MELHORES DE 2019: A única coisa boa que Bolsonaro fez, foi inspirar grandes discos e discursos contra ele mesmo.

Eta ano bom de acabar! Só direito perdido, a milícia no poder, a polícia matando preto e pobre como nunca antes… A única coisa boa que Bolsonaro fez por esse país, foi inspirar bandas em grandes lançamentos. Então para fechar o ano com algo decente, fica aqui a nossa lista de melhores lançamentos (ou os que a gente mais gostou). Desde já agradeço ao apoio de todos que leram e compartilharam nossas matérias. O underground é feito por todos!

Álbuns

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SURRA – Escorrendo Pelo Ralo

Possivelmente a banda que mais tocou em 2019. O Surra elevou o seu thrash punk a um estilo único, sem medo de mesclar elementos do metal e até do grindcore. Grande destaque para as letras que estão mais maduras e nos inflamam para a resistência.

SPIRAL GURU – Void

Disco extremamente bem gravado e executado, que mescla o stoner ao melhor estilo Sabbath, com elementos experimentais, do doom e mesmo do pós-punk. Void colocou a Spiral Guru dentre os maiores nomes do gênero no Brasil e com certeza, fora do país a banda irá alcançar um público ainda maior.

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MANGER CADAVRE? – AntiAutoAjuda

Um dos discos que me fez chorar ao acabar de ler o encarte. Mas foram lágrimas de esperança. Um hardcore crust visceral, com uma estrutura narrativa, emociona pela construção dos elementos sonoros e temática anticapitalista que nos guia para um outro caminho possível.

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RED RAZOR – The Revolution Continues

Consciência de classe + Anticapitalismo + Cerveja. Essa combinação somada a músicos extremamente bons só poderia resultar em um álbum fuderoso, que faz você querer ouvir outras vezes e clamar a revolução. Felizmente eles estarão no Abril Pro Rock 2020 e poderei conferir de perto essa destruição sonora.

NERVOCHAOS – Ablaze

Mais satânicos do que nunca, o NervoChaos traz o seu melhor trabalho até então. com identidade e evolução criativa nas músicas. A banda apresenta um retorno ao death/thrash metal da velha escola, eles incorporaram também alguns detalhes do black metal com uma pegada mais crua, primitiva (nada mais acertado, tendo em vista a temática do álbum).

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BAIXO CALÃO – Necrológio

Grindcore niilista de Belém do Pará, já tinha nosso respeito, agora com o vocal de Monise, está ainda mais arretado. Com dezoito sons que fogem do grind mais do mesmo, ainda conta com vinhetas muito massas e uma linha que caminha para a morte. Excelente lançamento. Detonem no Obscene Extreme, pois vocês merecem demais.

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TORMENT THE SKIES – Impure

A banda de death metal de Natal (RN), Torment The Skies, uma das gratas surpresas do ano. O disco trata do conceito do Inferno, segundo Dante e leva os ouvintes para uma viagem ao submundo, ficando cara a cara com a podridão do ser humano. O último álbum havia sido lançado em 2014, e podemos notar uma grande evolução nas composições que estão mais trabalhadas e na qualidade técnica da gravação.

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HATEFULMURDER – Reborn

Um dos grandes nomes do Thrash/Death brasileiro nos presenteou com o álbum Reborn, que conta com nove sons intensos, raivosos e de qualidade técnica impecável. Os urros de Angelica Burns denotam o porque é considerada uma das grandes fronts brasileiras. Trabalho maduro que coloca a banda em um outro patamar.

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TEST – O Jogo Humano

Banda que possui longa jornada no underground, mas só conheci recentemente pelo álbum “O Jogo Humano”. O disco é composto de forma que o ouvinte pode montar a ordem que quer ouvir e ainda assim o disco fará sentido. Destaque as letras foram compostas por vários autores. Grindcore com Black metal que gerou um estilo próprio.

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AÇÃO DIRETA – Na Cruz da Exclusão

Com mais de três décadas, o Ação Direta ainda nos surpreende. “Na Cruz da Exclusão” é mais um dos excelentes trabalhos lançados em 2019 (em que as bandas estão inspiradas pelas desgraças do atual governo) e que tem tudo para se tornar um clássico.

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TERROR REVOLUCIONÁRIO – Campo de Esperança

Após completarem duas décadas de existência praticamente sem pausas, a banda de hardcore/crust Terror Revolucionário nos presenteia com uma compilação que conta com nada menos que SESSENTA E UMA MÚSICAS. É mole, mermão? É nada! É brutalidade na veia.

REALIDADE ENCOBERTA “Não Vivamos Mais como Escravos”

E falando em Ação Direta, uma ótima banda que bebeu nessa fonte foi a Realidade Enconberta que lançou o excelente “Não Vivamos Mais como Escravos” que tem o hardcore como base, num crossover com o metal. Posiconamento + som porrada!

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QUESTIONS – Libertem

Primeiro álbum da banda paulistana gravado ACERTADAMENTE em português. O hardcore dos caras que geralmente trazem o PMA, nesse discos está com bastante raiva conscientemente dirigida (e necessária nesses tempos de fascismo). No instrumental encontramos peso e muita energia.

CROTCH ROT – Brochas From Hell

O goregrind brasileiro conta com bandas muito boas, com um instrumental bem executado e as temáticas gore que para alguns causam ânsia, mas para a maioria dos fãs do estilo, são diversão pura. O Crotch Rot, que é uma banda de Curitiba, em seu novo trabalho conseguiu unir a temática à crítica a misoginia sem deixar o deboche de lado.

PATA – Shit and Blood

Em meados de junho, a banda mineira Pata lançou o álbum “Shit and Blood“, que conta com dez músicas. O trio, que é formado por Lúcia Vulcano (guitarra e voz), Beatriz Moura (bateria) e Luís Friche (baixo), possui influências do grunge e do punk, tendo como maior referência a L7. 

KULTIS – The Black Goat

Thrash metal que tem contos de H.P. Lovecraft como base nas letras, Kultist nos presenteou com o ótimo álbum “The black goat”. Fiquei muito contente em ouvir uma banda que puxa para o thrash mais arrastado, com riffs melhor trabalhados, com referências de Kreator e algumas coisas de Sepultura e Slayer.

EPs

MERCY KILLING – Escravo Neoliberal

Com três sons destruidores, Mercy Killing mostra porque é um dos grandes nomes do metal paranaense. Com o vocal poderoso de Tati, a banda mostra postura política e riffs empolgantes. Esperamos tê-los por Recife em breve, pois o trabalho é conciso e de qualidade.

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PETALS BLADE – Holocausto

Thrash Death Metal de Castanhal no Pará, a banda Petals Blade lançou o EP “Holocausto” que conta com seis músicas com muito peso e muita raiva. Letras contestadoras, totalmente em português, mostram a realidade nua e crua do Brasil. Anote esse nome, pois o potencial é para grandes álbuns futuros.

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BUFFALO LECTER – Bufalo Lecter

EP de estreia da banda natural de Recife, que faz um rock instrumental, com nuances experimentais muito concisas e criativas. A banda começou mandando brasa e enriquecendo a cena local pernambucana.

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TEMPOS DE MORTE – Depression

Para quem é fã de bandas de gótico pós punk como Plastic Noir, Depression é o EP lançado pela banda paulista Tempos de Morte que nos faz voltar para os anos 80. A mensagem não é positiva, mas por que não curtir o fim do mundo com ótima música. Som fuderoso, que agrada de góticos à headbangers.

QUILOMBO – Itankale
Com inspiração na realidade vivida pelo povo preto desde sempre, o EP conta com seis músicas, com lançamento pela Sangue Frio Produções. Buscando fugir da historiografia contada pelo povo opressor (que tentam justificar o injustificável), as letras contam com um estudo aprofundado, além da participação do percussionista Binho Gerônimo, que trouxe elementos originários da África no EP.

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COSMOGONIA – Reviva

Quem viveu o final dos anos 90 vai se recordar do boom de bandas riot grrrls que aconteceu no Brasil. Dentre elas, uma das mais importantes foi a Cosmogonia. Treze anos após o último lançamento, e um hiato de shows, a banda volta com uma grande bagagem de apresentações e lança EP com três sons inéditos.

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BRAZATTACK – Oposição Cotidiana

O Distrito Federal Caos é o principal celeiro de ótimas bandas de hardcore. Brazlândia, que é uma das cidades satélites do DF não poderia ficar de fora. É de lá que vem a banda Brazattack, que lançou esse ano o seu primeiro trabalho, o EP “Oposição Cotidiana”. Hardcore metal com muito conteúdo politizado.

SPLITS

“Inflamar” – Manger Cadavre?, No Rest, Vasen Käsi e Warkrust

Split 4 way com quatro dos grandes nomes do crust nacional (em diferentes vertentes). Para mim, foi o lançamento mais significativo do ano se tratando da temática, sonoridade, arte e importância no cenário underground.

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“Obliteration” Pandemmy & Abscendent

Pandemmy, uma banda de Thrash/Death Metal daqui de Recife, contou com Rayanna Torres no vocal nesse trabalho, que executou de forma impecável. Já o Abscendent, é uma banda de Death Metal originária da cidade de Lazio, na Itália. O trabalho está muito bem gravado e executado, e é motivo de orgulho que o nosso metal esteja ganhando o mundo.

Aphorism x Rabujos

Duas das bandas mais extremas do nordeste brasileiro se uniram nesse split que conta com brutalidade, sujeira, qualidade de execução e gravação, mostrando que não brincam em trabalho. Você encontra crust, death metal e nas duas bandas, vocais furiosos. Música extrema somada a consciência e qualidade elevada! Porrada no fascismo.

“Enfermo” – Narcose e Dësterrö

Barulho, distorção, duas baterias, gritedo e coisarada é o que você encontra no split. Tem sludge, mas tem um monte de outras coisas também incluindo desespero. O split foi registrado com gravação em apresentação ao vivo da Narcose, e por isso possui soa lo-fi, mas nem por isso perde sua identidade.

É isso! Estamos de férias e até manteremos as publicações de notícias, mas as resenhas ficarão para ano que vem. Continuem enviando material para ser resenhado. Obrigado por compartilharem nossos textos. Continuem produzindo som infernal. Que em 2020, sigamos o exemplo de nossos irmãos do Chile, enfrentemos o fascismo nas ruas até a vitória!

“Inflamar”, o lançamento mais significativo de 2019

Se vocês achavam que 2019 teve lançamentos fuderosos, e que o ano já tinha fechado… Parem tudo o que estão fazendo e ouçam o split “Inflamar” que reúne as bandas Manger Cadavre?, No Rest, Vasen Käsi e Warkrust, todas lideradas por mulheres fortes e muito ativas no underground brasileiro.

A arte da capa ficou a encargo do Marcelo Augusto, que é guitarrista da Manger, e mais uma vez nos surpreendeu com a qualidade de seu trabalho. O lançamento físico estará disponível em breve pelo coletivo de selos Helena DiscosElectric Funeral RecordsCrust Or Die Collective, Xaninho DiscosUnderground Storm RecordsVertigem DiscosPoeira Maldita RecsTerceiro Mundo Chaos e Brado Distro. Ou seja, a distribuição está bem feita para todo o Brasil.

Faixa a Faixa

Se vocês já ficaram boquiabertos com o álbum AntiAutoAjuda lançado pela Manger Cadavre? no dia 1º de maio desse ano, se prepare: os dois sons da incansável banda estão incríveis. “Incendiar” é um som de revolta, com riffs do thrash, death e hardcore, pedal duplo, baixo bem marcado (como é característica do Manger), conta com os urros mais brutais da vocalista Nata de toda a discografia da banda. A letra fala sobre guerras híbridas e as estratégias utilizadas pelos países imperialistas para desestabilizar os países em que eles possuem interesse em implantar medidas neoliberais. O segundo som, “Amazônia”, também tem a ver com fogo. A letra fala das ações de mineradoras e ruralistas que deixaram rastros de sangue nos últimos meses, de acordo com o projeto entreguista. Meus senhores, que bumbo duplo! Que riffs! Que base pesada. Com referências claras de death metal, o hardcore crust da banda ficou muito bem preenchido e mostra que a Manger Cadavre? realmente merece todas as conquistas dos últimos anos.

Foto por Walter de Andrade

E as surpresas não param! Quem é mais velho, vai se lembrar de uma das primeiras, senão a primeira banda de hardcore crust brasileira com uma mulher no vocal: No Rest. O que temos em “Inflamar” é um crust punk metal, furioso e muito bem executado. “Nem sujeição, nem apatia” fala sobre a condição da mulher em nossa sociedade em que “o que é fácil para um, pode ser muito difícil para uma” e como a consciência das mulheres pode despertá-las para não viver sujeitas a tudo o que lhes é imposto pela condição de ser mulher e nem de apatia. É um chamado. Detalhe para os riffs que nos remetem ao blackned, bateria como os compassos do coração angustiado e que vocal. Aline mostrou que ainda é um dos grandes nomes do som extremo nacional. “Abraçando o fascismo” é uma denúncia sobre a extrema direita que se instaurou em nosso país e alguns outros. Som pra agitar e cantar junto! Esperamos que a banda nos presenteie com novos lançamentos, já que o hiato entre o último lançamento e esse split foi grande. Que felicidade escrever sobre vocês!

Foto: Divulgação No Rest

Vocês se lembram que em uma entrevista eu disse para anotarem o nome de uma banda muito promissora? Eis que a Vasen Käsi invade nosso peito com dois sons que também caminharam para o death metal melódico, é o peso do metal, somado ao crust, postura punk. Ambas as músicas são em inglês, com um vocal poderoso de Mars Martins, que somos absurdamente ao som da banda. Mermão, eu que amo Wolfbrigade, estou encantado. “Embrace the fall” é um som incrível! Com riffs muito bem construídos e criativos, que máquina Wallison Paulistinha se mostra. Batera na mesma pegada, preenchendo o som com peso. “Prometheus” segue na mesma linha, death metal com crust do começo ao fim. Letras impactantes, com métricas bem encaixadas. Essa banda ainda irá nos dar muito mais orgulho e com certeza esse lançamento mostra um amadurecimento gigante.

Foto por Amanda Rocha

Fechando esse trabalho formidável, temos o crust d-beat que traz o apocalipse com o vocal sujo e marcante de Anne, com a Warkrust. “Sua sociedade Não Vale Nada” é um som que agrada a headbangers e punks, com destaque aos riffs de guitarra bem colocados e que, ao som do tupá tupá, faz a gente querer abrir o mosh no meio do trabalho. A letra trata de como o ser humano foi condicionado a ser um escravo na sociedade capitalista. “Pobre de direita” começa com um clima desolador, que logo dá licença a ao d-beat e a uma pegada mais ao crust. A letra por si só fala do mal que assola a nossa sociedade atualmente: o pobre de direita. Som muito bem elaborado e sem uma mensagem positiva, como sempre nos avisou a Warkrust. A música termina em um fade out muito legal. Baita som!

Uma curiosidade, a Manger Cadavre? e a Vasen Käsi são bandas do interior do estado de São Paulo, enquanto a No Rest e a Warkrst são de Porto Alegre/RS. Mesmo com vertentes diferentes do crust, as quatro bandas conseguiram elaborar músicas que se conversam e (não sei se foi proposital), possuem uma lógica entre si.

” Em tempos sombrios, somente a mobilização pode inflamar um povo no sentimento de retomada dos direitos que estão sendo usurpados. Converter em chamas as ideias conservadoras e reacionárias. Sair da apatia. Colocar fogo. Lutar. “

Entrevista: Manger Cadavre? fala sobre álbum AntiAutoAjuda e 8 anos de underground

Manger Cadavre? é uma banda de hardcore crust do interior de São Paulo (São José dos Campos e Pindamonhangaba), que possui oito anos de correria e amplo apoio ao underground nacional, seja produzindo eventos, lançando bandas com os selos dos integrantes e com ilustrações do guitarrista. Eles dão uma aula de “Faça Você Mesmo” e se firmam como um dos nomes mais ativos e com qualidade sonora no Brasil. Conversamos um pouco com os integrantes sobre o novo álbum AntiAutoAjuda e sobre a correria de se manter uma banda de forma totalmente independente.

Foto por Stefano Martins

Vocês lançaram um mini doc que retratou como foram os dois dias de gravação do álbum AntiAutoAjuda. Falem um pouco sobre a gravação do disco e sobre a ideia de documentar esse trabalho.

Desde o EP “Senhores da Moral” a gente adotou o Family Mob como o estúdio ideal para registrar o nosso tipo de som. Com eles, aprendemos que gravar ao vivo, com overdubs de guitarra e vocal é forma de manter o som com mais energia e otimizar o tempo de gravação. O Hugo Silva que foi o engenheiro de som responsável pelos 3 últimos trabalhos já conhece bem o nosso estilo e nos ajuda a melhorar sempre. O Otávio que nos assistiu também nos ajudou a ficarmos tranquilos. Como muita gente não entendia como esse processo se dá, nosso amigo/roadie/filmaker/editor João Lucas resolveu registrar todo o processo. Ele nos acompanha desde sempre e foi muito legal. Ele registrou os três últimos ensaios de composição e os dois dias de gravação. Como estávamos bem ensaiados, tudo aconteceu naturalmente. O Family Mob é um dos maiores estúdios de São Paulo e valeu muito a pena gravar lá. Ah, vale ressaltar que conseguimos pagar as despesas da gravação com a venda de material de merch.

Falem um pouco sobre o desenvolvimento da temática do AAA.

Nós passamos o segundo semestre de 2018 em processo de composição, paralelamente aos shows. Isso foi um pouco difícil, pois estávamos estressados com a quantidade de atividades somadas aos problemas pessoas que os quatro estavam enfrentando. Como perdemos alguns amigos e nós mesmos e muitas pessoas próximas estavam em uma situação de adoecimento/sofrimento metal, pensamos em produzir algo que não tivesse um viés niilista, como boa parte das bandas do gênero. No EP “Revide” propusemos que as pessoas se organizassem e revidassem aos avanços do conservadorismo e das práticas neoliberais impostas pelo golpista Michel Temer. No AAA, já em um cenário de sangria, a gente quis abordar as doenças psicológicas causadas pelo capitalismo e propor uma saída, a cura pela luta. Vivemos uma época extremamente individualista e mesmo parte da psicologia coloca que devemos aceitar as coisas e pessoas que não mudam e que isso é ser adulto. O sistema nos coloca em ambientes de superexploração, competitividade, extinção da solidariedade de classe e é impossível sair ileso desse cenário. A narrativa que compõe as letras contaram com apoio teório de leituras da Maria Rita Kehl, Ricardo Antunes, Freud entre outros. A revisão eembasamento foram feitos pelos psicólogos Thiago Bloss (Professor de Psicologia na Uninove) e Elis Cornejo (Prevenção e Posvenção ao Suicídio no Instituto Vita Alere). Ambos participaram do nosso Mini doc. O conceito foi: sentir-se mal é sinal de saúde mental.

Vocês financiaram a gravação com a venda de material de merchandising. Isso é algo formidável nos dias de hoje em que o apoio tem se resumido a likes e compartilhamentos. O que vocês tem a dizer sobre o período atual em que o engajamento em mídias sociais tem se mostrado mais importante que as atividades em espaços coletivos.

Sim! Nós quatro do Manger não temos uma situação financeira muito boa, os quatro trabalham informalmente e as dificuldades são muitas. Felizmente estamos tocando bastante e é nas feirinhas independentes que a venda acontece. Também fizemos uma lojinha virtual, e como por lá é possível parcelar valores no cartão de crédito, muita gente tem adquirido nossos materiais por lá.
Sobre o comportamento atual, acreditamos que é um reflexo do individualismo pregado por essa etapa do capitalismo. A exaltação excessiva de selfies, as bolhas criadas por algorítimos, as rivalidades… isso tudo é pensado. No entanto, na contramão desse comportamento, as mídias sociais (apesar de não serem democráticas, pois você tem alcance reduzido, caso não pague anúncios), ajudaram a conectar pessoas e coletivos de todos os cantos do país. Se pensarmos que o Brasil tem dimensões continentais, isso é algo formidável. Nós utilizamos as mídias como braço para a divulgação do nosso trabalho e propagação da mensagem, é um caminho meio que sem volta, mas investimos nosso tempo no offline. Debates, festivais, fanzines, rodas de conversas ainda são formas efetivas de conscientização.

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Vocês acabaram de lançar 1200 unidades do AntiAutoAjuda por um coletivo de selos e menos de um mês desse lançamento, anunciaram que mandaram prensar mais 500. Como conseguiram?

Sinceramente foi uma grata surpresa a quantidade de vendas que tivemos da nossa cota de CDS e alguns dos selos venderam um número de muito alto logo de cara e nos pediram mais CDs. Acredito que a distribuição por selos em todas as regiões do país ajudaram muito, pois as pessoas podem economizar em frete ou adquirir pessoalmente em eventos. Diferentemente do passado, em que selos e gravadoras mantinham o controle da distribuição e muitas vezes acabavam com material parado, coletivos ajudam em muito na divulgação do trabalho das bandas e na facilitação das vendas. Não temos palavras para agradecer o trabalho duro e sério dos selos Sacrilégio DistroCrust Or Die Collective, Distro & LabelXaninho DiscosElectric Funeral RecordsVertigem DiscosTerceiro Mundo Chaos Discos,Brutal Grind Recs#MetalIslandManaós distro,Helena DiscosResistência Underground Distro e Prod. e #SertaoAttackRecords.

O Marcelo (baterista) e o Jonas (baixista) possuem selos (Helena Discos e Poeira Maldita) respectivamente que colaboram muito com o underground nacional. Como é manter um selo na era do streaming? Ainda vale a pena?

Marcelo: Sim, vale muito a pena, pois mesmo com todo material disponível em streaming que existe hoje em dia (o que é muito bom para se conhecer novas bandas), tem um grande público que consome a forma física da música (CD, LP, DVD, Cassete). Dentro do rock e suas diversas vertentes sempre existiu a cultura do colecionar. Sem contar que existem inúmeras bandas no Brasil que são muito boas.

Jonas: Manter um selo é um ato de resistência, e sim vale a pena, pois quem realmente gosta de ter o material físico em mãos, nunca parou de consumir e sabe que sem o apoio dos selos dificilmente as bandas independentes conseguiram lançar seu material.
Quem contribui com os selos, contribui com as bandas e contribui diretamente para a cena sobreviver.

A imagem pode conter: 1 pessoa, no palco, tocando um instrumento musical e show
Foto por Anderson Chino

O Marcelo Augusto, guitarra da banda, está se destacando como ilustrador com um traço muito foda e desenhos questionadores e políticos para capas de cds e cartazes de shows. Fale um pouco da sua atuação do cenário underground.

Marcelo Augusto: Muito obrigado pelo elogio!
Tenho feito ilustrações para bandas do underground desde meados de 2014, e o que começou como algo despretensioso acabou virando profissão. É muito gratificante poder contribuir com o meu trabalho para a divulgação das bandas, seja com arte para flyers ou merchandising, que é algo indispensável para que as bandas mantenham-se ativas.
Também é muito legal ver que praticamente todas as bandas que me procuram para elaborar uma ilustração, sempre pedem algo contestador em relação ao atual governo golpista, mostrando que o underground está mobilizado contra a corja bolsonarista.
Em breve tem mais ilustrações provocando os conservadores.

Indiquem algumas bandas que vocês curtam e que tem o posicionamento parecido com o de vocês.
São muitas, é difícil indicar poucas, mas não podemos deixar de citar a Desalmado (deathgrind), Surra (Thrashpunk), Red Razor (Thrash Metal), Cosmogonia (punk, hardcore), Warkrust (crust), Cruento (Crust Punk), Discorde (Hardcore), Expurgo (grindcore) Mácula (Crust), Brazattack (Hardcore), Fuck Namaste (Fastcore), Klitores Kaos (hardcore), Bad Trip (Hardcore), Terror Revolucionário (Hardcore), Miasthenia (Black Metal), Rastilho (crust), Vasen Kasi (crust), Crânula (death metal), Rest in Chaos (death metal), Facada (grindcore), Re-Animation (crossover), Kultist (Thrash Metal), Eskröta (crossover)… São muitas! Vamos sempre ficar devendo pois a cena brasileira não deve em nada pra gringa.

Considerações finais:

Muito obrigado pelo espaço! Faça você mesmo, sempre.

MANGER CADAVRE? “AntiAutoAjuda”

Hoje, no dia do trabalhador, a banda de hardcore crust do interior de São Paulo, Manger Cadavre? liberou o seu mais novo trabalho, o álbum “AntiAutoAjuda” nas paltaformas de streaming e com download gratuito pelo bandcamp. A data não poderia ser melhor: AAA é mais que um disco, é uma narrativa, é um manifesto sobre a degradação real do trabalho e que tem consequências diretas na saúde física e psicológica do trabalhador em um sistema cruel, com uma sociedade de consumo.

Esse, que é o primeiro full album da banda, coloca a Manger em um novo grau de maturidade sonora. Eles gravaram nos últimos dias de 2018 no estúdio Family Mob (São Paulo), e contaram com dois dos melhores engenheiros de som do Brasil, Hugo Silva (responsável pela mix impecável) e David Menezes (que trabalha com bandas como Ratos de Porão, Surra, Desalmado…). Sobre a qualidade técnica de produção, a Manger Cadavre? estava nas melhores mãos.

O disco todo é muito bem executado, com destaques ao timbre do baixo de Jonas, que, ao lado do vocal de Nata Nachthenxen (cada vez mais preciso e característico), que dão um brilho especial às músicas. Os riffs que soam ora elementos do neocrust, ora do hardcore tradicional, seguem com uma bateria mais trabalhada que está muito bem preenchida e nos tons que entram em nosso âmago. A dupla de Marcelos trabalhou muito bem.

Antes de falar sobre as letras, vale indicar que você leia as letras pelo bandcamp, pois nessa plataforma, a banda disponibilizou texto adicional, com o qual você é inserido em uma história, na qual as letras estão no contexto.

O trabalho se inicia com “Patologia Sistêmica”, que é um som visceral, introdutório a temática: aquilo tudo que o sistema capitalista faz desenvolver doenças psicológicas como a depressão e ansiedade. Na sequência temos o som “vomitado” intitulado “Produtos do Medo”, no qual a banda apresenta o contexto da distopia neoliberal que cria medos e problemas, aos quais a publicidade vende soluções de consumo. Mesmo nesse momento de análise contextual, a banda já aponta que é preciso se mover. Em seguida temos “Fracasso” e “Caminhos de Ferro”, essa, por sua vez, pelo desenrolar da dinâmica do som e letra nos coloca no sentimento de quem está tendo uma crise de pânico ou ansiedade, até que ocorre uma quebra. Algo está por vir! “Hostil” é uma regravação lançada originalmente no EP “Origem da Queda” e posso dizer sem medo: que evolução. Apesar da estrutura do som ser o mesmo, os instrumentos estão claramente melhor timbrados, executados e a gravação superior. Dentro do contexto do disco, foi uma ótima escolha. Meu som favorito: “Desmascarar as mentiras”. Nessa sexta música temos algo de Obituary no instrumental e vocal que (mesmo que a banda tenha escolhido uma pegada mais hardcore para seguir), deixa claro as influências de death metal e grindcore que também possuem.

Inicio aqui um novo parágrafo pois os três últimos sons merecem um destaque por si só.

Foto por Stefano Martins

Sem estragar as surpresas que o disco esconde, copio aqui o parágrafo que inicia o som “Prefácio”:

“ O mal-estar te salvou de viver uma vida no modo-avião, na qual os cidadãos de bem são cegos e surdos e com o discernimento gravemente afetado. Como ser indiferente em um mundo tão cruel, em que tanta gente sofre? Como subir vidros em semáforos, com medo da violência, onde a gente vê pessoas execradas pelo capitalismo? A herança colonial que perpetua o racismo estrutural. A rotina da exploração, que é uma violência naturalizada, esmagou o que a gente é, e coloca a solidariedade como sinônimo de caridade. Não é! Solidariedade é entender o outro como um companheiro, como um igual e lutar para que ele, para que nós tenhamos uma vida digna. Nos tornamos tecnicamente capazes de fazer coisas que não somos capazes de imaginar. Sonhar? Os tempos são difíceis, mas ainda é possível. E nesse momento é o mal-estar que nos acusa o que resta de humano em nosso corpo. Se livre das receitas prontas de felicidade contidas em guias e livros de autoajuda. Nós somos AntiAutoAjuda. Estar doente de verdade, é estar feliz em sua bolha, com seus privilégios, frente à um mundo miserável. Sentir-se mal, é sinal de excelente saúde mental!”

Eu, particularmente, terminei de ler esse parágrafo com lágrimas nos olhos. Prefácio, que é o som mais hardcore do trabalho, nos convida a ver a realidade por uma outra perspectiva, sem romantização de doenças, mas que nos faz entender que não nos ajustarmos ao sistema não significa que a “peça” com defeito sejamos nós. “Há tempo para os sonhadores” é com certeza o som mais positivo da banda, que possui riffs dissonantes característicos do neocrust, como Wolfbrigade. Fechando o trabalho, entendo as dificuldades que ainda enfrentaremos e com o ser reconhecido, “A Luta como Cura” traz referências de Catharsis, com um vocal destruidor de Nata e backing vocal arrebatador de Caio Augusttus (Desalmado). E mais uma vez: que bateria! E que timbre de baixo mágico!

Desde o título (muito bem escolhido), AntiAutoAjuda é um trabalho reflexivo e que propões mudanças a partir da consciência de classe e encontro da função no ambiente coletivo como parte da cura. É um álbum que vai mexer com você. Vale ainda destacar a bela dedicatória que eles fizeram ao publicar o disco. Veja AQUI.

A arte fantástica foi elaborada pelo guitarrista da banda Marcelo Augusto, e na mesma podemos acompanhar o desenvolvimento das letras.

Com certeza um dos melhores trabalhos lançados em 2019. Extremamente necessário.


“AntiAutoAjuda” terá prensagem em 1000 cópias de CD, lançado pelo coletivo de selos: Sacrilégio Distro, Crust or Die, Xaninho Discos, Eletric Funeral Records, Vertigem Discos, Terceiro Mundo Chaos, Brutal Grind Records, Metal Island, Manaos Distro, Helena Discos, Resistência Underground e Sertão Attack Records.

Confira:
YouTube – https://youtu.be/qlMLuEmeYtY
Bandcamp: http://mangercadavre.bandcamp.com
Deezer: http://www.deezer.com/album/95256392
Spotify: https://spoti.fi/2V7QO1V

Outras plataformas:

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