Do Rap ao Hardcore! Conheça um pouco mais sobre o Maddiba em Entrevista Exclusiva

Maddiba é a grata surpresa de 2020. Já falamos um pouco sobre o Santo André, primeiro álbum completo da banda aqui no blog, mas hoje conversamos um pouco com essa galera em entrevista exclusiva.

O que o álbum Santo André significa para cada um de vocês?
Signifinica a concretização de um sonho que tinhamos a um bom tempo. Sabemos que não é facil para as bandas lançarem um album, muito pelo lado Financeiro e tempo. Então hoje ficamos muito honrados em ter essa oportunidade de ver algo que fizemos com muito amor e dedicação disponibilizado para as pessoas conferirem.

Como foi a recepção do público com o álbum?
Tem sido muito boa, recebemos feedbacks de vários lugares do Brasil e até de fora que não imaginavamos que o som poderia chegar…..então vimos como todo o nosso suor de ir atrás e lançar o album valeu a pena.

Como surgiu a ideia de mesclar hardcore, metal e rap?
Surgiu do ponto que todos os membros já curtiam muito os 3 estilos…….então em um determinado momento pensamos: Por que não misturar tudo? …..lembramos de várias bandas que também já fizeram essa mistura….logo decidimos por em pratica a ideia.

Falem um pouco sobre o clipe de City of SA.
A ideia do Clipe era mostrar um pouco de onde viemos e contar a história da nossa cidade.
De inicio filmamos na cobertura do prédio(onde a banda executa a música com instrumentos) e outra parte no centro de santo André sendo somente a parte de Rap. Quando vimos o primeiro resultado achamos que poderiamos mostrar ainda mais a cidade, então fomos até a região de Paranapiacaba filmar umas cenas onde é possível ver muitas areas verdes da nossa cidade, linhas de trem e etc. E posteriormente filmamos em outros pontos que são marcantes como a Prefeitura, avenidas conhecidas…..assim com o resultado final do clipe é possível ter uma visão da cidade de Santo André de vários pontos.

Indiquem 3 bandas nacionais do underground brasileiro que vocês ouvem.
Ratos de Porão, Surra e Kamau.

Quais são os planos futuros da banda?
Estamos com plano de lançar material em português, na realidade já temos alguma coisa pronta. E assim que tudo melhorar em decorrer dessa pandemia, cair na estrada e fazer o maior número possível de shows.

Esse espaço de vocês, deixem as considerações finais e links de contato.
Gostaria de agradecer o espaço para respondermos perguntas em relação a banda, essas entrevistas são muito importantes pois só ajudam a fortalecer a cena que tanto amamos, que é a cena underground.
E também gostariamos de reforçar os cuidados que devemos ter nesse momento de pandêmia e que com certeza em breve estaremos tocando por ai!
abraço e muito obrigado ao O Colecionador o espaço que tivemos aqui! !!

Links da banda:
https://www.facebook.com/maddibaband/
https://www.instagram.com/maddibaband/

Para outras informações e Merch:
https://linktr.ee/maddiba

MELHORES DO ANO: Provando Que 2020 Não Foi Perdido

Saudações a todos que acompanham a minha singela coleção virtual, ilustrada em textos. Agradeço ao apoio de todos que fortaleceram o trabalho do blog e que aumentaram a lista dos títulos de discos aqui em casa, enviando material. Nesse ano tivemos tudo de ruim. Queimadas, desgoverno de um lunático de extrema direita, pandemia, desemprego em massa e a lista de coisas tristes só aumenta. O que seria de nós se não fosse a música para nos salvar? Por isso, para não sentar e chorar, vamos falar das coisas boas de 2020. Chegamos a nossa clássica lista de melhores do ano, na nossa opinião.

SINGLES

Nervosa “Perpetual Chaos”

Prika Amaral apresentou a nova formação da Nervosa na velocidade da luz, apresentando dois singles, que tiveram produção de Martin Furia e foram gravados na Europa. E, meu irmão e minha irmã, o grupo já se mostrou ser mais que uma super banda: Nervosa é uma potência mundial.

Creatures “Lighting in my Eyes”

O heavy metal brasileiro ganhou um novo fôlego e voltou às suas raízes verdadeiras de satanismo, revolta e NADA de conservadorismo. O grande destaque de Lighting in my Eyes é o vocal afinadíssimo e os solos envolventes. É o som que a galera fatidicamente estaria dançando se voltássemos aos anos 80. Como diria o pessoal do Canal Scena, uma banda sensual.

AnkerkeriA “Baph Metra”

Fortaleza conta com bandas incríveis de variados gêneros. Um deles é o death metal. A AnkerkeriA lançou o single Baph Metra com um clipe impecável em termos de produção e enredo (para assistir, você precisa estar logado no YouTube e ser maior de 18 anos). O som é muito bem executado, com variações que fogem do óbvio e coloca a banda dentre as grandes no país.


Inraza “(Still) Stuck

O primeiro dos dois singles lançados pela banda durante 2020 é o que mais me chamou a atenção. A banda que faz um metal moderno está caminhando para a maturidade, evoluindo conforme vão lançando mais materiais. Destaque para os vocais extremos intercalados com os limpos da vocalista Stefanie. Aguardamos um full album para 2021 e uma tour no nordeste assim que a pandemia acabar.

EP´s

Desalmado “Rebelião”

A banda citada por Max Cavalera não poderia ter soltado nada menos que um EP espetacular. Voltando ao português, a banda mandou o recado reto sobre os tempos que enfrentamos desde o golpe, em uma ode para que o povo se organize contra as opressões da extrema direita. Qualidade técnica, agressividade, arranjos empolgantes e vocal furioso. Rebelião deveria ter sido um álbum. Destaque para “Esmague os Fascistas” que contou com a participação de Nata Nachthexen, vocalista da Manger Cadavre?.

Hellway Train “Lockdown Reborn”

Os mineiros do Hellway retomaram a banda com um EP incrivelmente forte! Com um clima cheio de energia que o heavy metal pede, o trabalho fala de transtornos psicologicos. Pra quem respira som dos anos 80, é uma indicação que você vai agradecer! Destaque para o vocal de Marc que lembra muito Rob Halford.

Isinkú “Damnatio Memoriae”

Com seis sons é uma ode ao black metal anti imperialista. A banda que é de Natal/RN, nasceu para fortalecer ainda mais o cenário brasileiro do gênero, com posicionamento claro antifascista. Aqui os destaques são para as composições dos riffs e o clima gerado nas músicas. Pode ouvir sem medo, pois o som é muito bom, assim como letras e ideias.

Surra “Trashpunk Teleport: Submundo 2121”

Esse EP chegou aos 45 do segundo tempo, mas foi um gol de placa do Santos, ou dos santistas do Surra. São cinco faixas bem raivosas, que saíram com um gibi (que infelizmente ainda não vi, mas pretendo adquirir em breve). O grande destaque fica para “Nossa Reação”, que nos faz imaginar a galera cantando juntos nos shows “pra – queimar – no inferno – e comemorar a consolidação do império” e que ainda tem solo, meus consagrados. Uma verdadeira obra de arte!

Expurgo “Entropic Breath”

Os mineiros do Expurgo mostraram mais uma vez porque são uma das maiores bandas de grindcore brasileiras. O EP “Entropic Breath” traz toda a brutalidade sonora que já conhecemos, acompanhada de letras precisas. Se você busca o grind raíz, esse EP é obrigatório.

Dead Enemy “Knowing the Enemy”

A renovação do thrash crossover brasileiro também está acontecendo! Após o lançamento da primeira demo, a Dead Enemy de Fortaleza mandou o incrível EP “Kwoing the Enemy”. Rock veloz que faz você colocar a bolachinha para rodar pelo menos umas três vezes. “Broken Shape” é o som que mais nos prendeu. Ainda ouviremos falar muito nessa banda.

Cruento “Mar de Ossos”

Indo para o interior de São Paulo, mais precisamente Jacareí, no Vale do Paraíba, Cruento faz um crust punk visceral, com a fúria clássica do estilo. Mar de Ossos é um EP que conta com cinco músicas que mostra o quanto a banda amadureceu nesses anos. “Homem Lixo” que também ganhou um lyric video, é o grande destaque desse trabalho.

Vermenoise “O Outro”

O grindcore paulista foi presenteado com o lançamento excelente do EP “O Outro” da Vermenoise. Com cinco faixas curtas, como é comum do estilo, a banda mostrou que está mais violenta que nunca, aliando a brutalidade do som aos ideais da banda, mensagens essas contidas nas letras. Destaque para o vocal monstro da Chris.

Carnal Atrocity “Degenerescência”

Com esse nome difícil de se pronunciar, foi uma grata surpresa nos depararmos com esse projeto, que trata-se de um duo: Karine Campanille fazendo os vocais, arranjos de guitarra, baixo e sintetizadores e Emiliano a bateria. Tem grind, tem death metal, indicado para fãs de Carcass.

Álbuns completos

Vazio “Eterno Aeon Obscuro”

Começando a listas dos full albuns com o melhor lançamento de 2020, indiscutivelmente. Apresentado a muitos como nós pelo Canal Scena, o álbum conta com um black metal que é um tapa na cara dos reacionários. Com base no punk, a banda conseguiu trazer toda a brutalidade do gênero aliado ao clima e com mensagens precisas. Falar do Vazio será sempre incompleto. É preciso contemplar a escuridão.

Exsim “Exsim”

Os nossos conterrâneos aqui de Recife do Exsim lançaram um álbum auto intitulado muito bom. Grindcore clássico, com batera a milhão, em um álbum que tem dezessete músicas. Mas não se engane, ele tem a rapidez que o grind pede. Então coloca no repeat e seja feliz!



Podridão “”Revering the Unearthed Corpse”

Pra quem curte um death metal mais primitivo, esse álbum que conta com onze faixas é um prato cheio. Metal morte com direito a sangue, doenças venéreas e diarréia. Se você é fã de Cannibal Corpse, com certeza vai curtir esse trabalho que conta com uma batera bem precisa e riffs brutos.

Postmortem Inc “The Coqueror Worm”

A banda de Pelotas/RS, vem mostrar como a água de lá é boa para gerar bandas excelentes de death metal. Da escola do Krisiun, o álbum traz um brutal death metal com extrema qualidade técnica, mas com aquele algo a mais, que destaca a banda: eles não buscam copiar as fórmulas prontas do gênero, a identidade aqui é única e é o que nos faz apostar nesse nome para os próximos anos. Destaque para “State of Conspiracy”.

Cäbränegrä “Abismo”

Mais uma banda de grindcore que lançou um álbum visceral, o Cäbränegrä já tinha começado com tudo com o primeiro trabalho e agora só consolidou o som. Banda catarinense que lançou ótimas onze faixas, com velocidade, peso e culminou em um trabalho muito legal. Destaque para o som “Qual a solução?” que aparece em duas versões geniais.

Rest in Chaos “Trapped by Yourself”

Com extrema qualidade técnica, a banda de Florianópolis Rest in Chaos apresentou o seu primeiro full album que conta com onze faixas recheadas de brutalidade. Com peso das cordas, vocal forte e preciso, o destaque é para a bateria de Marlon que preenche o som de forma impecável. Death/Thrash que dá pra abrir mosh e banguear (mesmo que seja na sala de casa). Destaque para a faixa “Let me Rest”.

Wargore “Cursed Existence”

Pra quem curte death metal oldschool a Wargore é a pedida certa. Em Cursed Existence, os caras arrepiaram desde o primeiro som com palhetadas pesadas e vocal de demônio. Eles, que são de cascavel, lançaram nove sons em julho desse ano e espero muito poder ver um show ao vivo para conferir toda essa podreira em ação. Destaque para o som “Cocaine”.

Mofo “Sick and Insane”

É thrash que brasileiro gosta? Pois tome, mermão! Os caras do Mofo, que são de Brasília, arrebentaram com esse álbum insano que promete rodas brutais em shows. Com uma intro macabra, podemos até notar uma pequena influência do death metal do Bolt Thrower no começo da faixa seguinte a “Adrenaline”, que dá lugar ao thrash tradicional. Uma das grandes promessas de renome para o thrash metal brasileiro.

Sangue de Bode “A Sombra que me acompanhava era a mesma do diabo”

Uma grata surpresa de 2020 foi conhecer o som dos cariocas do Sangue de Bode. Um álbum repleto de tudo aquilo que o metal extremo pede: death, black, fúria! Ouvi muito esse disco que fiz questão de adquirir o físico (arte gráfica muito bonita). Destaco a faixa “Minha refeição é no Lixão”.

Maddiba “Santo André”

Saindo um pouco do metal e adentrando ao hardcore, essa indicação foge do tradicional. Somando o rap e pick ups, Santo André é uma ode aos fãs de Suicidal Tendencies e Beastie Boys, mas com aquele tempero nacional, com pitadas de thrash que a gente gosta tanto. Outra banda que conheci por meio do Canal Scena e que não saiu do meu fone de ouvido em 2020.

Ao Vivos

Surra “Escorrendo pelo Ralo – Ao vivo em São Paulo”

Essa banda não está pra brincadeira! Com três lançamentos no ano, a máquina de fazer riffão também lançou um ao vivo gravado em São Paulo, no show em que tocaram todas as músicas do escorrendo pelo ralo. Saudades de um show, né, minha filha?

Labirinto “Live at Dunk Fest”

Esse ao vivo é tão perfeito que nem parece ser ao vivo. É aí que a gente vê quando a banda é realmente boa. Som instrumental, que mescla metal e sludge, com camadas sonoras muito fortes. Qualidade ímpar e sentimento que não precisam de palavras. Aliás, eu uso uma: impecável.

Manger Cadavre? “Ao vivo em Curitiba”

Sem alarde e divulgação, a Manger Cadavre? disponibilizou apenas no bandcamp um show ao vivo realizado em Curitiba no ano de 2018. É como se fosse um bootleg, mas dá pra matar um pouco as saudades do show dos caras, pois tem treze sons muito furiosos. Destaque ao vocal visceral de Nata.

O Resgate do Crossover Hardcore + Rap: “Santo André” do Maddiba é o Álbum Mais Original de 2020

Quando pensamos em crossover no Brasil, nos vem a mente a clássica fusão entre o thrash e o punk ou hardcore. As misturas de estilos são pontos fortes do brasileiro, mas muitas vezes as bandas apostam em receitas prontas e acabam produzindo mais do mesmo. Esse, definitvamente não é o caso do Maddiba. Unindo o thrash ao hardcore, o trio originário de Santo André ousa ao incorporar elementos do hip hop ao som, resgatando a influência do crossover da escola Beastie Boys, N.W.A e Dog Eat Dog, mas com aquele peso do Suicidal Tendencies.

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Capa do álbum Santo André por Wendell Araújo

Conheci o trio formado em 2016 por Lucas Viana (baixo, DJ), Renan Pigmew (Bateria) e Tchel Caron (guitarra, vocal), no Canal Scena antes mesmo da participação no Ao Vivo. Em uma das indicações no Drops, o âncora Caio Augusttus pontuou e logo fui pesquisar sobre a banda. Conheci o EP “Ayanda” e já fiquei fã dos três sons fuderosos dos caras. Energia, qualidade e precisão que não pareciam vir de uma banda nova. Justamente por isso fiquei ansioso pela chegada de Santo André.

Ao ouvir o álbum, decidi que iria esperar a aparição da banda no Canal Scena para ver como toda essa energia seria empregada ao vivo. Mermão, não poderia ter ficado mais surpreso positivamente.

Santo André vai além do crossover entre hardcore, metal e rap. A banda conta com a brasilidade que faz com que o trabalho se destaque das referências e seja algo com características próprias, único. Vocês encontrará baião, reggae, e o hardcore brasileiro, que só é feito aqui. A autenticidade só seria mais completa se as letras fossem em português, mas a escolha do inglês não desabona o flow de Tchel.

O trabalho que aparentemente foi muito bem elaborado, não soa como um monte de coisa junta enfiada goela abaixo, como alguns grupos acabam fazendo. Muito menos repete fórmulas prontas. Maddiba consegue fazer transições entre as músicas que fazem com que Santo André seja um disco para se ouvir de forma completa. Involuntariamente você ouvirá todas as músicas do começo ao fim. Um som completa o outro com todas as suas variações, com crescentes e decrescentes. Ali vocês encontrarão uma história.

Destaque para a bateria de Renan que tocam com muita vontade e ao grande Lucas, que consegue sem malabarismos comandar as pickups e o baixo. Tchel com o vocal descontrolado, ao modo Suicidal Tendencies, é o momento que me leva de volta às pistas de skate em Recife nos anos 90, na época em que usar uma camisa do Morbid Angel com bermudão era algo normal entre headbangers.

Maddiba, é um nome que faz referência ao apelido de Nelson Mandela. Justamente por isso, as letras de Santo André trazem um cunho social forte e questões do dia a dia. A arte da capa ficou a encargo do nosso conterrâneo Wendell Araújo, que mais uma vez expressou de forma competente a mensagem da banda.

Nelson Mandela e o prêmio Lenin da Paz – Jacobin Brasil
Nelson Madela, o Madiba

“Santo André” é sobre o que faz uma cidade, sobre processos, sobre pessoas, sobre seu povo. Assim como diz o grande líder que os inspira, Maddiba passa a mensagem:

“Ninguém nasce odiando o outro pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar”. (Da autobiografia “O longo caminho para a liberdade”, 1994).

Espero pode conferir de perto um show dessa rapaziada e espero que o trabalho ganhe uma versão física, pois merece estar na nossa coleção.

Maddiba ao vivo no Canal Scena. Foto @baionetaderosca