A Expressão Dos Tempos Sombrios | Resenha de Mass Mental Devolution do Desalmado

A banda paulistana Desalmado, que está há 17 anos na estrada, conseguiu nos surpreender mais uma vez. Quando pensávamos que eles atingiram seu auge com Save Us From Ourselves, álbum em que já haviam feito a transição do som do grindcore para o death/grind, eles resolveram ousar e absorver elementos de outras vertentes do metal, como o sludge e o doom. O resultado não poderia ter sido outro: um disco de metal, que já não se pode ser rotulado. É o Desalmado, com suas características marcantes, mas com uma sonoridade que te evoca sentimentos nem sempre tão bonitos, como a raiva, a melancolia e o transborda em pranto.

Mass Mental Devolution vem após o lançamento do EP Rebelião (2020), que contou com duas faixas em português, trabalho no qual encontramos músicas mais rápidas e com muita crítica ao capitalismo e ao neoliberalismo que nos massacra.

Para quem ainda não conhece, antes de falar propriamente sobre o álbum, apresento Caio Augusttus (vocalista), Estevam Romera (guitarrista), Bruno Teixeira (baixista) e Ricardo Nützmann (baterista): Desalmado, banda que está em atividade desde 2004, sem pausas, e com a maioria dos membros fundadores, conta com shows brutais e enérgicos. Se você puder, em 2022, assista uma apresentação, te garanto que a experiência vai trazer alguns roxos, mas você vai agitar no mosh, como se tivesse 17 anos novamente.

OITO MÚSICAS PARA MATAR DEUS

A faixa título desse grandioso trabalho, Mass Mental Devolution é um som porrada, que nos coloca de frente exatamente com a involução mental em massa que os tempos da hiperconectividade trouxeram. Com riffs vertiginosos e uma batera na velocidade da luz, com certeza será um dos queridos do público em shows.

O clima pesado da busca pelo seu lugar no mundo e em um sistema excludente, está expressado nos vocais fortes, marcantes e que demonstram o desespero contido de cada indivíduo. Caio canta sobre riffs agonizantes de Estevam Romera, que somados aos graves do Baixo de Bruno e a bateria de Riocardo, que preenche o som como se arrancasse algo da sua alma.

O desespero cede lugar a porrada, em Praise The Lord and Kill People, música extremamente crítica e com sonoridades mais voltadas ao death metal. Fãs da fase mais metal de Napalm Death vão apreciar.

Quando você perde tudo e o vazio te toma, e você luta continuar, mas é tomado pela melancolia. Se você já passou por isso, vai se identificar com as melodias tristes e peso que Hollow traz em cada camada de sua composição. Destaque para o pranto que soa como um chamado da morte, feito pela cantora argentina Noelia Recalde, que trouxe ainda mais agonia para a música. O sludge metal está presente até às entranhas.

As raízes do grind podem ser reencontradas no death metal em Unity, som para se quebrar e liberar o seu ódio por esse mundo desigual. Unidos para sobreviver e bradar um dos melhores sons do álbum. É um som que conta com muitas características já clássicas do desalmado como riffs, passagens de bateria e vocais extremos.

Palhetadas de black metal? Temos também! My Enemy, merece destaque pela masterização que te deixa imerso no som. Não há muito o que escrever, apenas sentir. Para mim, o melhor som do trabalho.

Krisiun está aqui! Sim, está com o solo característico de Moysés Koslene em Outsiders. Outro som que merece muito destaque (sinceramente, é difícil colocar destaques, quando os 8 sons são grandes obras). Aqui encontramos passagens melancólicas e muito bonitas naturais do sludge, que cedem lugar a brutalidade de riffs na pegada black metal, como em uma transição para a explosão de raiva, que chega às passagens mais rápidas mais death metal. O solo do Moysés é a cereja desse bolo negro.

Fechando esse, que pra mim já figura como um dos melhores lançamentos de 2021, temos Your God Your Dictator, o primeiro single lançado do trabalho. Uma crítica voraz às religiões e suas guerras, que na realidade escondem outros interesses. Os deuses do capitalismo que fazem povos se matarem em nome da fé. O clima do som é pesado, com passagens ora mais brutais, ora mais rápidas. Aqui exaltamos a bateria que está incrível. Como diria o próprio Caio, Ricardo toca gostoso. rs

Nota: 10/10

Estamos ansiosos para ver a banda levar o nome do metal brasileiro para a Europa e América Latina em 2022, em grandes festivais como o Obscene Extreme Festival que já anunciou a presença da banda. Desalmado é um dos nossos grandes orgulhos da cena nacional.

Ouça o álbum completo no Spotify:

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