passado. Sugerimos uma maior atenção na mix, para que o instrumental brilhe tanto quanto o vocal em próximos lançamentos, mas não é nada que tire toda a qualidade criativa da banda. Atualmente, sem a Thyrza no vocal, a banda segue como trio, tendo lançado o single “Desespero” agora em 2019. Ficamos no aguardo de novos lançamentos.

DIOKANE “This is Hell We Shall Believe”

Ficamos muito empolgados quando conhecemos bandas que nos surpreendem desde o primeiro EP. Esse é o caso da banda de hardcore Diokane. Natural de Porto Algre/RS desde 2016, conta com um time experiente e com todo o gás para levar o som a frente. Aqueles que curtem bandas como Cursed, devem adquirir o CD físico de “This is Hell We Shall Believe”. A formação atual é: Duduh Rutkowski (baixo), Gabriel ‘Kverna’ Mota (bateria), Homero Pivotto Jr. (voz) e Rafael Giovanoli (guitarra).

O trabalho da Deus Cão conta com cinco sons e uma intro, é um EP bem rápido, com pouco mais de 11 minutos, mas que causa impacto e faz você querer ouvir novamente. Conta com influências variadas, o que é comum a bandas de hardcore do estilo, que acabam se definindo por essa variedade que vai do metal ao punk, assim como a citada Cursed. Apesar do som enérgico, as letras possuem um niilismo. A desesperança causada pela falta de tempo, opressões no trabalho, descontentamentos sociais estão representados nas letras.

O EP começa com “Intro (EvilSounds to Make You Shake” abre os caminhos para “The Light That Makes Us Blind”, um som muito bem trabalhado, criativo, que conta com riffs que ora trazem o death metal ao hardcore, ora o inverso. Com um baixo brilhando, “Desacreditado” é o único som em português. Apesar da banda ter o inglês como base, acredito que a nossa língua natal seria a ideal para a banda passar a mensagem de forma clara. As métricas estão precisas e o vocal raivoso só ganhou com isso. “Under the influencer” é o som mais hardcore da banda, enquanto a “Born with a curse” retoma algumas palhetadas mais do metal. Por fim, temos “Days of Summer”, que a banda explicou em uma entrevista que trata-se de uma referência a quando o governo do estado do Rio Grande do Sul discutia a venda de estatais e parte da população foi às ruas protestar contra essa possibilidade. O clima pegou fogo, com a polícia reprimindo as manifestações. Aquele lance do calor da hora, que deixa o sangue fervendo e um torpor no ar.

O material saiu em CD prensado e capa de envelope pelos selos Helena Discos, Brado Discos, Two Beers or Not Two Beers e Poeira Maldita. Gravado, mixado e masterizado no (recorded, mixed and mastered at) TungStudio (Porto Alegre).  Produzido por (produced by) Stenio Zanona/Diokane. Arte da capa (artwork): Rafael Giovanoli.