Desalmado: Som extremo anticapitalista e correria independente

Desalmado é uma banda operária. Uma banda que não espera as coisas acontecerem e levam o “Faça Você Mesmo” natural do punk para o metal. Com essência no grindcore, mas influência do death metal, as questões de raça, classe e luta contra o capitalismo estão presentes em todos os trabalhos do grupo. Além da banda, eles acrescentam em muito com a cena independente com projetos paralelos… Mas o foco dessa entrevista, é falar um pouco sobre os quinze anos dessa trajetória totalmente independente.

O Desalmado está em atividade sem pausas há 15 anos. Entre algumas mudanças de formação, vocês sempre foram ativos dentro do underground. Comentem um pouco sobre a mudança do cenário daquela época para os dias atuais.

Na época estávamos na raspa do tacho de ter suporte de selos e gravadoras importantes, isso fazia diferença e ainda faz mesmo que tardiamente. Em contrapartida era o momento de expansão massiva da internet e redes sociais, era o momento de aprendizado e surgimento de uma nova safra de bandas do underground, muita coisa mudou em termos de publico e forma de consumir música. Hoje o estilo que fazemos parte sofre um pouco para se renovar, mas esta caminhando firme na construção de algo novo.

O “Save us from ourselves” foi aclamado como um clássico do som extremo nacional. Com uma temática incisiva e instrumental brutal e muito bem produzido, o SUFO colocou a banda em outro patamar. Falem sobre o processo de composição, lançamento e o que mudou para vocês depois desse lançamento.
Foram 16 meses de muita preparação, muita volta atrás até chegar no resultado que gostaríamos. Quando saiu não esperava que as coisas soassem tão boas como aconteceu, acho que agora em 2019 estamos colhendo os frutos desse lançamento, com o reconhecimento e aumento considerável de fãs e amigos.

Foto: Raoni Carneiro

Com o passar dos anos, vocês incrementaram o death metal ao grindcore de vocês, deixando o som ainda mais pesado. Como isso aconteceu?

Cara, vou falar por mim, sou do death metal e sempre faço questão de frisar isso. Acho  que essa veia mais metal sempre existiu, mas nesse disco por incrível que pareça não teve nenhum tipo de condicionamento pra soar como algo Y ou X, não colocamos nenhum limite para criar, com essa liberdade, optamos por deixar o som mais pesado com algo que faria mais sentido pra cada integrante, e esse denominador comum era o death metal. Um exemplo prático, Estevam começou a ouvir mais death metal nos ultimos 4 anos, talvez de tanto encher o saco dele em discussões enormes por conta do Morbid Angel hahaha em algum momento, por meio do Gojira, que é altamente influenciado pelo Morbid, algumas fichas caíram e as coisas começaram a fluir melhor. Sou um grande fã do Morbid e ele do Gojira, enfim entramos num acordo hahaha

Considerada a tríade do grindcore nacional, Desalmado, Facada e Expurgo lançaram ótimos álbuns em 2018. Além da qualidade, as três bandas tem em comum o lançamento por um dos principais selos do Brasil, a Black Hole. Falem um pouco sobre essa parceria com o selo e a importância da venda de material de merch para que uma banda se mantenha nos dias de hoje.

A Black Hole nos ajudou no lançamento do split com o Homicide, mérito deles por fazer esse meio campo, e depois topou a parceria com outros selos, no caso o Helena Discos para soltar o nosso disco. Foi bem legal e é muito bom estar num espaço com tantas bandas incriveis.  Em tempo, agradeço ter incluido o Desalmado nessa tríade, é uma honra pra nós. 

Cara, sem merchandising a banda não sobrevive, simples, as pessoas chegam em nós pensando que vivemos da banda hahahah mal sabem eles que o merch ajuda a banda a fazer todos os deslocamentos, e atualmente, a planejar o próximo disco. Alias, obrigado a todos que compram na nossa loja e shows, vocês não tem dimensão do quanto isso é importante.

Foto: Marina Melchers

Como o cenário atual do Brasil tem afetado a cena local de São Paulo? Vocês consideram que o underground está mais conservador ou progressista?
Ta dividido, mas acho que sempre foi. Sempre circulei em meios progressistas, então vi pouca diferença no dia a dia. Agora é simples, a galera conservadora que ta no nosso meio é um pessoal revoltado por ser revoltado, não pensa no que ta rolando no mundo e abraça qualquer merda de meio de comunicação e sai por ai reproduzindo. Na real, essa galera gosta de cachaça na cabeça e falação de merda, quer ter uma familia e ir pra igreja no final de semana no final das contas. Eu curto pra caralho encher a cara de cachaça e curtir um som, mas a diferença é que sei como o mundo funciona e quero fazer a revolução socialista, mesmo bêbado hahaha 

Tivemos o prazer de ver o show de vocês no Abril Pro Rock. Vimos no mini doc que o vocalista Caio e o baterista Alemão ficaram doentes durante o período (o que não afetou em nada o show que estava brutal e foi um dos melhores da noite). Fora esse incidente, o que acharam da cena nordestina?
Segunda vez nossa em terras nordestinas, segunda vez incrível. Amamos o nordeste e todos os amigos/fãs que fizemos nessa região. Rolou essa parada comigo e Alemão, foi uma turnê também pelo sistema de saúde da região e várias farmácias, mas no final das contas o amor pelo som extremo prevaleceu. Sobre a cena nordestina, to pra dizer que ao lado das bandas mineiras, o nordeste concentra uma gama de bandas muito fora da curva no país, principalmente no ceará, pernambuco e rio grande do norte, torço pra que continuem produzindo muito.

Qual a mensagem que vocês deixam para a galera que está começando uma banda em 2019?

Estejam preparados pra ralar, não esperem nada de ninguem, evoluam como músicos e NÃO SEJAM PREGUIÇOSOS EM HIPÓTESE ALGUMA. As bandas que super deram certo pra fora são exceções, a gente conta em uma mão, pode apostar que ralaram pra caralho.. Quer reconhecimento? Trabalhe duro e não seja cuzão.

Indiquem 5 bandas nacionais que vocês curtem e falem um pouco sobre elas.

Foto: Marina Melchers

Paura, banda de hardcore que ta a mili anos no corre, fazem uma parada digna demais e só ficam melhores com o tempo, é igual vinho. Surra, amigos de longa data, o som da nova geração. Manger Cadavre?, o hardcore crust no ponto certo e com muita atitude. Escarnium, o death metal brasileiro em grande estilo. Deadtrack, decobri há pouco, torço para que tenham longevidade. Ficaram fora muitas outras de fora que poderia escrever 3 paragráfos por aqui.

Considerações finais.

Apoiem nosso cenário, compareçam aos shows, façam desses espaços uma grande festa, escrevem em blogs, canais, lutem contra o capitalismo e seu exército de fascistas, se organizem para fazer a revolução.
Muito obrigado pelo espaço, longa vida ao colecionador <3.