Do Hardcore ao Death Crust, ‘Decomposição’ é o Auge do Manger Cadavre? | Resenha

Foto por Dani Moreira

Manger Cadavre? é uma banda que nunca decepciona e mais do que isso, sempre nos surpreende com uma ascensão sonora contínua. Você não encontra o mais do mesmo nos lançamentos dessa banda. Você encontra crescimento, cada vez mais peso e a mesma energia irradiante que é transmitida nos shows.

Inaugurando a nova formação, que conta com Nata nos vocais, Marcelo Kruszynski na bateria, Paulo Alexandre na guitarra e Bruno Henrique no baixo, a banda lançou o segundo álbum cheio da carreira, o “Decomposição”. Nesses 10 anos de estrada, a banda produziu muito, com EPs, singles e splits. Dessa vez, temos o sucessor do já clássico “AntiAutoAjuda”, que mostra uma maturidade gigante, fato que tem colocado a banda em evidência também em outros países, levando o nome da cena brasileira à novas fronteiras.

O trabalho, que está saindo em material físico no Brasil pela Xaninho Discos em parceria com um coletivo de selos e com distribuição pela Blood Blast, selo digital da Nuclear Blast, contou com a participação de Fernanda Lira (Crypta e Ex-Nervosa) e de Caio Augusttus (Desalmado) no som Demônios do Terceiro Mundo. A gravação foi realizada no renomado Family Mob Studios, com gravação e mix por Otavio Rossato e masterização por David Menezes.

A arte de capa ficou ao encargo do nosso conterrâneo Wendell Araújo, que exprimiu todo o sentimento das músicas em uma arte detalhada e pesada.

“Decomposição” é um álbum para se ouvir completo. O faixa a faixa te aprisiona num looping do começo ao fim, e quando você se dá conta, está ouvindo mais uma vez. Com afinação mais baixa que os trabalhos anteriores os riffs que caminham entre o death e o black metal, com pitadas de metalpunk, somado ao vocal mais visceral que nunca de Nata são as grandes mudanças que fizeram a Manger Cadavre? se destacar ainda mais. A inclusão de mais pedais duplos nas músicas do é mais um ponto que somou muito à estética dos sons. O baixo, nesse trabalho mais tímido, não deixou a desejar: sujeira e peso na medida certa.

Solta o play para acompanhar o nosso faixa-a-faixa:

https://open.spotify.com/album/1mQWm2XpyrZeCRV2n2dR5M?si=kAUtB2uVT5mfnpR6Vgj6ag

Dividimos as músicas em dois blocos: No primeiro temos músicas mais pesadas, calcadas no death metal com o crust, que abordam temáticas com metáforas para temas mais abstratos. O álbum começa com “Epílogo“, que se trata de um som que fala do momento antes da morte e tem andamentos rápidos e com clima pesado. Com o baixo trazendo mais peso, a variedade de elementos na bateria é outro diferencial. Na sequência, “A Raiva Muda o Mundo” tende a ser a nova “O Homem de Bem”, som que faz a galera se matar loucamente nos moshs. “Em Memória” é um som rápido, mas que ao mesmo tempo tem um certo clima pesado. Destaque para o d-beat da bateria que não deixa o som cair. Em uma pegada mais sludge metal mesclada com o crust, encontramos “Vida, Tempo e Morte” e “Apatia“, essa segunda bem arrastada, com elementos do doom metal.


Chegamos a parte mais politizada das músicas. Seria um Lado B de um possível vinil? “Miseráveis“, por sua vez é o som que vai agradar muito aos fãs de Wolfbrigade, com elementos do metalpunk bem marcantes. O som faz uma crítica a apropriação das pautas de representatividade por grandes empresas, mas que no final das contas continuam explorando a todos. “Neocolonialismo” é o som que a galera fará a festa, pois é um crust muito empolgante e que conta com um apontamento ferrenho aos países imperialistas, que tem o Brasil como uma colônia, nos desindustrializando, explorando de todas as formas possíveis e levando as nossas riquezas naturais e mão de obra barata. “Tragédias Previstas” é o som mais hardcore metal da banda, com uma estrutura bem marcante. Mais uma vez temos denúncias sobre aqueles que corroboraram para as tragédias que vivemos, e que não se tratam apenas da Covid-19, mas todas aquelas causadas pelo capitalismo. É um som atemporal enquanto esse sistema existir. “Profetas da Submissão” é um som com um andamento muito rico das cordas, com peso, palhetadas e melodias, além da bateria do hardcore. É o único som que nos lembra mais os trabalhos anteriores da banda. “Demônios do Terceiro Mundo” é a ode dos trabalhadores que se rebelam contra o sistema e seus braços. Analogia perfeita de olhos negros (anarquistas) e corações vermelhos (comunistas) em uma frente antifascista avançando contra os ceifadores. Ainda na pegada mais enérgica, como o som anterior, fechamos o disco com “Cemitério do Mundo“, música com letra do baterista Marcelo, que sintetiza o Brasil na pandemia. Com um solo de guitarra na entrada da música, que remete ao crossover de bandas como Suicidal Tendencies, logo os andamentos caminham para outro rumo, mas que casam perfeitamente com essa novidade. É um som raivoso, um som sentido, um som que transcreve perfeitamente o peso e a revolta que os tempos atuais nos impuseram, terminando com uma vinheta que eterniza absurdos cometidos e ditos pelo atual desgovernador do nosso país.

Todas as mudanças que a banda Manger Cadavre? trouxe em “Decomposição” foram positivas e temos certeza que o trabalho abrirá ainda mais portas para a banda que já vinha em uma ascensão, que foi interrompida pela pandemia. Aguardamos poder desfrutar do álbum com a banda nos palcos, pois a vontade de ver a banda após ouvir esse trabalho, só aumentou.

Nota: 9.5

Você pode adquirir o material em CD com os selos abaixo:

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