O álbum Como Nascem os Monstros, lançado em 2025 pela banda brasileira Manger Cadavre?, é um trabalho que reafirma a força do metal extremo nacional enquanto espaço de crítica social e reflexão sobre as contradições contemporâneas. Gravado no Family Mob Studios, com captação de Leonardo Mesquita (Surra), mixagem de Otávio Rossato e masterização de David Menezes, o disco apresenta uma produção que equilibra clareza instrumental e agressividade, permitindo que a potência sonora caminhe lado a lado com a mensagem das letras.
Concebido como um álbum conceitual, “Como Nascem os Monstros” investiga o medo em suas diversas formas: como mecanismo individual, ferramenta de controle social e gerador de violência simbólica e estrutural. As letras abordam desde a alienação e a manipulação midiática até a opressão institucional e a exploração social, mostrando que os monstros retratados não são seres sobrenaturais, mas produtos da desumanização e das contradições da sociedade. Ao cantar em português, a banda torna a denúncia mais direta e próxima da realidade brasileira, evitando abstrações e reforçando a urgência de sua mensagem.
Musicalmente, o disco mantém a agressividade característica da Manger Cadavre?, combinando thrash, crust e death metal, mas apresenta maior atenção à estrutura e à dinâmica das composições, com passagens até de um Death Doom, mas sempre acompanhados do D-beat, clássico do crust. Riffs densos e velozes se alternam com passagens cadenciadas e tensas, enquanto a bateria e os vocais acompanham com precisão o clima de tensão e desespero que permeia o álbum. A sonoridade cria uma experiência imersiva que transforma cada faixa em parte de uma narrativa maior, conduzindo o ouvinte por uma jornada que começa com inquietação e termina em uma reflexão sobre os monstros sociais e psicológicos que habitam o cotidiano.
A coerência conceitual do álbum é reforçada pela arte da capa, de Bárbara Gil, que mistura formas anatômicas e abstratas para representar visualmente o nascimento desses monstros a partir do medo e da insegurança. As doze faixas formam um conjunto orgânico, em que cada música contribui para o panorama de angústia, indignação e denúncia social, evitando que o trabalho se torne apenas uma coleção de músicas agressivas, mas sim um todo estruturado e intencional.
“Como Nascem os Monstros” demonstra maturidade artística e posicionamento crítico, reafirmando a Manger Cadavre? como uma referência do som extremo brasileiro e do underground engajado. É um disco que combina peso e técnica com consciência social, mostrando que a música pesada pode ser, ao mesmo tempo, uma ferramenta de resistência, reflexão e enfrentamento das injustiças contemporâneas.
Encontramos referências ao Death Metal Sueco, com o som cavernoso do HM-2 que Paulinho traz nas guitarras. No estilo, encontramos influência de Entombed, Bolt Thrower e Obituary. Ao mesmo passo, músicas como ‘Cancêr do Mundo’ e ‘Engaiolados’, trazem referências do heavy metal, são sons enérgicos, que nos remetem ao melhor de Wolfbrigade e Disfear, quando homenageiam bandas como Judas Priest e Motorhead.
Com um baixo muito bem executado, notamos a evolução de Bruno, que aparenta ser o mais jovem do grupo. Marcelo nos surpreende com pedais duplos brutais e a sua habitual energia do d-beat, mas com pratadas bonitas e que fazem toda a diferença no som. Por fim, o vocal de Nata está mais inteligível do que nunca, sem perder o ódio que ela despeja com maestria ao vociferar suas denúncias, como em Abutres, que aborda indiretamente a questão da Palestina e o financiamento de “israel” pelos EUA. Esse som nos faz permanecer em silêncio quando o vocal de Nata acaba sozinho.
Faixa a Faixa
1. Insônia (Instrumental)
A abertura do disco com uma faixa instrumental (pela primeira vez na história da banda) funciona como introdução de clima. “Insônia” prepara o ouvinte para a atmosfera de angústia, tensão e inquietação que permeia o álbum. A ausência de letra reforça justamente essa sensação de agonia silenciosa, o incômodo da mente que não dorme. Serve muito bem como primeiro impacto, antes que a voz e os gritos comecem a aparecer.
2. Engaiolados
Aqui começam as vozes e as letras diretas. “Engaiolados” sugere uma condição de aprisionamento físico, psicológico e social e denuncia as estruturas que aprisionam indivíduos: seja pela alienação, medo, pobreza, opressão ou manipulação. Entendemos que também aborda a FOMO (fear of missing out). Musicalmente, um peso cru e ao mesmo tempo trabalhado, com os já citados elementos do heavy metal, urgente, coerente com o estilo death/crust da banda, reforçando o desespero da condição de estar “enjaulado”.
3. Obsolescência Programada
Com esse título, a música parece abordar a lógica de descarte, não apenas de produtos, mas de pessoas, ideias, vidas. A letra denuncia como sistemas econômicos e sociais transformam tudo em mercadoria descartável, gerando sofrimento, desigualdade e precarização. Sonoramente, a faixa mistura agressividade e urgência, traduzindo a frustração e a crítica de maneira direta. O som tem um início longo, mas que não é enjoativo, mas que cede a um death crust enérgico, que possivelmente deve estar gerando mosh pits.
4. Como Nascem os Monstros
A faixa-título centraliza o conceito do álbum: como o medo, a alienação, o conformismo, a opressão e a violência social e simbólica moldam “monstros”, seres deformados pela dor, pela injustiça, pela manipulação e pela desumanização e que todos nós podemos ser “monstros” de outras pessoas. A música reune peso, densidade e tensão para transmitir a gravidade desse processo. É o núcleo temático: o álbum não fala de monstros fantásticos, mas de monstros reais, feitos por sociedades que se corroem por dentro.
5. A Terceira Onda
“Terceira Onda” se refere a uma nova fase de repressão que as Igrejas Neopentencostais utilizam como estratégia: o medo como fonte de persuasão, pois ao fiél, o inferno se pagará em vida, caso não aja conforme a cartilha. Com sonoridade intensa, a faixa expressa urgência, descontentamento e alerta para os perigos de repetição de opressões e tragédias. Destaque para as passagens melódicas da música que remetem a Carcass.
6. Paralisia
“Paralisia” evoca ideia de imobilidade, estagnação, incapacidade de reagir, talvez provocada pelo medo de se perder o pouco que se possui. A faixa transmite essa opressão psicológica, o peso da indecisão, da insegurança e do conformismo imposto. Sonoramente, riffs pesados e densos, ritmo sufocante, criando uma sensação claustrofóbica coerente com o título e o destaque se dá para os tambores de Marcelo que encerram o som como um decreto fúnebre.
7. Retórica do Silêncio
Esse título já sugere um jogo de contradições retórica que se impõe através do silêncio. Trata-se talvez da crítica ao silenciamento de vozes, à censura, à repressão, à aceitação silenciosa da opressão ou, talvez, da desistência em se discurtir, por se considerar uma perda de tempo, já que o “inimigo é outro”. A faixa provavelmente enfatiza a opressão simbólica e estrutural: o medo de falar, de se manifestar, o silêncio imposto. Musicalmente, alternar rupturas abruptas, tensão, agressividade com um final memorável que induz ao goregrind (mas bem curto).
8. Mortos que Caminham
Um título metafórico, “Mortos que Caminham” sugere alienação por meio de redes sociais, alienados que vivem em modo automático, sem consciência, sem autonomia, zumbis de um sistema doente. A música provavelmente traz urgência em rever o consumo digital, refletindo a desolação e a desumanização que esses processos causam no indivíduo. Sonoramente, é a faixa que mais curti, com palhetadas de Thrash e a essência caótica do crust.
9. Murmúrio
“Murmúrio” aparenta ser um som mais pessoal, que aborda o medo de tentar (O lamento pelo que não foi). A faixa trabalha atmosfera de tensão psicológica, angústia, caos mental em uma bonita poesia melancólica (As ondas são os fantasmas, que nos atrapalham o sono / Em um vai e vem de desejos tardios / Atormentados por um murmúrio). É a faixa mais introspectiva, sombria, explorando o medo subjetivo, o sofrimento silencioso e a instabilidade emocional. Sonoramente, mescla doom, sludge, death metal, com passagens mais rápidas que demonstram esse caos sentimental.
10. Efêmero
A faixa “Efêmero” assume no álbum a posição de provocar não apenas com sua sonoridade, mas com uma imersão sensorial no terror psicológico da experiência humana. No videoclipe, essa proposta se materializa: a banda opta por representar a crise de pânico como um encontro súbito e brutal entre o indivíduo e seus próprios demônios internos, transformando o medo invisível em horror concreto. Musicalmente, “Efêmero” dialoga com essa atmosfera: o som, agressivo, dá espaço a uma narrativa de angústia e desespero, coerente com os sintomas: taquicardia, sufocamento, sensação de irrealidade. A voz, os riffs e os elementos rítmicos funcionam como ecos desse mal‑estar: rápidos, sufocantes, quase claustrofóbicos, como se o som também estivesse respirando de forma descontrolada, junto com quem sofre a crise. Um dos pontos altos do disco.
11. Câncer do Mundo (Capitalismo)
Aqui a crítica social e política se torna explícita e direta. Com “Câncer do Mundo (Capitalismo)”, a banda denuncia o sistema capitalista como doença destrutiva que corrói sociedades, gera desigualdades, sofrimento, desumanização. A faixa provavelmente é uma das mais combativas do álbum: riffs pesados, agressivos, letras contundentes, denúncia social clara. A música simboliza o colapso moral e social gerado pela ganância, pelo poder e pela exploração. No som, também encontramos referências de heavy metal, death e o crust.
12. Abutres
Fechando o álbum, “Abutres” parece representar os predadores da sociedade, aqueles que se beneficiam da miséria, da opressão, do medo, da dor alheia financiando guerras (EUA). A faixa fecha o ciclo de denúncia: depois de expor o medo, a alienação, a desumanização e o funcionamento perverso das estruturas, resta apontar quem lucra com tudo isso. A música traz uma sensação de revolta, urgência, condenação. É o fechamento de um disco que não apenas retrata monstros mas aponta seus criadores. Musicalmente, um death doom da melhor qualidade possível.
Por fim, o Manger Cadavre? apresentou um disco muito diverso, mas com músicas que se conversam. Temos muitas referências, mas ouvimos e dizemos: caralho, isso é muito Manger Cadavre? e a banda sabe muito bem para onde está indo. Com certeza um dos melhores do ano!










