O Crustpunk Contestador da Väsen Käsi

É inegável que o Brasil se tornou um celeiro de ótimas bandas com influência do crust em sua sonoridade. Dentre bandas como No Rest, Mácula, Aphorism, Manger Cadavre?, Nunca, Deadtrack, Distanásia, Warkrust, Rastilho… surge a Väsen Käsi. Mesmo com pouco tempo de existência, conta com qualidade sonora com peso de anos de estrada. Anote esse nome, pois vocês irão ouvir muito sobre essa banda. Confira a entrevista que fizemos com eles.

Foto por Luís Galaverna

A banda começou com outra formação, a qual lançou o excelente EP autointitulado. Falem um pouco sobre essa formação e o processo de composição do trabalho, a temática e o lançamento.

P: Muito obrigado pelo elogio! Quando a banda ainda era apenas uma ideia, eu compus duas músicas, já pensando em como elas soariam em conjunto e como seria seu diálogo umas com as outras. Aí, com a formalização da banda – Paulistinha (guitarra e voz), Bob (guitarra), Marcelo Feijão (baixo e voz) e Gil (bateria) -, compusemos outras músicas e percebemos que algumas delas não possuíam uma conexão, não se alinhavam àquilo que queríamos em termos de som. A princípio, como eu tocava guitarra e cantava, algumas músicas exigiam mais de mim: por vezes, a guitarra era muito exigida, por outras, o vocal tinha uma preeminência. Aí fomos nos adaptando como um quarteto até conseguirmos extrair o melhor que podíamos de cada música. O processo de composição teve muito disso, de tentativa e erro, até alinhar tudo do jeito que queríamos, mas, falando desse modo, parece ter sido um processo amplamente racional em todos os aspectos, só que não foi bem assim: era simplesmente compormos, ouvirmos e decidirmos se era legal ou não (risos). Nesse primeiro registro, tentamos usar cada música para abordar um aspecto diferente: a escravidão, tratada em Ov Fire and Wind, advém das leituras de Frantz Fanon; a vida nas cidades, abordada na Children of the Storm, vem de nossas experiências de vida cotidiana mesmo, sobre o mundo no qual vivemos; a Sentimento do Mundo é mais direta, mais simples, mas foi elaborada em conjunto em um ensaio, onde construímos sua estrutura rítmica e melódica. Durante esse ensaio, conversamos sobre o que estávamos lendo e eu citei o poema “Sentimento do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade. Pegamos um verso do poema e o utilizamos na música – “quando eu me levantar / o céu estará morto e saqueado”. Sobre o lançamento, pensamos em várias formas, mas vimos que quase todas seriam muito caras, e naquele momento não tínhamos as condições materiais para tal: só os custos de um lançamento em vinil pagariam novas gravações, então não valia tanto a pena. Não descartamos nenhuma hipótese sobre lançamento e gostaríamos de lançar em tudo o que desse, tipo vinil, CD, fita cassete, VHS, holograma, em formato ASCII etc (risos), mas tudo depende de variáveis sobre as quais não temos tanto controle, que são os apoios. Vamos trabalhar para que isso seja possível. No que diz respeito à formação, a Vasen Käsi foi formada em 2017, como um quarteto. Éramos eu (guitarra), Bob (guitarra), Marcelo Feijão (baixo) e Gil (bateria). Com o tempo, a banda foi se solidificando, ganhando mais corpo, e as músicas começaram a exigir mais de nós. Como necessitávamos de uma/um vocalista, convidamos a Mars, o que proporcionou o impulso que precisávamos, já que os vocais ocupavam muito espaço dos instrumentistas. Após o show no Soco na Fuça, em São José dos Campos, o Gil saiu, de forma amigável, para organizar sua vida pessoal. Apesar da saída dele, que estava conosco desde o começo, a entrada do Chis (Balanopostite, Eleanora) foi crucial para o som que estamos elaborando atualmente, para nutrir outros aspectos e elementos musicais. Como o Chis vem de uma sonoridade mais extrema, muitos elementos novos foram introduzidos nas músicas, o que aumentou nossa gama de possibilidades de composição.  

Após a mudança da formação, Paulistinha deixou o vocal para se dedicar apenas a guitarra e a Mars passou a integrar a banda. Como foi esse processo de transição? 

P: A mudança se deu por dois motivos: o primeiro, diz respeito a uma questão de saúde mesmo, já que eu não aguentava mais cantar por causa de dores de cabeça e falta de fôlego; o segundo, pelo fato de que sempre quisemos ter os vocais da Mars na banda. Essa história é engraçada: no nosso primeiro show, ainda como um quarteto, tocamos com a Adacta (Eslováquia) e com a On Crash. A Mars é vocalista da On Crash e assistimos boquiabertos à apresentação. Pensávamos em como seria se ela cantasse conosco. Aí, um bom tempo depois, tivemos um show com a Balanopostite, onde tocam a Mars e o Chis, e assistimos àquilo impressionados. Foi nesse show que percebemos que, definitivamente, eu não aguentaria mais fazer o vocal: terminamos de tocar e eu estava tonto, sem fôlego, suando muito. Deitei no banco do carro e tive de lidar com uma forte dor de cabeça e com enjoo. Demorei algumas horas para me recompor, enfim, foi terrível (risos). Então colocamos um anúncio no Facebook dizendo que precisávamos de vocalista. Surgiram alguns nomes, mas nós queríamos a Mars na banda. O nosso maior problema é que pensávamos que, pelo fato de ela morar em Araraquara, não aceitaria. O Gil (o então baterista na época), fez o convite, e ela topou! Aí alinhamos ensaios e novas composições. A transição foi muito tranquila, porque os vocais dela, associados aos meus e aos do Marcelo (fazemos os backing vocals) produziram um efeito muito interessante: a minha voz é mais rasgada; a do Marcelo é mais grave; já a voz da Mars consegue variar entre ambos! Resumindo, ela sabe cantar, e eu e o Feijão só arranhamos (risos).

Em 2019 vocês lançaram um split com a banda de blackned crust Nunca. Como se deu essa parceria?

P: O Nunca é uma banda que admiramos muito, composta por três grandes amigos nossos. Em 2018, tocamos com o Nunca pela primeira vez, em Campinas/SP. Fomos a primeira banda a tocar no evento, então tivemos um bom tempo para trocar ideia! O Alcir ficou o tempo todo conosco, conversando sobre o som, sobre bandas, sobre política etc. Isso tudo possibilitou nos aproximarmos, porque percebemos que havia uma sintonia fina em tudo o que dizíamos. Um tempo depois, o Alcir nos fez a proposta de lançarmos um split com o Nunca, e topamos na hora! Criamos um grupo de Whatsapp e fomos alinhando tudo. Aliás, foi um baita trabalho: nós entramos apenas com as nossas músicas e com nossa parte em dinheiro; o Alcir correu atrás da arte, da parte gráfica, da prensagem etc; o Martinho fez o texto (que acompanha o split em formato físico) sobre refugiados; o Nuna, da Nuna Records, entrou com uma parte em dinheiro também, e conseguimos lançar! Ao final, foi um trabalho muito bacana, feito por amigos, por pessoas que se apoiam mutuamente. Isso é um ponto que consideramos muito importante: não há competição, há soma de forças em torno de algo que gostamos de fazer, de algo que acreditamos. 

As letras da banda são extremamente politizadas, com temáticas como a escravidão, revolta e ativismo. Quem escreve as letras? Como se dá o processo de composição da banda?

P: As letras foram escritas por mim com inspiração em leituras, vivências e coisas que vejo com amigos ou ligadas ao meu trabalho. Sou assistente social e trabalho na política de saúde daqui de São Paulo/SP atendendo vítimas de violência sexual (infantil/adulto), o que acaba proporcionando uma forma mais desesperada, mais angustiante na hora de compor uma música. Por outro lado, sou estudante de ciências sociais, e isso contribui muito para a escrita das letras: nem sempre o que procuramos é uma politização extrema, mas uma forma de trabalhar os diversos assuntos que nos cercam por meio da estética de cada música, usando metáforas para lidar com os temas. No primeiro registro, a ideia era essa mesma, sem um rumo muito claro: eu aliava algumas das vivências a leituras de antropologia e tentava construir algo em torno disso, que fosse mais poético, mais metafórico e menos direto. Cresci ouvindo músicas que falam de forma muito direta sobre diversos assuntos, principalmente as bandas dos anos 1990 e começo dos anos 2000, que contribuíram imensamente para minha vida como um todo. Só que na Vasen Käsi eu queria fazer algo um pouco mais reflexivo e mais metafórico. Realmente não sei se conseguimos isso, mas é interessante saber que a estrutura lírica de uma música ajuda muito a dizer sobre como ela soará para as pessoas: as músicas são formas expressivas, assim como a fotografia, o vídeo, as artes plásticas etc. Como formas expressivas, elas expressam algo além do imanente: tendem a transcender, e essa é a nossa perspectiva – traduzir nossos sentimentos sobre determinados assuntos de modo que seja algo permanente, que seja uma resposta pessoal sobre como enxergamos problemas que são atuais e que, muito provavelmente, não deixarão de ser com o passar dos anos. É um processo pesaroso escrever sobre essas coisas, mas é uma prática interessante. Hoje, nosso foco é a construção de músicas que estejam mais engajadas na metáfora dos mitos, as estruturas (ou falta delas) e subestruturas que esses mitos implicam na consciência, como por exemplo os mitos gregos, os mitos guarani, os mitos judaico-cristãos etc. Como essas culturas lidam com a ideia de mal? Como elas lidam com a ideia de liberdade? Como elas lidam com o gênero? Esse é o nosso foco, mas sempre buscando levar em consideração nossas próprias posições políticas, nossas formas de ser, agir e estar no mundo, de interagir e nos relacionar com o mundo. Na banda, todxs temos posições políticas bem definidas: somos anarquistas e marxistas, juntos, fazendo música. Posso dizer que temos uma “filosofia” de vida baseada na assertiva de Foucault: a vida anti-fascista vivida como uma resistência cotidiana. Isso tudo implica sobre como fazemos nossa música, sobre como compomos nossas letras e sobre como agimos perante as diversas nuances da realidade.    

Foto por Luís Galaverna

Indiquem cinco bandas que possuem o posicionamento ideológico semelhante ao de vocês e que vocês curtam o som no estado de São Paulo e fale um pouco sobre elas.

P: Meu, que pergunta complicada (risos). Só cinco? (risos). Pois bem, vou citar algumas, mas quero deixar registrado que quase todas as bandas da nossa cena (as que não são machistas, racistas, homofóbicas e/ou incoerentes em suas práticas) nos impulsionam a continuar com o que fazemos. Nós, aqui no Brasil, tiramos leite de pedra para fazermos música e música de qualidade, sem “dever” nada para as cenas mainstream (Europa e Estados Unidos), e quando citamos um número limitado de bandas, levamos mais em consideração nossa proximidade, nossa afinidade mesmo, do que por um falso critério de “merecimento”. A primeira que vou citar é a Rastilho, que faz um som fantástico e que traz letras poderosas demais. Desde que conheci o trabalho da Elaine (ainda no Abuso Sonoro), fiquei impressionado com seu envolvimento – suas produções políticas e artísticas -, e o que a banda faz, enquanto conjunto, me inspirou muito. Quando assisti a uma entrevista da Elaine e do Marcelo Papa naquele canal do youtube Meninos da Podreira, percebi que aquilo era algo que me orgulhava muito, porque discurso e prática se alinhavam. Eles me mostraram, sem querer e sem saber, que ainda era possível fazer algo legal na cena. Quando tivemos a oportunidade de conhecê-los, de tocarmos juntos e trocarmos várias ideias, a experiência me proporcionou mais fôlego para continuar. A segunda é a Manger Cadavre?, banda que já tem um tempo de estrada e que produz muito, com letras muito boas e com uma postura muito interessante, coerente. Ainda não tocamos com a Manger, mas em breve isso será sanado, já que tocaremos juntos no Women ‘n’ Crust, em agosto deste ano. O que mais me agrada na Manger é o cuidado do pessoal com as letras: em tempos de niilismo correndo solto pela cena, a Manger faz um trabalho com acuidade suficiente para não deixar a esperança morrer! A terceira é a Nunca, formada por amigos e que possui uma forma sombria de expressar a arte de maneira bastante sólida. A amizade com o pessoal da Nunca nos aproximou e nos ensinou muito sobre cena, sobre história, sobre amizade, sobre como fazer as coisas de forma simples e direta. A quarta banda que quero citar é a Älä Kumarra, banda do meu bairro (Freguesia do Ó) e que possui um som direto, bastante nervoso e feito por gente que também faz a cena acontecer, produzindo shows, organizando eventos etc. São nossos amigos e estamos juntos nessa caminhada! Agora vou quebrar a regra e indicar duas bandas (risos): a 5.1 é a V.I.F. composta por Katharine, Nordson, Karine e a Helô. É uma banda com letras excelentes e com uma formação inclusiva, composta por pessoas amigas, gente que produz um engajamento que vai para além da cena! Nós amamos cada integrante da V.I.F., e a Katarine e o Nordson são pessoas admiráveis, sempre nos apoiando e dando o maior suporte! A 5.2 é aDays of Hate, banda dos nossos amigos Samuel e César. Para quem não conhece, é um duo de noise bastante barulhento, que faz muito estrago e que nos ajudou muito a tocar em vários lugares e com várias bandas diferentes!  

Quais foram os festivais que vocês participaram e que mais gostaram até o momento? 

P: Participamos de alguns festivais e eles foram muito importantes para nós! Três deles foram decisivos, por vários motivos, e vou listá-los em ordem cronológica: o Massacre Crust, em São Paulo/SP, foi organizado pelo Bonga, e foi uma porta de entrada: conhecemos pessoas de várias partes do Brasil, não apenas de São Paulo! A amizade com o Warkrust vem desse rolê!  O segundo foi o Soco na Fuça, em São José dos Campos, que é organizado pela Nata e pelo Marcelo, ambos do Manger Cadavre?, e foi um baita rolê porque, além de ter nos levado a conhecer outra cena, outras bandas, outros lugares, e nos aproximado do pessoal de lá, também foi o último show com o Gil na bateria, marcando o que seria nossa mudança sonora, que veio a acontecer com a entrada do Chis! O terceiro foi o No Gods No Master, que era um sonho: queríamos muito tocar nesse evento por ser construído por práticas das quais acreditamos e que tomamos para nossas próprias vidas. No dia em que tocamos no No Gods, tudo “deu errado”: o Bob se perdeu no caminho, meu amplificador não funcionava e estávamos todxs cansados pra caramba, mas no final deu tudo certo: tocamos, vendemos bastantes CDs e camisas, conhecemos pessoas incríveis e aprendemos muito com todo o processo! Esses três eventos foram de extrema importância para nós, mas, com certeza, todo show é importante e tem suas peculiaridades!  

Vocês possuem atividades no cenário independente além da Väsen Käsi?

P: Eu participo de um coletivo (Coletivo V.I.F., que mudará de nome, em breve) com um casal de amigos, a Katarine (V.I.F.) e o Nordson (V.I.F./Katástrofe Social), organizando shows e arrecadações beneficentes. Mas, em termos de cena, minha atuação se encerra aí: banda e Coletivo. Gostaria muito de trabalhar com um selo ou distro, mas não tenho muito tempo para me dedicar. É mais um sonho mesmo, algo que, um dia, farei. Também gostaria muito de editar um zine! Acho que os zines contam muito da história da cena, são formas de registro mesmo, de fazer com que nossa história não seja esquecida. 

Considerações finais  

P: Quero deixar registrado aqui o meu agradecimento pelo espaço e dizer que em breve teremos muitas novidades: disco novo, nova estampa de camisa, logotipo novo, fotos novas, tudo novo (risos). Quem quiser saber mais sobre a banda, é só procurar por Vasen Käsi no spotify, no bandcamp ou no instagram (@vasenkasivk). Se quiser trocar uma ideia diretamente conosco, pode nos procurar pessoalmente por meio do facebook ou instagram.

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