O Medo Como Forma de Controle: O Novo Álbum do Manger Cadavre? é um petardo da música pesada brasileira | Resenha

O álbum Como Nascem os Monstros, lançado em 2025 pela banda brasileira Manger Cadavre?, é um trabalho que reafirma a força do metal extremo nacional enquanto espaço de crítica social e reflexão sobre as contradições contemporâneas. Gravado no Family Mob Studios, com captação de Leonardo Mesquita (Surra), mixagem de Otávio Rossato e masterização de David Menezes, o disco apresenta uma produção que equilibra clareza instrumental e agressividade, permitindo que a potência sonora caminhe lado a lado com a mensagem das letras.

Concebido como um álbum conceitual, “Como Nascem os Monstros” investiga o medo em suas diversas formas: como mecanismo individual, ferramenta de controle social e gerador de violência simbólica e estrutural. As letras abordam desde a alienação e a manipulação midiática até a opressão institucional e a exploração social, mostrando que os monstros retratados não são seres sobrenaturais, mas produtos da desumanização e das contradições da sociedade. Ao cantar em português, a banda torna a denúncia mais direta e próxima da realidade brasileira, evitando abstrações e reforçando a urgência de sua mensagem.

Musicalmente, o disco mantém a agressividade característica da Manger Cadavre?, combinando thrash, crust e death metal, mas apresenta maior atenção à estrutura e à dinâmica das composições, com passagens até de um Death Doom, mas sempre acompanhados do D-beat, clássico do crust. Riffs densos e velozes se alternam com passagens cadenciadas e tensas, enquanto a bateria e os vocais acompanham com precisão o clima de tensão e desespero que permeia o álbum. A sonoridade cria uma experiência imersiva que transforma cada faixa em parte de uma narrativa maior, conduzindo o ouvinte por uma jornada que começa com inquietação e termina em uma reflexão sobre os monstros sociais e psicológicos que habitam o cotidiano.

A coerência conceitual do álbum é reforçada pela arte da capa, de Bárbara Gil, que mistura formas anatômicas e abstratas para representar visualmente o nascimento desses monstros a partir do medo e da insegurança. As doze faixas formam um conjunto orgânico, em que cada música contribui para o panorama de angústia, indignação e denúncia social, evitando que o trabalho se torne apenas uma coleção de músicas agressivas, mas sim um todo estruturado e intencional.

“Como Nascem os Monstros” demonstra maturidade artística e posicionamento crítico, reafirmando a Manger Cadavre? como uma referência do som extremo brasileiro e do underground engajado. É um disco que combina peso e técnica com consciência social, mostrando que a música pesada pode ser, ao mesmo tempo, uma ferramenta de resistência, reflexão e enfrentamento das injustiças contemporâneas.

Encontramos referências ao Death Metal Sueco, com o som cavernoso do HM-2 que Paulinho traz nas guitarras. No estilo, encontramos influência de Entombed, Bolt Thrower e Obituary. Ao mesmo passo, músicas como ‘Cancêr do Mundo’ e ‘Engaiolados’, trazem referências do heavy metal, são sons enérgicos, que nos remetem ao melhor de Wolfbrigade e Disfear, quando homenageiam bandas como Judas Priest e Motorhead.

Com um baixo muito bem executado, notamos a evolução de Bruno, que aparenta ser o mais jovem do grupo. Marcelo nos surpreende com pedais duplos brutais e a sua habitual energia do d-beat, mas com pratadas bonitas e que fazem toda a diferença no som. Por fim, o vocal de Nata está mais inteligível do que nunca, sem perder o ódio que ela despeja com maestria ao vociferar suas denúncias, como em Abutres, que aborda indiretamente a questão da Palestina e o financiamento de “israel” pelos EUA. Esse som nos faz permanecer em silêncio quando o vocal de Nata acaba sozinho.

Faixa a Faixa

1. Insônia (Instrumental)

A abertura do disco com uma faixa instrumental (pela primeira vez na história da banda) funciona como introdução de clima. “Insônia” prepara o ouvinte para a atmosfera de angústia, tensão e inquietação que permeia o álbum. A ausência de letra reforça justamente essa sensação de agonia silenciosa, o incômodo da mente que não dorme. Serve muito bem como primeiro impacto, antes que a voz e os gritos comecem a aparecer.

2. Engaiolados

Aqui começam as vozes e as letras diretas. “Engaiolados” sugere uma condição de aprisionamento físico, psicológico e social e denuncia as estruturas que aprisionam indivíduos: seja pela alienação, medo, pobreza, opressão ou manipulação. Entendemos que também aborda a FOMO (fear of missing out). Musicalmente, um peso cru e ao mesmo tempo trabalhado, com os já citados elementos do heavy metal, urgente, coerente com o estilo death/crust da banda, reforçando o desespero da condição de estar “enjaulado”.

3. Obsolescência Programada

Com esse título, a música parece abordar a lógica de descarte, não apenas de produtos, mas de pessoas, ideias, vidas. A letra denuncia como sistemas econômicos e sociais transformam tudo em mercadoria descartável, gerando sofrimento, desigualdade e precarização. Sonoramente, a faixa mistura agressividade e urgência, traduzindo a frustração e a crítica de maneira direta. O som tem um início longo, mas que não é enjoativo, mas que cede a um death crust enérgico, que possivelmente deve estar gerando mosh pits.

4. Como Nascem os Monstros

A faixa-título centraliza o conceito do álbum: como o medo, a alienação, o conformismo, a opressão e a violência social e simbólica moldam “monstros”, seres deformados pela dor, pela injustiça, pela manipulação e pela desumanização e que todos nós podemos ser “monstros” de outras pessoas. A música reune peso, densidade e tensão para transmitir a gravidade desse processo. É o núcleo temático: o álbum não fala de monstros fantásticos, mas de monstros reais, feitos por sociedades que se corroem por dentro.

5. A Terceira Onda

“Terceira Onda” se refere a uma nova fase de repressão que as Igrejas Neopentencostais utilizam como estratégia: o medo como fonte de persuasão, pois ao fiél, o inferno se pagará em vida, caso não aja conforme a cartilha. Com sonoridade intensa, a faixa expressa urgência, descontentamento e alerta para os perigos de repetição de opressões e tragédias. Destaque para as passagens melódicas da música que remetem a Carcass.

6. Paralisia

“Paralisia” evoca ideia de imobilidade, estagnação, incapacidade de reagir, talvez provocada pelo medo de se perder o pouco que se possui. A faixa transmite essa opressão psicológica, o peso da indecisão, da insegurança e do conformismo imposto. Sonoramente, riffs pesados e densos, ritmo sufocante, criando uma sensação claustrofóbica coerente com o título e o destaque se dá para os tambores de Marcelo que encerram o som como um decreto fúnebre.

7. Retórica do Silêncio

Esse título já sugere um jogo de contradições retórica que se impõe através do silêncio. Trata-se talvez da crítica ao silenciamento de vozes, à censura, à repressão, à aceitação silenciosa da opressão ou, talvez, da desistência em se discurtir, por se considerar uma perda de tempo, já que o “inimigo é outro”. A faixa provavelmente enfatiza a opressão simbólica e estrutural: o medo de falar, de se manifestar, o silêncio imposto. Musicalmente, alternar rupturas abruptas, tensão, agressividade com um final memorável que induz ao goregrind (mas bem curto).

8. Mortos que Caminham

Um título metafórico, “Mortos que Caminham” sugere alienação por meio de redes sociais, alienados que vivem em modo automático, sem consciência, sem autonomia, zumbis de um sistema doente. A música provavelmente traz urgência em rever o consumo digital, refletindo a desolação e a desumanização que esses processos causam no indivíduo. Sonoramente, é a faixa que mais curti, com palhetadas de Thrash e a essência caótica do crust.

9. Murmúrio

“Murmúrio” aparenta ser um som mais pessoal, que aborda o medo de tentar (O lamento pelo que não foi). A faixa trabalha atmosfera de tensão psicológica, angústia, caos mental em uma bonita poesia melancólica (As ondas são os fantasmas, que nos atrapalham o sono / Em um vai e vem de desejos tardios / Atormentados por um murmúrio). É a faixa mais introspectiva, sombria, explorando o medo subjetivo, o sofrimento silencioso e a instabilidade emocional. Sonoramente, mescla doom, sludge, death metal, com passagens mais rápidas que demonstram esse caos sentimental.

10. Efêmero

A faixa “Efêmero” assume no álbum a posição de provocar não apenas com sua sonoridade, mas com uma imersão sensorial no terror psicológico da experiência humana. No videoclipe, essa proposta se materializa: a banda opta por representar a crise de pânico como um encontro súbito e brutal entre o indivíduo e seus próprios demônios internos, transformando o medo invisível em horror concreto. Musicalmente, “Efêmero” dialoga com essa atmosfera: o som, agressivo, dá espaço a uma narrativa de angústia e desespero, coerente com os sintomas: taquicardia, sufocamento, sensação de irrealidade. A voz, os riffs e os elementos rítmicos funcionam como ecos desse mal‑estar: rápidos, sufocantes, quase claustrofóbicos, como se o som também estivesse respirando de forma descontrolada, junto com quem sofre a crise. Um dos pontos altos do disco.

11. Câncer do Mundo (Capitalismo)

Aqui a crítica social e política se torna explícita e direta. Com “Câncer do Mundo (Capitalismo)”, a banda denuncia o sistema capitalista como doença destrutiva que corrói sociedades, gera desigualdades, sofrimento, desumanização. A faixa provavelmente é uma das mais combativas do álbum: riffs pesados, agressivos, letras contundentes, denúncia social clara. A música simboliza o colapso moral e social gerado pela ganância, pelo poder e pela exploração. No som, também encontramos referências de heavy metal, death e o crust.

12. Abutres

Fechando o álbum, “Abutres” parece representar os predadores da sociedade, aqueles que se beneficiam da miséria, da opressão, do medo, da dor alheia financiando guerras (EUA). A faixa fecha o ciclo de denúncia: depois de expor o medo, a alienação, a desumanização e o funcionamento perverso das estruturas, resta apontar quem lucra com tudo isso. A música traz uma sensação de revolta, urgência, condenação. É o fechamento de um disco que não apenas retrata monstros mas aponta seus criadores. Musicalmente, um death doom da melhor qualidade possível.

Por fim, o Manger Cadavre? apresentou um disco muito diverso, mas com músicas que se conversam. Temos muitas referências, mas ouvimos e dizemos: caralho, isso é muito Manger Cadavre? e a banda sabe muito bem para onde está indo. Com certeza um dos melhores do ano!

Violator Está de Volta e Chutando Bundas: Resenha de Unholy Retribution

“Unholy Retribution” representa o retorno de Violator após 12 anos sem um álbum de estúdio o disco anterior, Scenarios of Brutality, data de 2013. Com oito faixas intensas, o álbum funciona como um desabafo sonoro: uma “vingança profana” contra anos de caos social, político e cultural conforme mencionaram os próprios membros da banda.

Desde o primeiro riff de “Hang The Merchants Of Illusion”, o disco deixa claro que Violator não veio para reinventar fórmulas, mas para reafiar as armas do thrash clássico com brutalidade e convicção. A sonoridade remete aos anos 80 com ecos de Slayer, Kreator e Dark Angel, mas traz também uma maturidade técnica visível: riffs cortantes, bateria veloz e precisa, trocas de andamento e solos incisivos formam a base de uma audição voraz e coerente.

Em “Chapel Of The Sick”, primeiro single do álbum, a agressividade é aliada a letras de denúncia, críticas diretas às mazelas sociais, à opressão e ao contexto político contemporâneo. Faixas como “The Evil Order” e “Rot In Hell” mostram que o álbum não teme explorar passagens mais densas e cadenciadas, variando velocidade e clima para construir uma narrativa sonora mais rica.

A produção de “Unholy Retribution” merece destaque: mixagem e masterização feitas por Yarne Heylen dão ao álbum um som que é ao mesmo tempo cru e bem definido as guitarras cortam, o baixo pesa e a bateria martela com intensidade, mantendo o espírito underground sem sacrificar clareza.

Liricamente, o disco assume tom de revolta e denúncia que a banda sempre trouxe: corrupção, injustiça, crises sociais e os traumas de um período turbulento para o Brasil (e o mundo) servem como combustível para letras viscerais e diretas.

No conjunto, “Unholy Retribution” acerta o alvo: é um disco que provavelmente vai figurar entre os melhores lançamentos thrash de 2025. Violator comprova que, mesmo sem pretensões de inovação radical, ainda é possível e talvez mais necessário do que nunca praticar um metal pesado, urgente e politizado. É um retorno à lida com a brutalidade, a raiva e a consciência.

Faixa a Faixa

1. Hang the Merchants of Illusion

O álbum abre com um ataque fulminante de thrash metal direto e cortante. A faixa funciona como porta de entrada para a fúria acumulada da banda durante os 12 anos sem álbum. Aqui, o Violator denuncia manipuladores ideológicos, falsos profetas e oportunistas políticos pessoas que lucram criando ilusões e confundindo a população. Musicalmente, é puro thrash à moda antiga: riffs velozes, bateria agressiva e vocais cuspidos com raiva. Um começo que anuncia sem rodeios o tom do disco.

2. Cult of Death

Mais sombria e ritualística, esta faixa mergulha em um thrash carregado, com atmosferas que lembram o lado mais macabro de bandas como Slayer e Possessed. “Cult of Death” trata da normalização da violência, da idolatria a políticas destrutivas e da criação de verdadeiros “cultos” em torno de discursos de ódio. O Violator usa aqui um ritmo mais cadenciado e riffs tensos para reforçar o clima de degeneração moral que a letra descreve.

3. Persecution Personality

Aqui a banda acelera novamente, resgatando uma pegada hardcore/thrash que sempre fez parte da identidade do grupo. A música aborda paranoia, perseguição ideológica e a sensação de viver sob constante vigilância seja pelo Estado, pela internet ou pela histeria social. O instrumental é rápido, direto e inflamado, com riffs circulares típicos do estilo e linhas vocais cuspidas quase como slogans. É uma das faixas mais agressivas do álbum.

4. Destroy the Altar

O álbum atinge um de seus momentos líricos mais contundentes. “Destroy the Altar” critica a manipulação religiosa e o uso da fé como instrumento político, denunciando instituições que exploram a crença popular para exercer controle. A música cresce em clima, alternando trechos acelerados com passagens mais pesadas e arrastadas, reforçando a tensão entre devoção e dominação. Um dos momentos mais densos e cheios de letalidade rítmica do disco.

5. The Evil Order

Aqui o Violator entrega um thrash mais cadenciado e grave, com riffs que destilam ameaça. “The Evil Order” expõe a arquitetura do poder: sistemas que se mascaram como ordem e moralidade, mas servem apenas para oprimir e perpetuar injustiças. A faixa lembra o lado mais sombrio da escola alemã do thrash, com construção rítmica sólida, solos incisivos e um clima quase marcial. É uma faixa central para o conceito geral do álbum.

6. Chapel of the Sick

Um dos singles do disco e uma das faixas mais técnicas. Violator critica aqui o fanatismo, os dogmas e a decadência ética de instituições que se dizem protetoras da moral, mas agem com hipocrisia. Musicalmente, é um turbilhão de riffs rápidos, levadas quebradas e mudanças de andamento que mostram a banda em precisão absoluta. É provavelmente um dos momentos mais completos do álbum, equilibrando ferocidade com técnica.

7. Rot in Hell

“Rot in Hell” é pura agressividade, uma descarga de ódio dirigida aos corruptos, aos autoritários e aos responsáveis pela deterioração social. A música trabalha riffs mais densos, clima carregado e uma sensação de condenação inevitável. A letra é explícita e direta, como um veredito. O thrash aqui se aproxima do death metal, especialmente na escolha de timbres e na construção das linhas de guitarra. É uma das músicas mais pesadas do álbum.

8. Vengeance Storm

Fechando o disco, “Vengeance Storm” funciona como catarse final. A música traz velocidade, caos controlado e um senso de batalha, como se sintetizasse todo o sentimento de raiva, frustração e crítica presente no álbum. A faixa fala sobre revanche histórica, sobre enfrentar sistemas opressores e devolver a violência de forma simbólica através da arte. O encerramento é abrupto e direto, deixando a sensação de que o ataque do Violator é contínuo, sem ponto final.

Nossa única crítica é à falta de shows da banda. Eles se apresentarão no Bangers ano que vem, mas infelizmente é um festival em São Paulo e que não conta com entradas populares. O Violator sempre clamou por ser uma banda do povo, esperamos que ouçam os anseios do público (principalmente aqui no nordeste) e nos presenteie com uma turnê para que possamos assistir esse petardo ao vivo.

O Thrash Metal Respira Entre Bombas – Resenha de ‘Rataria’ do Payback

O EP “Rataria” representa um momento de afirmação e redefinição para a Payback. Composto por cinco faixas: “Brainrot / Década da Decadência”, “Estrela de Davi”, “Sabor da Desgraça”, “Rataria” e “Entre o Arame e o Arsenal”, o trabalho marca a primeira vez em que a banda entrega um registro totalmente em português.

Musicalmente, “Rataria” combina a agressividade e velocidade típicas do thrash metal com influências claras do death metal, algo confessado pelos próprios integrantes como uma característica presente no DNA da banda, mas aqui assumida com mais convicção. Essa fusão resulta em um som cru, intenso e urgente, ideal para o tipo de mensagem que a Payback busca transmitir. A produção, feita por Alexandre Resende no Studio X, com mixagem e masterização de Hugo Silva (Family Mob Studios), contribui para manter a contundência sem sacrificar a clareza sonora.

Liricamente e tematicamente, o EP adota um tom de denúncia: aborda a desumanização imposta pelas redes sociais, a alienação e a superficialidade da “era digital”, as tensões políticas contemporâneas, como o avanço do reacionarismo, o autoritarismo e a manipulação midiática, além de tratar de injustiças históricas e críticas sociais. A faixa “Entre o Arame e o Arsenal”, por exemplo, amplia esse espectro para uma crítica global que toca imperialismo, xenofobia e exploração histórica, convocando uma perspectiva anticolonial e de solidariedade aos povos latino-americanos.

A escolha de compor tudo em português reforça a intenção de tornar o discurso da banda mais direto, acessível e contundente ao público nacional, uma decisão consciente de diálogo com a realidade local, e de utilização do metal como instrumento de crítica social e resistência cultural.

Como um todo, “Rataria” funciona como um EP urgente, visceral e politicamente engajado. A Payback mostra maturidade para fundir agressividade sonora com consciência crítica e urgência temática. O resultado é um trabalho que não apenas agrada aos fãs do thrash/death metal extremo, mas que também reafirma o papel da música pesada como espaço legítimo de contestação, reflexão e resistência.

FAIXA A FAIXA

1. “Brainrot / Década da Decadência”

A abertura do EP já define o tom: a faixa critica de forma direta o comportamento narcísico e alienado da sociedade contemporânea, especialmente em relação ao uso massivo das redes sociais e à dependência pela aprovação externa. A letra denuncia a “cultura da superficialidade”, o estímulo constante à aparência e à validação, bem como o vazio existencial gerado por esse culto à imagem e ao consumismo uma “década da decadência”. Musicalmente, a música lança mão da agressividade e da velocidade que evocam o thrash metal tradicional, porém com uma pegada atual e contundente. A escolha de começar o EP com esse tema parece funcionar como um choque uma convocação para o ouvinte despertar desse torpor digital e questionar o entorno.

2. “Estrela de Davi”

Com duração mais curta, “Estrela de Davi” atua como um ataque concentrado e intenso. A letra traz denúncia explícita sobre genocídio, guerra e violência estatal, um grito contra intervenções, massacres e regimes genocidas contemporâneos, com imagens fortes de destruição, guerra e horror. A urgência expressa no vocal e a ferocidade instrumental asseguram que a mensagem não se perca: não é mero comentário, mas indignação aberta. A faixa reforça o caráter político e contestador do EP, lembrando que o extremo do metal continua sendo terreno para denúncias.

3. “Sabor da Desgraça”

Aqui a agressividade assume contornos pessoais e brutais. A letra tem um tom de vingança, uma resposta à opressão, traição ou sofrimento traduzida em imagens de destruição, ressentimento e retaliação. A canção encarna a raiva transformada em potência: a “desgraça” que recai sobre quem causou dor. Musicalmente, a faixa mantém a crueza e a intensidade do metal extremo, talvez a mais visceral do EP. Serve como válvula de escape não só estético, mas emocional expressando dor e revolta como parte da experiência humana diante de injustiças.

4. “Rataria”

A faixa-título concentra o espírito geral do EP. A letra constrói um retrato sombrio da manipulação política, da decadência social e da ameaça de retormar caminhos autoritários uma crítica direta a sistemas opressores, manipulação midiática, injustiças estruturais. Há um sentimento de alerta: “a rataria” são aqueles que conspiram para manter o poder, sem ética, em benefício próprio. Sonoramente, a música talvez seja a que melhor equilibra peso, técnica e mensagem. Com riffs firmes, ritmo carregado e vocais incisivos, “Rataria” atua como centro nervoso do EP: é onde o ódio se torna denúncia, e a denúncia, consciência. A escolha de fechar a primeira metade com essa faixa dá ao EP um arco de transição entre crítica social ampla e conflito mais explícito.

5. “Entre o Arame e o Arsenal”

Fechando o EP, essa faixa assume um tom global e de resistência concreta. A letra aborda colonialismo, xenofobia, opressão a povos latino-americanos e marginalizados, imperialismo e a imposição de fronteiras que alienam e excluem um grito de resistência e reexistência. A banda convoca um resgate histórico e cultural, afirmando raízes e denúncia contra exploração e dominação. Musicalmente, a canção ainda guarda a agressividade característica, mas parece trabalhar também com urgência como se fechasse o EP convocando à ação, à consciência e à reação. Além disso, o videoclipe associado reforça visualmente todo o propósito da faixa, somando estúdio, performance e mensagem num só ato.

Resumidamente, Rataria é um respiro entre bombas do Thrash Metal brasileiro, atualizado com elementos do death metal, que está em alta no país.

A Vida é Temporária: O Death Metal Potiguar do Open The Coffin – Resenha do álbum Once Alive Always Dead

Once Alive Always Dead, novo álbum do Open The Coffin, banda de death metal old school de Natal/RN liderada por Cláudio “Slayer” é um mergulho sombrio e visceral na mortalidade, evocando tanto a podridão corporal quanto a inevitabilidade da morte desde o primeiro acorde. Ao longo das oito faixas, a banda mantém sua essência old school, com riffs pesados, baterias cortantes e vocais cavernosos, emprestando à obra uma atmosfera densa e cadenciada que remete aos clássicos do death metal mais clássico.

A produção, gravada no Black Hole Studio (Natal) e mixada e masterizada na Heavy Track (São Paulo), acerta ao não polir demais o instrumental: o som é sombrio e cru, mas suficientemente limpo para que cada detalhe da guitarra às linhas de baixo apareça com definição. Isso dá à música uma brutalidade orgânica, quase palpável, como se você estivesse escutando um rito fúnebre metálico.

As letras são temáticas de morte, desintegração e vida efêmera: em “Burn My Coffin”, logo na abertura, há uma invocação simbólica à própria sepultura, enquanto “Tomb Number 666” evoca uma simbologia macabra, unindo a contagem infernal à própria noção de túmulo. A faixa-título, “Once Alive Always Dead”, resume o conceito central do álbum: a ideia de que a vida é temporária, mas a morte é permanente, inexorável.

Em “Carnivorous Abomination”, o Open The Coffin traz imagens grotescas de decomposição e predadores mortais, criando uma atmosfera literal de carnificina. “Embraced by the Grave” tem um tom quase romântico, ou pelo menos fatalista, como se abraçar a sepultura fosse uma escolha ou destino inevitável. Já “Decaying Flesh” aprofunda a noção de deterioração física, com riffs que evocam o lento desmoronamento do corpo humano. “Zombified” (já lançada em videoclipe) traz uma energia quase enlouquecida, com a ideia de reanimação após a morte, uma morte-viva metálica. Por fim, a faixa “Tudo Pertence à Morte” fecha o disco com uma resignação absoluta: tudo no final pertence à morte, como um chamado funesto que reforça a mortalidade universal.

Mais do que um álbum de death metal com letras macabras, Once Alive Always Dead funciona como uma declaração conceitual: a vida pode começar no momento em que respiramos, mas a contagem regressiva já iniciou, e o túmulo é a única morada permanente. O Open The Coffin entrega isso com classe, peso e uma reverência genuína ao old school, mas sem soar retrô de forma barata: cada faixa tem sentimento, propósito e, sobretudo, brutalidade. É um trabalho que reforça o valor da banda dentro da cena extrema nacional e mostra que, mesmo falando da morte, eles têm algo vivo para dizer.

Faixa a Faixa

1. Burn My Coffin
A abertura do álbum traz uma invocação intensa: “queime meu caixão”. A ideia parece ser de rejeição da própria sepultura, uma espécie de negação simbólica da morte ou uma afirmação de rebeldia contra o destino inevitável. A faixa serve como introdução ritualística, com riffs pesados e composições sólidas que estabelecem a atmosfera de podridão e desespero que vai permear todo o disco. Há uma carga emocional forte: parece que o eu-lírico quer transformar seu próprio túmulo em cinzas, como se recusasse a sucumbir pacificamente.

2. Tomb Number 666
Com esse título, a música evoca simbolismos macabros e infernais: o número 666 tradicionalmente remete ao diabo ou ao apocalipse, e “túmulo número 666” sugere que a sepultura não é apenas final, mas profana. A faixa provavelmente fala de condenação, punição, talvez de uma morte marcada, ou até de renascimento sombrio. A sonoridade segue pesada, com batidas cadenciadas e riffs graves, propondo uma jornada claustrofóbica dentro de um caixão amaldiçoado.

3. Once Alive Always Dead
A faixa-título traz o conceito central do álbum: a vida e a morte como partes de um ciclo inexorável “uma vez vivo, sempre morto”. Isso sugere que a morte não é apenas o fim, mas a única certeza duradoura depois da vida efêmera. Musicalmente, a canção é provavelmente mais ponderada, com variações de ritmo que refletem a dualidade entre viver e morrer, talvez momentos de tensão alternando com explosões de agressividade, para ilustrar essa transição inevitável entre o existir e o desaparecer.

4. Carnivorous Abomination
Aqui a banda mergulha em imagens grotescas e de horror: “abominação carnívora” remete a uma criatura devoradora, violência extrema, degradação. A letra provavelmente descreve a morte ou a decomposição como algo monstruoso, visceral, talvez um organismo predatório que consome carne e vida. A sonoridade deve acompanhar essa visão, com riffs agressivos, batidas intensas e uma atmosfera de terror primitivo, evocando a podridão e a fome insaciável pela carne.

5. Embraced by the Grave
Essa faixa representa a aceitação da morte: “abraçado pela sepultura” sugere resignação, entrega ao destino, como se o túmulo fosse um abraço final. A letra pode falar sobre cansaço, desespero ou até encontrar consolo na morte. Musicalmente, imagino que a faixa tenha um tom mais sombrio e melancólico, talvez com pausas ou riffs mais cadenciados para transmitir esse sentimento de rendição e recolhimento ao túmulo.

6. Decaying Flesh
“Carne apodrecendo” é uma imagem crua e direta da decomposição física. Essa faixa provavelmente descreve o processo de putrefação, o fim inevitável do corpo, a deterioração da carne, uma meditação brutal sobre a mortalidade biológica. A música deve usar riffs cortantes, timbres graves e uma bateria que martela como se fosse o tambor da própria tumba, para evocar o horror da decadência física.

7. Zombified
Nesta faixa, a banda sugere a reanimação depois da morte, a noção de morto-vivo, revirando fezes da existência. “Zombified” combina a ideia de retorno à vida com a podridão da morte: um ser que já morreu, mas que renasce apodrecido, sem humanidade, contaminado pela podridão. Sonoramente, temos um ritmo mais frenético, clima de caos, para representar a loucura e o desespero de existir sem vida ou uma vida sem alma.

8. Tudo Pertence à Morte
Fechando o álbum, essa faixa parece ser o epitáfio: uma constatação de que tudo, no final, pertence à morte. É como um veredicto universal: a vida, a carne, os corpos, as ambições, a memória, tudo sucumbe à podridão. Essa música provavelmente traz o peso de um encerramento definitivo, com riffs densos, atmosfera ritualística e um sentimento de resignação e fatalidade. Serve como conclusão filosófica e sombria ao conceito do disco inteiro.

O nordeste presenteou o Brasil com mais esse petardo dessa lenda do death metal brasileiro. Ouça no repeat!

Truculence: o novo e visceral álbum do Facada | Resenha

Aproveitando que o final de semana foi de ouvir os lançamentos do ano, aqui vai uma resenha sobre o álbum Truculence, do Facada, um disco que confirma por que a banda cearense segue sendo uma força bruta e incisiva no grindcore / death metal nacional.

Truculence, novo álbum do Facada, é um daqueles discos que chegam sem pedir licença e atravessam o ouvinte com a força de um jato de concreto. Ao longo de pouco mais de quinze minutos, a banda cearense entrega sua mistura característica de grindcore, death metal e crust com a precisão de quem já domina plenamente a própria brutalidade. A produção, assinada por Vanessa Almeida e pelo baterista Vicente Ferreira, encontra o equilíbrio exato entre o som cru que o gênero pede e a clareza necessária para que cada instrumento mantenha sua identidade; nada soa limpo demais, mas tampouco se transforma em borrão. O resultado é uma agressividade natural, quase orgânica, que parece brotar de cada virada de bateria, riff serrado de guitarra e vocal cuspido com ódio calculado.

O disco abre como um soco, com a faixa-título estabelecendo o clima de urgência e desconforto que vai conduzir a obra inteira. Sem pausas, o Facada desfila composições curtíssimas, ferozes e diretas, mas que, apesar da velocidade, trazem nuances: ora empurram o som para um hardcore mais sujo, ora mergulham num death metal sufocante, ora deixam a atmosfera crust tomar conta. O trio demonstra domínio absoluto da economia típica do grind: cada música só dura o quanto precisa e sai de cena puxando a próxima pelos cabelos. Entre as letras, as críticas sociais aparecem de maneira ácida e sem rodeios: frustração urbana, alienação, manipulação, ignorância fabricada tudo exposto de forma brutal, como se cada estrofe fosse uma lâmina sem cabo. Um dos momentos mais marcantes é “Dwyer”, que usa o caso real do político americano Robert Budd Dwyer como alegoria de desespero e falência moral; mesmo em meio ao caos sonoro, o peso narrativo salta para a superfície. Outras faixas, como “Irreversível”, “Saudade Não Acaba” e “Sangrando Concreto”, reforçam o tom de ruína emocional e social que atravessa o disco.

Truculence funciona como um manifesto, não apenas musical, mas também ético. É brutal porque precisa ser; é rápido porque não oferece conforto; é agressivo porque recusa qualquer forma de acomodação. Ao final, quando os últimos segundos de “Feche os Olhos e Contemple” ecoam, o silêncio que se segue parece maior do que o álbum inteiro, um espaço em que o impacto finalmente acerta o peito. Em um cenário extremo que tantas vezes se repete, o Facada mostra que ainda há muito a dizer, desde que se diga com verdadeira contundência. É um retorno feroz e absolutamente convincente, um dos trabalhos mais fortes do grind nacional recente.

Faixa a Faixa

Truculence
A faixa-título abre o álbum como uma declaração de intenções: desde a letra (“esmagar e derrubar”, “ferocidade… pra machucar”) há uma postura agressiva e sem concessões. Musicalmente, serve como uma introdução brutal com riffs diretos, bateria cortante, deixando claro que o disco não será “leve”: a palavra “truculence” (truculência) define bem a sensação sonora, uma violência primitiva.

Irreversível
Essa música provavelmente traz a ideia de uma decisão, ou de algo que não tem volta. A letra, conforme trechos divulgados, sugere culpa, peso das escolhas (“escolhi isso com pesar”) e uma espécie de esforço para demolir algo (“perceber e demolir”). Sonoramente, imagino que combine a urgência típica do grind com momentos mais arrastados para reforçar essa noção de irreversibilidade emocional.

Saudade Não Acaba
Já pelo título, a música passa por uma vertente mais introspectiva ou nostálgica, mesmo dentro da brutalidade, há espaço para sentimento. “Saudade” indica presença de memória ou perda, e “não acaba” sugere que esse sentimento persiste, como uma ferida que não cicatriza. A sonoridade pode variar entre passagens densas e breakdowns para enfatizar essa angústia.

Sangrando Concreto
Uma das faixas mais viscerais e imagéticas do álbum: o “concreto” remete à cidade, ao urbano, ao duro, ao imutável, e “sangrando” sugere destruição ou ferida social. Segundo informações técnicas, a música tem BPM moderado/rápido e tom menor, o que dá uma carga emocional pesada. É como se a música pintasse uma cena de devastação urbana — tanto física quanto simbólica.

Regressão Primitiva
O título sugere uma crítica à regressão social ou moral: “primitiva” remete a algo cru, bestial, talvez uma forma de dizer que parte da sociedade recaiu para comportamentos básicos, violentos ou irracionais. Musicalmente, pode haver riffs mais crus, linhas de guitarra menos polidas, e ritmo quase instintivo, trazendo a sensação de degeneração.

Talvez Nunca
Uma faixa com um ar de incerteza e desespero: “Talvez nunca” significa algo que pode não acontecer ou uma esperança frágil. Pode tratar de frustrações pessoais, promessas quebradas ou sonhos abandonados. A construção sonora provavelmente mantém a pressa típica, mas com momentos introspectivos para refletir essa hesitação ou dúvida.

Não Dormir, Nunca Acordar
O nome já é forte, sugere insônia, angústia existencial, uma vigília constante sem descanso. A letra, segundo o site do álbum, menciona “insônia permanente” e “rotina insistente”, reforçando essa ideia de tensão contínua. É uma faixa curta (como várias no grind), mas carregada de desespero: o som pode transmitir uma sensação claustrofóbica, quase de pesadelo.

Vai Entregar
Aqui a narrativa pode ser de cobrança, vingança ou retribuição. “Vai entregar” soa como uma ameaça ou promessa de reviravolta: algo que foi feito vai receber resposta. A estrutura da música pode alternar entre momentos explosivos e passagens mais cadenciadas para dar peso à ideia de “vão receber o que fizeram”.

Bem Que Eu Disse
Essa faixa parece ter um tom de acusação ou de reafirmação de que o eu-lírico já avisava algo: “bem que eu disse” implica “eu falei, eu sabia”. Pode haver ressentimento ou frustração por não ter sido ouvido antes, e musicalmente isso pode se traduzir em riffs confiantes, talvez com ritmo marchante, para reforçar a sensação de autoafirmação irônica “eu te disse”.

Mente, Engana, Manipula
Uma faixa que aborda a manipulação psicológica, mentiras e falsidade. A letra (“já fui muitos… vou ser alguns deles”, “normaliza absurdos”) sugere uma crítica direta a quem manipula ou se vende para manipular. A sonoridade pode conjugar tensão (com batidas nervosas) e repetições para evocar a ideia de ciclos de manipulação: frases curtas, gritadas, que martelam a mensagem.

João
O título é genérico (“João”), o que pode indicar que a canção representa uma figura comum, talvez alguém genérico, a faixa mais curta, direta, com riffs firmes e vocais incisivos, representando “João” como arquétipo.

Dwyer
Uma das faixas mais comentadas: trata da história de Robert Budd Dwyer, político americano que se suicidou durante uma coletiva de imprensa. A letra traz a imagem perturbadora da “chama da esperança saindo de uma arma”, uma metáfora pesada para desespero, violência institucional, e falência do sistema. Musicalmente, essa faixa pode ter mais espaço para respirar (mesmo sendo grind), porque o tema pede peso emocional. É com certeza uma das mais angustiantes, com vocais gritados, momentos de tensão e clímax dramático.

Grind Ass Fuck! Ouça o disco e vá aos shows!

A Fúria do Desalmado em Monopoly of Violence – Resenha

Aproveitando a vinda da banda paulistana de Death Grind, Desalmado, para terras recifenses (eles se apresentam no Darkside nessa sexta-feira, 28 de novembro), para revisitar o seu mais recenete lançamento: o álbum Monopoly of Violence.

Lançado em 2 de maio de 2025, Monopoly of Violence é o quarto álbum de estúdio do Desalmado. A gravação ocorreu no Family Mob Studio, com produção, mixagem e masterização feitas por Hugo Silva. É também o primeiro registro com a nova formação da banda: João Limeira na bateria e Marcelo Liam na guitarra se juntam a Caio Augusttus (vocal) e Bruno Teixeira (baixo).

A produção é moderna e orgânica, mantendo um peso muito grande que não soa como algo “limpo demais”: a brutalidade é palpável, mas os instrumentos estão bem definidos.

Musicalmente, Monopoly of Violence mescla elementos característicos do death metal técnico com a agressividade e rapidez do grindcore. As 10 faixas são afiadas, diretas e relativamente curtas, algo típico de álbuns com orientação grind, mas também cheias de demanda técnica.

Um ponto interessante é a faixa “Deaf”, que se destaca por ser mais melódica e cadenciada e com partes de hardcore, riffs mais acessíveis e até momentos de “two-step”. Esse contraste mostra a versatilidade da banda: mesmo no meio da violência sonora, há espaço para construção melódica inteligente.

Por outro lado, em faixas mais “clássicas” do metal extremo (como “Blood Thorns”), a banda mantém blast beats pesados, riffs densos e uma atmosfera sombria que reafirma suas raízes mais extremas.

Temática e Letras

Liricamente, o álbum aborda temas bastante contemporâneos e muito contundentes. A “violência monopólica” do título remete às grandes corporações de tecnologia, à influência crescente dos monopólios e à alienação da sociedade moderna. A banda faz uma leitura crítica da desigualdade, da exploração capitalista e de como essas estruturas de poder moldam comportamentos, limitam a liberdade e geram diferentes formas de opressão.

Há também uma dimensão pessoal nas letras: traumas, isolamento, angústia existencial: o Desalmado mistura o macro (sistema) e o micro (indivíduo) de forma bastante eficaz.

Este álbum reafirma o Desalmado como uma das bandas mais importantes e relevantes do metal extremo brasileiro atualmente. O som é sólido, a produção moderna, e as letras têm peso real: não são só violência gratuita, mas violência com significado, reflexão e denúncia.

É um trabalho que exige atenção: não é só brutalidade pela brutalidade, mas uma mistura de técnica, agressividade e conteúdo crítico. Para fãs de death metal técnico, grind ou quem curte metal com postura política, Monopoly of Violence entrega muito.

Faixa a Faixa

  1. Anger
    A faixa de abertura é curta (1:48) e já transmite uma explosão emocional muito intensa. A letra fala de raiva (“Driven by anger”), memórias sombrias e vingança como se o eu-lírico estivesse consumido por ódio por aquilo que perdeu ou pelo que fez. Musicalmente, serve como uma introdução brutal, preparando o terreno para o resto do álbum com riffs agressivos e uma energia crua.
  2. Trauma Bond
    Um tema muito pessoal. As letras falam de traumas, ciclos de abuso, promessas quebradas e uma conexão doentia com a dor (“Heart in pieces, I suffer silently”). A ideia de “bond” (vínculo) aqui não é algo positivo, mas uma ligação que machuca e paralisa, como se a própria ferida fosse parte da identidade do eu-lírico.
  3. No Peace, Only Death
    Essa faixa traz uma visão apocalíptica e existencial: “Fields of starving peace does not thrive … No peace, only death.” Há uma metáfora bastante pesada entre a “paz faminta” e a morte inevitável, sugerindo que a paz verdadeira não existe o que resta é a destruição ou a resignação.
  4. Blood Thorns
    Música muito visual e poética em termos de horror corporal: a letra evoca o corpo como algo apodrecido (“this body, consumed by worms”), rosas negras nascidas da carne, sangue escorrendo por cada poro. É uma imagem forte de dor e transformação sombria. A sonoridade reflete esse horror com riffs densos, lentos em momentos, e uma bateria que parece bater nas paredes de um túmulo.
  5. Deaf
    Essa é a faixa mais melódica do álbum e foi destaque da divulgação. A letra fala de silêncio, solidão, desilusão (“our voices have fallen silent … Grieving our defeat”) há uma sensação de perda de conexão, talvez traumas que impedem de se comunicar ou de escutar. Musicalmente, tem partes cadenciadas, riffs mais diretos e momentos de two-step, equilibrando melodia e agressividade.
  6. Monopoly of Violence
    Faixa-título que aborda diretamente a crítica social: corporações escravizando mentes, sistemas de dominação, leis severas, vigilância a letra questiona “como quebrar esse ciclo?” (“How to break the cycle?”). É um alerta sobre poder, controle e violência institucional, e a música acompanha com peso e urgência, reforçando a ideia de um “monopólio” da violência.
  7. Fall of the Empire
    Aqui o Desalmado invoca imagens de revolta: “tyrants”, “barriers of alienation”, “we will destroy our crosses”. A letra sugere uma queda de impérios opressores, de regimes que exploram e matam. É uma faixa de confronto, de convocação para revolução ou vingança, e a música provavelmente tem momentos empolgados, riffs poderosos e bateria marcante para reforçar esse chamado à ação.
  8. Pig Killer
    Uma das faixas mais provocativas: “Hunters tracking protected pigs / Chasing down their devourers / Billionaires to be slaughtered” a letra usa a metáfora dos “porcos” para representar poderosos (provavelmente bilionários) e fala de julgamento extremo (“electric chair or a bullet to the head”). É uma canção de revolta social radical, repleta de ódio contra a elite. Musicalmente, deve ser rápida, violenta e direta, espelhando a urgência da mensagem.
  9. Last Frame
    “Machines that captured our souls … Guiding us toward collective slaughter” a letra critica a manipulação através da tecnologia, a massificação emocional e mental. Fala de “populações treinadas para semear ódio”, de cérebro torturado, de colapso digital. É uma reflexão distópica sobre como a violência moderna pode vir por meio de sistemas invisíveis e mentais. A música provavelmente tem peso técnico, clima denso e momentos de tensão para transmitir esse terror moderno.
  10. Suffocated
    No encerramento, a letra traz imagens de destruição em massa: “devourers of human flesh / Bodies are destroyed / Lives are tortured / Bombs kill in the name of God … underground rivers flowing with blood”. É uma visão apocalíptica de guerra, genocídio, ganância e sofrimento coletivo. A música fecha o álbum com uma sensação sufocante (como diz o nome), de caos e desesperança como se a violência institucional retratada ao longo do disco tivesse explodido em escala total.

Se puder, confira essa pedrada ao vivo. Desalmado não decepciona nunca.

Torment The Skies lança Clipe de ‘Temple Of Mammon’ pelo Canal Scena

O quinteto natalente, Torment The Skies, lançou nesta quinta-feira, o vídeo oficial da faixa ‘Temple Of Mammon’, com lançamento via Scena Lab.  O som faz parte do ‘EP  Empty Idolatry’ lançado em 2025 e fala sobre a ganância religiosa, com seu culto ao evangelho da prosperidade, em que mata,cega e ilude a humanidade.

Assista aqui:


O projeto foi dirigido pelo Thiago Linhares ( @darvu ), com produção da própria banda e fotografia do videomaker, Thiago Linhares, atuação de Rafael Assunção, que interpretou o líder religioso e gravação da banda tocando no Black Hole Studio. A mix ficou a cargo de Samir Pegado e a master por Cássio Zambotto.

“A ideia do clipe era gravar dentro de templos/igrejas na parte de encenações, para passar a mensagem sobre toda a ganância dentro de espaços religiosos. As cenas feitas por Rafael Assunção mostram um religioso louco, disposto até mesmo a matar pelo simples fato de ter ideias diferentes. Relata também a nossa realidade, em que a mistura da igreja e a política se uniram criando algo terrível. As partes em estúdio, com a banda, mostram também toda ira e indignação com os falsos profetas enganadores da fé.” – comenta o vocalista Jeff.

SOBRE A BANDA

A Torment The Skies é uma banda fundada em 2012 que costuma mesclar as velhas influências do death metal com um death metal técnico e atual. Sua discografia conta com os lançamentos:

Born to Kill (2013) EP

City of woe ( 2016) Single

Impure (2019) Álbum

Human Error (2023) Single

Empty idolatry (2025) Single

Empty idolatry (2025) Ep 

SOBRE O CANAL SCENA

O Scena é, na atualidade, o maior canal no YouTube que fala exclusivamente de bandas do underground brasileiro. Tendo realizado uma pausa em 2024, retorna como vitrine de novos nomes da cena nacional, exaltando o underground pesado. Por meio da produtora Scena Lab, tem realizado curadoria e lançamento de vídeos oficiais, além do trabalho de agendamento de shows e turnês.

O TORMENT THE SKIES É :

Jefson Souza: voz

Dennys Parente: guitar

Aylon Araújo : guitar

Phelippe Melo: baixo

André Luiz: bateria


Siga nas redes sociais 

Instagram: /@tormenttheskiesband

Facebook: /tormenttheskies

End of Pipe prega união e resistência no EP Silence Equals Death, lançamento da Repetente Records

Quarteto de Florianópolis/SC volta à formação em quarteto para mostrar hc/punk melódico com riffs potentes

Em meio à turnê europeia em 2022, a frase ‘Silence Equals Death‘ (em português, ‘silêncio é igual à morte’) estampada na parede de um squat na cidade de Budapeste (Hungria) foi a faísca para a banda de punk/hardcore melódico End of Pipe pensar e compor o registro que agora é materializado em um EP com o mesmo peso de resistência, lançado no streaming via Repetente Records.Ouça o EP ‘Silence Equals Death’ aqui: https://ditto.fm/silence-equals-death.Silence Equals Death é tanto o nome do EP quanto do último single, uma faixa que mistura influências de Strung Out com outras referências da cena californiana. A música mescla versos rápidos, um refrão mais cadenciado e partes mais pesadas e enérgicas, como a parte final da música.”A música é um alerta para nos mantermos unidos e lutar por algo verdadeiro em tempos difíceis. Nos calarmos pode nos levar à morte, no sentido de gerar arrependimentos pela falta de ação”, destaca a End of Pipe, uma banda que nasceu em 2006 na cidade de Florianópolis (Santa Catarina).O lançamento de Silence Equals Death celebra a bem sucedida parceria com a Repetente Records, selo de dois músicos do CPM 22, Badauí e Phil Fargnoli junto ao diretor artístico Rick Lion, que promoveu também os singles anteriores que formam este EP.Agora é hora de pegar a estrada, dentro e fora do Brasil. O EP ainda marcou a volta da banda com a formação em quarteto.”Nos próximos meses, a banda vai fazer shows em Santa Catarina e em outros estados. Algumas datas já estão confirmadas, como em Florianópolis e Balneário Camboriú, e outras estão sendo negociadas para São Paulo”, eles revelam.End of Pipe é Uirá Medeiros (guitarra e voz), Gabriel Jardim, Gabito (guitarra), Rafael Censi (baixo) e Victor Berretta (bateria)
End of Pipe, a bandaEnd of Pipe é uma banda brasileira de punk rock e hardcore formada em 2006 na cidade de Florianópolis (Santa Catarina). Atualmente, é formada por Uirá Medeiros (guitarra e voz), Gabriel Jardim, Gabito (guitarra), Rafael Censi (baixo) e Victor Berretta (bateria).Influenciada por nomes como Garage Fuzz, Shades Apart, Hot Water Music, Farside, Samiam, Bad Religion e Pennywise, a banda tem no currículo quatro turnês internacionais, um álbum full-length, dois EPs e um Split com a lendária banda americana Down by Law.A End of Pipe já dividiu o palco com Dead Fish, No Use For a Name, Less Than Jake, Face to Face, The Adolescents, entre outras.
End of Pipe nas redeshttps://bit.ly/m/endofpipehttps://www.instagram.com/endofpipe/

Brain Rot: projeto solo do guitarrista do Manger Cadavre? lança o álbum de estreia Cérebro Podre

O guitarrista Paulinho (Manger Cadavre?, Orgasmo de Porco) apresenta seu novo projeto solo Brain Rot, uma one-man-band de São José dos Campos (SP) que mergulha no lado mais cru e intenso do Grindcore e do Death Metal. No último dia 13 de setembro, o artista lançou seu primeiro álbum, Cérebro Podre, disponível nas principais plataformas digitais.

Com faixas rápidas, agressivas e enérgicas, o disco traz influências diretas de nomes como Napalm Death, Entombed, Cryptic Slaughter e Old Lady Drivers. As letras, carregadas de crítica social, exploram temas contemporâneos e cotidianos como o vício em redes sociais, o impacto da inteligência artificial, a violência urbana e a morte.

A inspiração para o conceito do álbum surgiu a partir de uma reportagem sobre o termo “Brain Rot”, expressão que descreve a deterioração mental e cognitiva causada pelo consumo excessivo de conteúdos digitais superficiais, como memes e vídeos curtos.

Toda a produção de Cérebro Podre foi conduzida por Paulinho, que assina guitarras, baixo, programação de bateria, vocais, logo, captação, mixagem e masterização. A capa é assinada pelo artista @lobodoesgoto.

 Ouça Cérebro Podre:
https://open.spotify.com/album/2IUIPzYoWPO6r1Ekhp0Iby?si=5n6oN98IQdmiO-P17WTXnQ

https://brainrotgrindeath.bandcamp.com/album/c-rebro-podre

 Siga o projeto no Instagram:
instagram.com/brainrotgrindeath

The Damnnation lança novo álbum ‘Eyes of Despair’

A revelação do thrash metal nacional, THE DAMNNATION lança nesta sexta-feira, 19, seu mais novo álbum, ‘Eyes of Despair’ pela Shinigami Records.

O primeiro single “Burning Rain” teve estreia exclusiva na Decibel Magazine“A faixa definitivamente arrasa, oferecendo uma versão feminina daquele thrash pesado em groove que os compatriotas brasileiros do Sepultura faziam muito bem”, conforme resenha no renomado site americano.

Definido como “um álbum com bastante revolta colocada para fora dos pulmões”, ‘Eyes of Despair’ estará disponível no streaming e em versão física. 

Sucessor do aclamado ‘Way of Periditon’, este é o segundo álbum completo do power trio, que entrega peso, melodia e letras que ecoam situações de desespero, medo, desconhecido, injustiça, feminicídio, situações de isolamento, solidão e nosso crescimento como ser humano.

Sobre o processo de composição, a fundadora, vocalista e guitarrista Renata Petrelli comenta:

“Foi um pouco diferente do álbum anterior. É mais detalhado na produção, mais demorado também, e arriscamos mais. O início foi da mesma maneira, eu trazendo as composições iniciais, com as ideias cruas dos instrumentos e letras. Depois, lapidados na produção, cada uma colocando seus melhores esforços nos seus instrumentos. Me senti mais à vontade em relação ao vocal e tivemos novamente a coprodução da Mayara Puertas nos vocais”.

THE DAMNNATION ousou em ‘Eyes of Despair’, entregando um som com uma pegada mais tradicional mas sem deixar de lado alguns elementos modernos. Neste disco, a banda convidou mulheres da cena do metal nacional, como na faixa “Battlefield”, que é um grito pela liberdade e igualdade. Um hino de desespero, com peso e potência, além da participação da vocalista Opus Mortis (Paradise in Flames). “Evilness” traz a vocalista Daniela Serafim (Invisible Control). Outra faixa de destaque é a balada “Already Dead Inside”, com participação de Mayara Puertas. Na faixa, a banda aposta em vocais limpos e orquestrações leves.

Já o novo single “Burning Rain” entrega peso, um refrão forte com muito groove inspirado no som oldschool. Sobre o single, Renata comenta: 

“A música Burning Rain também é a primeira faixa do álbum. É um som direto, com groove. E por isso foi escolhida como primeiro single. A letra por sua vez, foi baseada em situações inevitáveis que observamos pessoas passarem, ao ponto de se sentirem sufocadas e procuram alternativas de saída”.

Renata Petrelli conta que o disco foi composto em um momento conturbado, e todas suas emoções foram colocadas para fora, como um desabafo que irá ressoar nos ouvintes. 

“Esperamos que, de uma maneira ou outra, quem ouvir se sinta também acolhido de alguma forma, porque colocamos todo o misto de sentimentos que a vida nos proporciona no álbum, então é algo bem orgânico mesmo. Sintam com a gente a raiva, a tristeza, o desespero, a incredulidade de como o mundo e a vida está”.

Ouça o álbum ‘Eyes of Despair’ AQUI!

Assista ao video de “Burning Rain”: AQUI

Radicado em São Paulo no Brasil, The Damnnation é um power trio formado em 2019 pela vocalista e guitarrista Renata Petrelli. Atualmente, a banda conta com Fernanda Lessa (baixo, backing vocals) e Camila Almeida (bateria, backing vocals). 

Em 2020, lançou seu EP de quatro faixas intitulado ‘Parasite’, que transmite um punho furioso de heavy metal old school encontrando o peso do thrash metal, e que conquistou o 9º lugar de melhores EP’s lançados em 2020, em votação no site Metal Injection. Foram 40 títulos na votação, e o power trio feminino provou mais uma vez que ‘Parasite’ é um dos melhores discos lançados em 2020, representando o Metal Nacional. A faixa ‘Parasite’ também entrou na playlist oficial do Spotify, “Thrashers”.

Em 2022, power trio de thrash metal assinou contrato com a gravadora holandesa Soulseller Records para o lançamento do álbum de estreia ‘Way of Perdition’. O álbum recebeu ótimas críticas em diversos sites e revistas especializadas como Decibel Magazine, Metal Injection, Rock Hard, Zero Tolerance, Metal Hammer, entre outras. The Damnnation acumula turnês pelas principais cidades do Brasil, além de Bolívia, Argentina e EUA, dividindo o palco junto com bandas consagradas do metal nacional e internacional, como Nervosa, Incantation, Exciter, Enthroned, Crypta, Torture Squad, Myasthenia, Claustrofobia entre muitos outros e em diversos palcos respeitados do país, como Abril Pro Rock no Recife, Agosto Negro em SC, e mais.

O segundo álbum de estúdio ‘Eyes of Despair’ será lançado em 19 de setembro pelo selo Shinigami Records, com show de lançamento no La Iglesia, em São Paulo, no dia 10 de outubro. A banda anunciará mais datas da turnê do novo álbum ‘Eyes of Despair’ em breve.